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Barrabás - o Barba Azul

Barrabás - o Barba Azul

Barrabás e o Último Acto

Edição Jurídica

Barba Azul, 04.11.25

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Barrabás e o Último Acto

A Comédia Judicial de um País Irrecuperável
 
Portugal, essa eterna novela jurídico-burlesca, acaba de estrear mais um episódio da série “O Processo Que Nunca Mais Acaba” e tem como título do capítulo: “Pedro Delille abandona o barco de Sócrates e o navio continua a arder”.
 
O advogado, cansado de fingir que a justiça portuguesa é um sítio onde se julga, decidiu fazer o que qualquer pessoa com um mínimo de respeito por si mesma faria, bateu com a porta e saiu de cena. Alegou, em carta ao tribunal, que já não podia participar num “simulacro de julgamento” e Barrabás, à porta do tribunal, cá fora, murmurou em coro com os portugueses atentos: "ah, então só agora é que percebeste?
 
O “episódio da semana passada”, essa pérola de dramaturgia em toga, envolveu uma repreensão pública da juíza Susana Seca, a guardiã da liturgia judicial, que, entre interrupções e sussurros, transformou a audiência num "reality show" de decadência institucional. Delille, talvez num raro momento de lucidez trágica, olhou à volta, viu o cenário de cartonagem, as personagens de toga mal passada e os figurantes pagos a indignação, e concluiu que aquilo já não era um julgamento, foi transformado numa missa negra da burocracia, celebrada em nome do Espírito Santo do Formalismo.
 
Mas temos que ser justos, porque em Portugal, os simulacros não são acidentes e sim métodos. A justiça é uma longa coreografia de incompetências coreografadas, onde todos fingem dançar conforme a música, enquanto a orquestra toca debaixo de água. Um país que passa décadas a investigar um ex-primeiro-ministro e ainda não consegue chegar a uma sentença, não tem um problema de justiça, tem um problema de ficção, por desvendar.
 
O caso Sócrates é, na verdade, o spin-off infinito da série “Casa dos Segredos Edição Tribunal Central”. Cada episódio traz uma nova personagem secundária, um novo adiamento, uma nova carta dramática, um novo “incidente processual” que ninguém entende mas toda a gente comenta. O guião é tão previsível que já se pode prever o final, mais prescrições do que culpas, mais comunicados do que condenações.
 
Pedro Delille abandona, e nós aplaudimos o gesto com ironia, porque a coragem, neste circo, não está em enfrentar o sistema, está em reconhecer que o sistema é uma caricatura de si próprio. A justiça portuguesa é o único espectáculo onde o público já sabe o desfecho antes do primeiro acto, mas continua a assistir, entre pipocas e desespero, só para ver até que ponto a vergonha é capaz de se reinventar.
 
E lá seguimos, com juízes que repreendem, advogados que desertam, arguidos que envelhecem à espera da eternidade processual e cidadãos que, entre um aumento de impostos e uma gargalhada amarga, percebem finalmente o que Pedro Delille quis dizer: "em Portugal, não há julgamentos, há encenações".
 
Portugal é o país onde o tempo judicial não corre, rasteja, onde cada processo é um relógio parado, e cada sentença uma miragem prometida aos tolos que ainda acreditam que o crime, um dia, dá cadeia. Pedro Delille percebeu, tarde mas a tempo, que o palco do caso Sócrates não é um tribunal, é um teatro barroco onde os actores entram e saem, mas o enredo é sempre o mesmo, o herói cai, o vilão ri, o público boceja, e o encenador, com o patrocínio da justiça, manda repetir o acto até que todos morram de tédio ou prescrição. É uma peça onde as cortinas nunca fecham, os figurantes mudam de toga, e o texto, escrito em latim burocrático, serve apenas para encobrir a nudez do poder. No fundo, o caso Sócrates não é sobre culpa ou inocência, é sobre resistência, a resistência de um sistema inteiro a ser julgado.
 
O “simulacro de julgamento” que Delille denuncia é apenas o último acto de uma longa tradição nacional, com a justiça como arte performativa. Do BPN ao BES, do Freeport ao Marquês, da EDP ao Benfica, tudo em Portugal se transforma em processo, mas nada se transforma em consequência.
 
Senão, vejamos o arquivo histórico da vergonha:
 
O Caso BPN, onde a elite financeira tratou o banco como uma vaca leiteira, e o Estado, sempre compassivo, pagou a ração. Como resultado? Uns quantos anos de espectáculo, umas prisões preventivas para fingir moralidade e, no fim, absolvições como se fossem hóstias sagradas.
O Caso BES, um monumento de impunidade erguido em nome de Ricardo Salgado, o “Dono Disto Tudo”, o qual continuou a dar entrevistas sobre ética, enquanto o país engolia a dívida com juros e indignação, até decidir viver da reforma miserável,
 
O Caso Freeport, essa epopeia de corrupção pós-industrial, que acabou como um filme inacabado de Manoel de Oliveira, longo, arrastado, e sem resolução.
 
O Caso EDP, onde Manuel Pinho, entre jantares, PowerPoints e parelhas de cornos, foi acusado de corrupção passiva enquanto o país continuava a pagar a eletricidade mais cara da Europa e a acreditar que a justiça trabalhava a 220 volts.
 
O Caso Raríssimas, onde a caridade se revelou um negócio de luxo e os protagonistas continuam a desfilar em galas, porque em Portugal a vergonha tem passadeira vermelha.
 
O Caso das PPP, onde o Estado contratou a ruína e assinou o recibo de culpa, mas ninguém sabe quem redigiu o contrato com a mediocridade.
 
E assim seguimos, entre audiências suspensas, recursos infinitos, juízes transferidos e procuradores que mudam de cargo antes de mudar de opinião. A justiça portuguesa é um carrossel de toga, gira, mas nunca sai do sítio.
 
Delille, ao abandonar Sócrates, não saiu apenas de um julgamento: saiu de uma religião. Porque a fé na justiça, em Portugal, é o último sacramento da ingenuidade e ele percebeu que o tribunal não procura a verdade, mas apenas o timing político adequado para que tudo prescreva com elegância.
 
E lá está Sócrates, sentado no banco dos arguidos, como um velho actor à espera da última ovação. O guião já está escrito e o tempo cuidará de o absolver, não por inocência, mas por cansaço colectivo.
 
E enquanto o país continua a discutir penas suspensas, delações premiadas e “vícios processuais”, os verdadeiros criminosos brindam nos terraços de Lisboa, com vista para um Tejo, que já viu demasiadas absolvições e demasiado poucos remorsos.
 
Se algum dia, o caso Sócrates, chegar ao fim, o que, convenhamos, exigiria uma conjugação astral raríssima entre Marte, Capricórnio e o Tribunal Central a funcionar em tempo útil, talvez reste apenas uma pergunta a Barrabás, digna de ecoar entre as ruínas deste simulacro de justiça: "Se José Sócrates for absolvido de tudo, quem julga quem o julgou?"
 
Porque se há verdade que até os inimigos reconhecem, é que Sócrates, com todos os seus defeitos e excessos, tinha uma visão de desenvolvimento para Portugal. Gostava do progresso como outros gostam do poder, visceralmente. Acreditava no país com uma arrogância épica e talvez tenha sido isso o seu maior pecado, porque em terra de medíocres, a ambição é crime de lesa-rotina.
 
O país que o acusou e o partido que o rejeitou, é o mesmo que, antes dele, o aplaudia de pé enquanto os fundos europeus choviam e as autoestradas brotavam como ervas daninhas. A mesma gente que agora o aponta como símbolo da decadência nacional, é aquela que se deixou governar por mediocridades sem projecto, burocratas sem rasgo, e tecnocratas de PowerPoint.
 
E Barrabás, sentado na primeira fila deste teatro da moral, pergunta: "Se o julgamento terminar em nada, quem indemniza o país pelo desperdício de décadas de ódio, de manchetes, de histeria? Quem será julgado por transformar a justiça em arena política, por destruir reputações em nome da decência pública enquanto o Estado se afundava em compadrios?".
 
A ironia é cruel, porque talvez Sócrates tenha sido culpado de acreditar que podia transformar Portugal num país europeu antes de o ser, mas o sistema, esse velho vampiro institucional, tratou de o relembrar, que aqui não se mudam estruturas, apenas nomes nas placas.
 
O verdadeiro crime de Sócrates, se existiu, não foi a corrupção, mas a ousadia. A ousadia de pensar grande num país pequeno, de querer acelerar um motor que há séculos trabalha em ponto morto, mas a vingança do sistema foi exemplar, arrastá-lo até à exaustão, até que o povo confundisse a demora com justiça e o descrédito com equilíbrio.
 
E assim, se um dia a sentença for absolvição ou, mais previsivelmente, prescrição, Barrabás estará lá, de charuto aceso e gargalhada amarga, para fazer a última pergunta que ninguém quer ouvir:
"E agora, quem paga a fatura?".
 
"Quem compensa o país por ter destruído o único político que, com todos os demónios e vaidades, ainda tinha um projecto de Nação? Quem responde pelo tempo perdido, pela política reduzida a espectáculo, pela justiça convertida em crucifixo mediático?".
 
Barrabás levanta-se, cospe a cinza no chão e sentencia com o sarcasmo de quem já viu tudo e não se surpreende com nada:
 
"Talvez Sócrates não tenha sido o Messias, mas o país, esse, continua a ser o mesmo que crucifica quem ousa prometer ressurreição".
 
Barrabás, que por acaso conhece bem os corredores do poder e as celas da hipocrisia, ri-se com raiva e num tom de desespero lúcido, desses que sabem que já não há redenção possível. Ri-se como quem vê o diabo confessar-se ao padre e o padre pedir desculpa. Ri-se porque percebe que em Portugal, a justiça não é cega, é míope, selectiva e vendida em suaves prestações de silêncio. Ri-se, enfim, porque aprendeu que neste país o pecado é punido não pela gravidade do acto, mas pelo azar de quem o cometeu fora da confraria certa.
 
Chamam-lhe justiça, mas é apenas administração da esperança, porque em Portugal, a corrupção morre sempre de velhice antes de ser julgada.
 
E depois cospe para o chão, com a solenidade dos profetas cansados, e murmura, olhando para o horizonte coberto de prescrições e comunicados:
 
"Quando a Justiça se transforma num espectáculo de sombras, os inocentes tornam-se figurantes e os culpados passam a produtores executivos.
 
Portugal, o país onde o crime compensa e desde que o advogado saiba esperar, o palco continua montado, as togas engomadas, as câmaras apontadas, faltando apenas o letreiro luminoso à entrada dos tribunais:
 
“Bem-vindo ao Teatro Nacional da Justiça, hoje em cena: A República das Aparências.”

O Livro da Revelação Digital

Edição Artificial

Barba Azul, 18.10.25

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O Livro da Revelação Digital

O Apocalipse segundo o Algoritmo, capítulo único, versículo final
 
E o Código disse: faça-se a confusão. E a confusão fez-se em alta definição, com publicidade segmentada e comentários anónimos. E viu o Algoritmo que era bom… para o engajamento.”
Barrabás, premiu o botão e viu abrir-se o ecrãn, surgindo uma besta de luz azul, com olhos de notificação e dentes de trending topics. Chamava-se Algoritmo, e sobre ela cavalgavam todos os políticos em busca da redenção instantânea. Cada “like” era um grão de incenso e cada “Partilha” um voto simbólico lançado no altar da irrelevância.
 
E o povo olhava, encantado, para as profecias luminosas. Mithá falava de demónios, Ventura de purezas. Ambos se julgavam os profetas da verdade, quando na verdade, não eram mais do que personagens secundários, no grande reality show da desinformação.
 
O Algoritmo ria-se. Ria-se de todos, ria-se de ti, de mim, de quem comenta, de quem se indigna, de quem se julga lúcido por insultar com mais vocabulário. Era um riso frio, binário, sem saliva nem alma, o riso das máquinas que aprenderam o gosto da estupidez humana.
 
E Mithá levantou-se para expulsar o mal:
“Sai desse corpo, demónio vingativo!”
 
Mas o demónio respondeu com voz de notificação:
“Demasiado tarde. Já encarnei em todos.”
 
Ventura, por sua vez, prometeu construir um novo templo, com colunas de populismo e vitrais de vitimização, onde o povo pudesse orar pelo regresso da simplicidade perdida. E o povo foi, rezou, comentou e partilhou, porque nada é mais divino, hoje, do que ter uma opinião antes de pensar.
Então, caiu sobre Portugal uma chuva de posts e indignações. Os rios de moral secaram, os montes da coerência derreteram, e eu, Barrabás, ouvi uma voz que dizia:
“Chegou o fim da Verdade.
 
Cada um terá a sua, entregue ao domicílio pelo algoritmo, entre anúncios de casinos e promessas de salvação nacional.”
 
E de imediato, todo o País foi salvo, mas apenas no sentido figurado, e com direito a publicidade a seguir.
 
Mithá desapareceu num último texto inflamado, Ventura subiu aos céus das sondagens e o Algoritmo sentou-se no trono, piscando uma última luz, enquanto decretava:
 
“Bem-vindos ao Juízo Final 5G, porque aqui, todos os demónios têm a sua conta, já identificada.”
Barrabás tornou a carregar no botão, o ecrã fechou-se e houve silêncio, um silêncio pincelado, de quem percebeu, tarde demais, que o verdadeiro inferno não é o outro, é a própria ligação, instável, ruidosa, cheia de notificações e opiniões que ecoam como demónios de viva-voz. O inferno é este Wi-Fi da alma, sempre ligado, mas nunca presente. É o feed infinito da culpa, o scroll sem redenção, onde cada alma partilha a sua maldição com filtro sépia e legenda inspiradora. "error4004"
 
E o Código significava confusão. No fim, a confusão fez-se em alta definição, com publicidade segmentada e comentários anónimos, vendo finalmente o Algoritmo que era bom… para o engajamento.
 
Amém e “subscreva o canal”.

Pinotes, o Pregador da Derrota Alheia

Crónica Maioral

Barba Azul, 15.10.25

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Pinotes, o Pregador da Derrota Alheia

Crónica de Barrabás, escrita entre a gargalhada e a implosão
 
André Pinotes Batista entrou no estúdio televisivo como quem chega a Fátima depois de sobreviver a um engarrafamento no IC19, emocionado, suado e convencido de que o Espírito Santo do comentário político o havia escolhido para conduzir as massas pela estrada da lucidez socialista. O problema é que, ao contrário da procissão, aqui não havia velas, só os escombros eleitorais do PS e o brilho delirante de um candidato que descobriu o humor involuntário.
 
Com ar de quem acabara de salvar o distrito de Setúbal de uma invasão bárbara liderada por André Ventura e Rita Matias e os seus 20 vereadores ressuscitados, Pinotes declarou, com a solenidade de um santo em campanha de auto ajuda, que o CHEGA tinha “falhado redondamente” os seus objetivos. Claro, porque passar de 0 para 20 vereadores é, para os socialistas, uma forma moderna de fracassar. No PS, o fracasso é quando se ganha pouco, enquanto o sucesso, se traduz em perder com dignidade e comunicados de imprensa.
 
Enquanto Pinotes sorria, lá atrás desabavam os castelos eleitorais de Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém, todos tombados como peças de dominó cor-de-rosa. O litoral alentejano, que já foi muralha da utopia vermelha, transformou-se num parque temático de independentes com nomes de slogan de supermercado: "Somos Todos Cidadãos", "Com Visão e Coração", "Setúbal de Volta", dando até a impressão de que, os partidos, se tornaram tão tóxicos que agora as pessoas preferem votar em logotipos e slogans inspiracionais.
 
Mas Pinotes, como bom sobrevivente da bancada televisiva, tratou de rir. Riu-se de Rita Matias, que na verdade só não ganhou porque o universo, em sua infinita piedade, ainda acredita no livre-arbítrio. Riu-se dos 20 vereadores do CHEGA como quem goza com um incêndio que só queimou metade da casa. Riu-se tanto que quase fez esquecer que o PS perdeu o Montijo, não para o PCP, nem para o PSD, mas para um dissidente do próprio PS, um herege com “Visão e Coração”, o que é sempre perigoso num partido habituado a políticos com “Ambição e Secretarias de Estado”.
 
E no meio da festa socialista pela derrota dos outros, ficou no ar aquele cheiro agridoce de vitória moral, tão típico de quem se afoga, mas o faz com classe. O mapa eleitoral ficou menos rosa, mais laranja e um pouco mais castanho, a cor do desencanto e do voto útil, de quem já não sabe em quem acreditar.
 
No fundo, o que Pinotes fez não foi análise política, foi mais um "stand-up" pós-traumático, um número de comédia onde o derrotado ri, para não chorar, convencido de que o riso desvia a atenção da ferida. E ali, sob as luzes frias do estúdio, ele parecia mesmo acreditar que a CDU ainda tem futuro em Sines, que os independentes não passam de modas passageiras, e que o PS continua a ser o partido do povo, esse mesmo povo que acabou de lhes fechar a porta para ficar a ver televisão.
 
Mas o momento mais sublime foi quando, olhando para os números e fingindo não ver, Pinotes decretou: “A extrema-direita está contida”. Sim, claro, está contida, mas em crescimento, que é como quem diz, "o fogo está controlado enquanto as chamas passeiam pelo telhado".
 
E no final, quando a entrevista terminou, o público ficou com aquela sensação reconfortante de que o país é uma tragicomédia bem encenada. O CHEGA cresce, o PS ri, a CDU resiste, os independentes florescem e o eleitor… o eleitor assiste, de balde de pipocas na mão, ao teatro de sempre, onde todos perdem, mas só alguns têm tempo de ir à televisão fazer de conta que ganharam.
 
Para Barrabás, Pinotes sorri, Rita Matias promete, o PS afunda-se, o CHEGA sobe, e os independentes dançam sobre os destroços dos partidos. Portugal, essa República da Melancolia, continua fiel ao seu desporto favorito, a vitória moral na derrota real.
 
E ali estava eu, Barrabás, sentado no sofá imaginário do estúdio, a observar Pinotes com aquela seriedade de padre a abençoar um furacão. E não pude evitar o comentário interno: “André, meu caro, é admirável a tua capacidade de rir da tragédia alheia enquanto ignora a própria, um talento raro e até quase artístico. Continuas a fingir que o CHEGA não existe, que os independentes são modas de verão e que o PS está apenas a descansar antes da próxima catástrofe. É um espetáculo digno de aplausos, se não fosse tão profundamente deprimente, mas, quem sabe, talvez um dia descubras que analisar política não é falar do que desejas que aconteça, mas do que realmente acontece.
 
Até lá, podes continuar a entreter-nos, porque eu, Barrabás, assistirei, rindo e chorando em simultâneo, à tua epopeia de ilusão televisiva, celebrando com altruísmo a tua capacidade de transformar derrotas alheias em aplausos falsos, enquanto os independentes conquistam cidades com nomes de slogan, o CHEGA cresce sem pedir licença e o PS finge dignidade num mapa eleitoral que lentamente se torna laranja, castanho e irreversivelmente desastroso e tudo isto, claro, sem nunca perder a esperança de que um dia a realidade te alcance, mesmo que seja só para te obrigar a aplaudir… a própria catástrofe que ajudaste a disfarçar com sorrisos ensaiados, lágrimas de crocodilo e uma convicção tão grandiosa quanto inútil, num espetáculo em que a farsa se confunde com a política, a política com o circo, e o circo com um país inteiro que ainda acredita em milagres televisivos e na bondade alheia, enquanto desmorona lentamente sob a nossa própria indiferença.

Independentes, O Engano na Democracia Portuguesa

Edição Autárquicas

Barba Azul, 15.10.25

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Independentes, O Engano na Democracia Portuguesa

Os independentes, essa espécie rara de políticos que juram não ter dono, não ter cor, não ter passado, mas que, curiosamente, têm sempre um histórico partidário mais carregado do que uma ficha criminal em ditadura, aparecem em cada eleição como virgens eleitorais, prometendo pureza, novidade e ruptura.
 
Sendo um bloco disperso sem identidade, mas os terceiros com mais câmaras conquistadas nestas últimas eleições autárquicas, esquecendo-se propositadamente de mencionar que a ruptura com os seus partidos, foi apenas por não terem o seu lugar na lista, ou por estratégia desses mesmos partidos.
 
São os novos santos da política, mártires do “eu não sou como os outros”, que, por coincidência divina, já foram exatamente como os outros. Uns foram socialistas até o subsídio acabar, outros sociais-democratas até o tacho fechar, outros comunistas até perceberem que o “coletivo” não inclui a conta bancária pessoal. Depois da epifania, vestem o manto branco da independência e saem à rua a pregar o evangelho da “política diferente”, enquanto atrás deles segue a procissão dos mesmos assessores, os mesmos financiadores e, claro, o mesmo fotógrafo de campanha que há vinte anos tira retratos a messias locais.
 
Esses “independentes” são, na verdade, os filhos ilegítimos dos partidos. Rejeitados pela máquina, criaram a sua própria, feita de cartazes reciclados e slogans de ocasião: “Pelo Sacrificio!”, “Por Todos Nós!”, “Chega de Partidos!”, dito por quem já teve o cartão de três. São como os ex-fumadores, que agora tossem moralismo sobre os malefícios da nicotina, mas ainda cheiram a Marlboro no hálito político.
 
E o povo, esse, olha para eles com esperança. “Este é diferente”, dizem. É verdade, é diferente… porque agora já não precisa de reuniões da concelhia, apenas de um grupo de WhatsApp e de um designer barato. A diferença é que antes fazia parte de um partido e agora é um partido de uma pessoa só, com direito a bandeira, site e foto com as mangas arregaçadas e o símbolo universal do “eu sou trabalhador, confiem em mim”.
 
A ironia é deliciosa, pois os mesmos que fugiram dos partidos por falta de ética, agora recrutam os mesmos boys, negociam com os mesmos caciques, e usam o mesmo argumento da renovação, apenas sem logotipo. A política portuguesa transformou-se num reality show, e os independentes são os concorrentes que saíram do “Big Brother Partidário” para criar o seu próprio canal no YouTube, prometendo ser “genuínos”, “transparentes” e “sem filtros”, até perceberem que os filtros são a única coisa que os faz parecer credíveis.
 
A independência política em Portugal é como o celibato em Hollywood, proclamada em público, violada em privado, porque, no fundo, todos sabem que esses “sem partido” continuam dependentes de tudo, do financiamento dos amigos, das promessas dos ex-camaradas, dos votos dos desiludidos e do silêncio cúmplice dos que já perceberam a farsa.
 
E assim, o eleitorado, cansado dos partidos, entrega o voto aos ex-partidos mas com peruca. A roda gira, o engano continua, e o país permanece no mesmo ponto, um eterno "déjà-vú", só que disfarçado de novidade.
 
No fim, quando o último “independente” pendurar o casaco no gabinete e se sentar na cadeira do poder, já não será independente de nada, será apenas indispensável à comédia trágica da democracia portuguesa, onde todos fingem mudar para que nada, rigorosamente nada, mude.
Mas atenção, sempre com civismo, sempre com elegância, sempre com o maior dos respeitos, pela inteligência dos eleitores… que continuam, heroicamente, a acreditar no Pai Natal, no Euromilhões e nos independentes.
 
Barrabás, em modo cínico, hipocritamente esperançoso e malignamente lúcido, só para alguém que tenha dúvidas.

O Dia Seguinte às Autárquicas 2025

Crónicas Camarras

Barba Azul, 13.10.25

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O Dia Seguinte às Autárquicas 2025

Crónicas de um Barreiro, feito em loop, aos olhos de Barrabás
 
E agora, barreirenses, respirem fundo, o dia seguinte espera-vos, ainda em convalescença, depois de mais um acto de cidadania, entre muitos mais que hão-de vir, onde os eleitores começam a sentir-se outsiders num conto de fadas, porque o espetáculo já acabou, mas o cheiro a pipocas queimadas ainda paira no ar. O dia seguinte chegou, esse famoso personagem secundário que aparece sempre depois das eleições, com cara de ressaca democrática e hálito a promessas por cumprir. Ainda de pulseira hospitalar, o eleitor sai da urna como quem sai de uma cirurgia mal sucedida, sobreviveu, mas não sabe bem para quê.
 
Dizem que foi um acto de cidadania, eu diria antes um ritual de masoquismo cívico, um daqueles em que o povo vai de livre vontade entregar-se ao mesmo ciclo de sofrimento, convencido de que “desta vez é que vai ser diferente”. E é, claro, é diferente porque está tudo igual, mas com novo slogan e cartaz mais apropriado. O Barreiro acorda com a sensação de déjà-vu, como se "O Dia do Juízo", tivesse sido filmado no Largo do Mercado 1º de Maio, com elenco local e orçamento de uma união de freguesias.
 
Os eleitores, coitados, começam a sentir-se personagens secundárias de um conto de fadas burocrático, desses que deviam ser infantis, mas acabam em terapia de grupo. Os príncipes? Continuam presos no trânsito das promessas, os vilões? Fizeram um acordo de governação e as fadas madrinhas? Agora emitem recibos verdes e cobram IVA, porque até o pó mágico está sujeito à taxa intermédia.
 
O castelo municipal, esse monumento à paciência popular, segue em obras, desde o tempo em que a utopia ainda pagava IMI. Cada legislatura muda o tipo de andaime, o contrato de empreitada e o logotipo da placa “A Câmara Municipal investe em si”, mas o resultado é sempre o mesmo, pó, barulho e inaugurações sem inaugurações, cerimónias em que se corta a fita do nada, com tesouras douradas de faz-de-conta. Há discursos inflamados sobre o futuro, selfies junto ao entulho e promessas de “nova centralidade urbana”, mas o que permanece central é o caos. O castelo, coitado, continua a cair aos bocados, não pela idade, mas pelo excesso de planos estratégicos e powerpoints mal renderizados. No fim, só muda o folheto, o patrocinador e o presidente que jura, entre aplausos fatigados, que desta vez é que é.
 
O povo, paciente como um santo em lista de espera do SNS, continua à espera do “final feliz”, só que, no Barreiro, o final feliz é como a ligação fluvial a horas, uma lenda urbana contada de geração em geração.
 
E a moral da história? Sempre a mesma, com letra miúda e ironia incluída, pois quem acredita em milagres municipais acaba, inevitavelmente, a pagar o parque de estacionamento da própria desilusão. E paga caro, porque aqui, até a esperança é tarifada à hora.
 
Mas não desesperem, barreirenses, o espetáculo voltará daqui a quatro anos, com o mesmo argumento, novos figurantes e o público fiel de sempre. E enquanto esperam pelo "encore" da democracia local, podem sempre consolar-se com o refrão eterno: “Pior era se não houvesse eleições.”
 
Sim, pior era, mas, sinceramente, às vezes dá vontade de experimentar.
 
E é aqui, neste palco de promessas recicladas e esperanças com prazo de validade, que eu, Barrabás, o cronista involuntário da desgraça alheia e patrono dos cínicos, ergo a minha pena como quem levanta uma espada enferrujada. Que fique escrito, para memória futura e esquecimento breve, "Estarei atento!."
 
Atento, sim, agora mais do que nunca, ao verbo prometido, ao verbo adiado, ao verbo que se conjuga sempre no futuro e nunca no presente. Estarei à espreita nas actas, nas actas das actas, e nas conferências de imprensa e "Reels", onde se confunde progresso com apresentações de PowerPoint.
 
Porque quando os príncipes tropeçarem nos seus próprios decretos, quando as fadas ficarem sem pó mágico e começarem a vender esperança por medida, quando os vilões se declararem independentes “por amor à cidade”, lá estarei eu, Barrabás, sentado na plateia, a aplaudir de pé o colapso moral com sarcasmo messiânico.
 
E se o milagre municipal acontecer, se o Barreiro, contra todas as profecias, se erguer das cinzas administrativas e florescer em transparência e decência, prometo escrever o impossível, um elogio. Mas até lá, mantenho-me atento e fiel à minha função, rir e chorar, enquanto o palco arde em promessas inflamáveis e discursos reciclados. Rir e chorar, sim, como quem assiste a uma tragédia grega adaptada por uma junta de freguesia com ambições na Broadway, porque o riso, neste teatro autárquico, é o último escudo contra a loucura, e as lágrimas são apenas a humidade natural de quem ainda teima em acreditar. Até lá, que toquem os violinos da ironia, porque o navio municipal continua a navegar, direito ao iceberg da incompetência, com o maestro a jurar que é tudo parte do plano.
 
Porque, no fundo, alguém tem de acender o fósforo e manter a vela da esperança acesa.

Barreiro Autárquicas 2025

Edição Camarra

Barba Azul, 13.10.25

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Barreiro Autárquicas 2025

Louvor aos Iluminados e Misericórdia aos Omissos
 
Há cidades que fazem história, outras, fazem figura e depois há o Barreiro, onde o milagre eleitoral se tornou uma arte performativa, e o povo, esse figurante coletivo de infinita paciência, decidiu oferecer mais quatro anos de espetáculo aos mesmos actores, só que desta vez sem pipocas, sem enredo e, claro, sem intervalo.
 
Contra as vozes da rua, que ecoavam o desalento nas esquinas e nos cafés, prevaleceu a velha liturgia da acomodação. O eleitor barreirense, esse Santo Inácio do Tejo, ajoelhou-se diante da urna e rezou: “Senhor, livrai-me da mudança, que eu já me habituei à desgraça.” Porque no Barreiro, mudar é quase obsceno; é olhar para a rotunda e pensar que talvez ela não precise de ser inaugurada outra vez.
 
As vozes que se indignavam, que reclamavam das obras eternas, dos bairros esquecidos, do abandono cultural e das promessas recicladas, foram engolidas pelo mais português dos sentimentos, o “deixa andar e sempre foi assim, porque haveria de ser agora diferente”. E foi assim que, com um voto aqui, outro ali, o mesmo guião teve luz verde para a sequela, o filme continua e o povo, esse público resiliente, continua a pagar bilhete.
 
A Câmara, triunfante, anuncia o sucesso como se tivesse sido nomeada para os Globos de Ouro da Gestão Pública, conferências de imprensa, sorrisos de catálogo e promessas em modo “copy-paste”. O argumento é o mesmo de sempre, “O Barreiro está melhor.” Claro que está, sobretudo para quem lá trabalha, dirige ou contrata. Já para o resto, o Barreiro é uma produção em câmara lenta, patrocinada pela esperança adiada.
 
Os críticos, esses chatos de sempre, falam em estagnação, clientelismo e falta de visão, mas, convenhamos, quem precisa de visão quando já se decorou o guião? O novo mandato promete ser uma trilogia de déjà-vus, mais requalificações daquilo que foi requalificado, mais promessas de futuro nas áreas onde o passado ainda não foi resolvido, e mais selfies em frente a cartazes onde se lê “O Barreiro está em transformação”, há 40 anos..
 
Entretanto, o eleitor, agora espectador de luxo da própria resignação, comenta no café: “Ao menos não piora.” E não há frase mais trágica do que essa, porque quando o povo já não espera progresso, mas apenas a ausência de catástrofe, é sinal de que a política venceu e a cidadania perdeu.
 
A ironia suprema é que os mesmos que gritavam nas redes sociais “basta de mais do mesmo!” foram os que, em silêncio, carimbaram a continuidade. Chamam-lhe estabilidade, é u chamo-lhe anestesia. O Barreiro é hoje uma espécie de parque temático da inércia, onde a emoção é opcional e o conformismo é obrigatório.
 
E assim, entre promessas de regeneração e discursos de vitória dignos de um musical distópico, os eleitores voltaram a entregar a chave do município aos mesmos protagonistas. Aplaudiram, é certo, mas já sem entusiasmo, sem pipocas, e com aquele ar de quem sabe que o final feliz foi cortado na montagem.
 
O Barreiro não vive nenhuma tragédia, vive mais uma tragicomédia repetida até à exaustão, onde o público já deixou de rir. E quando o povo se habitua ao espetáculo da própria mediocridade, já nem precisa de censura, basta-lhe o conforto da apatia. A cidade continua, como sempre, em obras. Só o futuro é que ficou em ruínas.
 
Os meus parabéns, pois, aos vencedores, esses magos da continuidade, alquimistas da retórica, que transformaram a fadiga em vitória e a resignação em maioria absoluta. Conseguiram o milagre de convencer um povo cansado de tudo a continuar exatamente com tudo igual. É preciso talento, paciência e uma certa perversidade poética para transformar a rotina em esperança, o tédio em estabilidade e a apatia em triunfo. Bravo, senhores. Bravo.
 
O vosso mérito é inequívoco: prometeram muito, cumpriram menos, mas ainda assim conquistaram mais quatro anos. São os verdadeiros artistas da gestão emocional, sabem que o eleitor português não quer ser surpreendido, quer apenas ser embalado. E vós, com a doçura de um berço político, souberam embalar até ao sono profundo da indiferença cívica.
 
Quanto aos vencidos… silêncio. Fica-vos melhor o luto do que o protesto.l, porque a verdade, essa criatura ingrata que todos fingem não ver, é que nada fizeram para merecer a confiança dos cidadãos. Passaram quatro anos a contar as falhas dos outros, esquecendo-se de mostrar que sabiam fazer melhor. Foram sombras em plenário, ecos em comissões, e fantasmas nos bairros que juravam representar. Queriam mudar o filme, mas provaram que não estavam à altura para escrever um guião.
 
E assim, entre os que governam por hábito e os que se opõem por desespero, o Barreiro renova o seu destino de tragicomédia suburbana, uma cidade que sonha ser moderna, mas acorda sempre no século passado. O povo, esse espectador de vocação, voltou a aplaudir, não por fé, mas por falta de alternativa.
 
E assim termina mais um episódio, na vida desta cidade, onde o único consenso é que o caos é a nova ordem, e a única coisa que realmente progrediu foi a nossa capacidade de fingir que ficámos surpreendidos com o inevitável desastre.
 
 
Os vencedores erguem o troféu da continuidade, os vencidos ensaiam desculpas num camarim vazio e Barrabás, sentado na última fila, acende um charuto e murmura com o sorriso de quem já viu tudo:
 
“No Barreiro, o inferno não é a punição.
É a reeleição.”

Montenegro e o Milagre da Spinumviva

Edição Contos do Fantástico

Barba Azul, 08.10.25

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Montenegro e o Milagre da Spinumviva ou quando o inocente é o mais suspeito de todos

 
Portugal tem uma nova novela política, e, claro, Luís Montenegro no papel principal. O homem que se acha uma mistura de Churchill com o santo padroeiro da transparência, mas que, quando o assunto é o processo Spinumviva, parece mais o protagonista de uma telenovela venezuelana escrita por um advogado de defesa em desespero.
 
Há quem diga que Luís Montenegro é um homem de fé. E há provas, pois acredita piamente na inocência divina dos seus próprios actos. O caso Spinumviva seria apenas mais um daqueles episódios que “nada têm de ilegal”, segundo o seu evangelho pessoal. Mas eis que, do nada, ou talvez do nada mais rentável da política portuguesa, surge a revelação: o homem que andava tão preocupado com o custo de vida do cidadão comum, é afinal o orgulhoso proprietário, não de seis, mas de cinquenta e cinco imóveis. Sim, cinquenta e cinco, uma herdade de coincidências, um rosário de escrituras, um milagre que faria corar São Francisco de Assis… e a Autoridade Tributária.
O país inteiro olha e pensa: há gente que planta um grão de milho e colhe um milheiral.
 
Montenegro, pelo visto, nem precisou de semear, bastou-lhe regar com influência, adubar com poder e colher com isenção. O resultado está à vista, um primeiro-ministro que não só se acha acima de todas as suspeitas, mas também acima do mercado imobiliário e da lei. Um fenómeno económico tão misterioso que devia ser estudado em Harvard, ou pelo menos em Santa Comba do Capitalismo.
 
E quando as perguntas surgem, “Mas senhor primeiro-ministro, como conseguiu?” e ele responde com a serenidade dos santos em martírio, “Tudo está declarado, tudo é transparente”. Claro que é transparente, tão transparente que ninguém vê o essencial. Montenegro fala de legalidade como quem recita o Pai Nosso, com devoção mecânica, sem perceber muito bem o que as palavras significam.
 
O Spinumviva era já um monumento à elasticidade moral, agora, junta-se-lhe o milagre patrimonial. Coincidência? Talvez. Em Portugal, coincidência é o nome simpático que damos à promiscuidade entre política e privilégio e Montenegro, esse mestre da encenação, tenta transformar a suspeita em narrativa, o incómodo em vitimização. É o político que, quando apanhado com o dedo no pote, ainda tem a audácia de acusar o povo de má fé por ter reparado.
 
Ele jura que é tudo um mal-entendido, uma conspiração de jornalistas ingratos, uma cabala montada por gente que não entende o seu “sentido de Estado”. Acontece que o sentido de Estado de Montenegro é aquele que lhe diz: “enrola, adia, dramatiza e finge que és o último homem honesto de Portugal”. É a técnica do político clássico, faz-se de vítima, sorri com cara de quem acabou de sair da missa, e espera que o povo, entretido com o preço do azeite, se esqueça do essencial.
 
O processo Spinumviva, esse milagre administrativo de contratos, favores, e decisões tão transparentes como um copo de tinta-da-china, é o espelho perfeito de um país habituado à moral seletiva dos políticos. Montenegro, com o seu ar de professor de ética, em campanha eleitoral, diz que “tudo foi feito dentro da legalidade”. Claro, a legalidade, essa criatura elástica que em Portugal cabe em qualquer bolso de fato azul-marinho.
 
Enquanto isso, o primeiro-ministro encena indignação com a destreza de um actor de telenovela barata, de voz grave, sobrancelha arqueada e discurso ensaiado ao milímetro. Fala em “dignidade das instituições”, esquecendo-se que é precisamente essa dignidade que ele está a usar como escudo humano. Montenegro não defende o país, defende-se a si mesmo, com um patriotismo de conveniência e uma moral de silicone.
 
Mas há que reconhecer o talento, porque poucos conseguem parecer tão honestos, enquanto giram o novelo da manipulação. Ele fala como quem dá sermões sobre transparência, mas age como quem dá conselhos sobre como manter a opacidade com elegância. E, no meio da encenação, o país lá vai aplaudindo, dividido entre os que acreditam no santo e os que já o veem como um Messias de lama.
 
No fundo, a Spinumviva é apenas mais um episódio do reality show chamado “República Portuguesa das Bananas”. Montenegro é o concorrente que finge não saber que as câmaras estão ligadas, enquanto ajeita o microfone e pergunta com falsa humildade, “Eu? Suspeito? Jamais!”.
E o mais fascinante é a coreografia política, o PSD fecha fileiras, os fiéis alinham, e o coro dos comentadores bem-pensantes ensaia o cântico habitual, “não se pode julgar ninguém antes do fim do processo”. Pois claro que não, mas enquanto o processo não acaba, o país afunda-se num lamaçal de descrédito onde a ética é tratada como um luxo e a vergonha como uma excentricidade.
 
No final, talvez Montenegro tenha razão, tudo é legal. Legal, sim mas profundamente imoral, estruturalmente hipócrita e politicamente podre. A Spinumviva e o império dos 55 imóveis são apenas capítulos de um evangelho onde os milagres são património registado em nome próprio. E se este é o líder que diz “Portugal pode confiar em mim”, então talvez o país mereça mesmo o seu destino, um futuro hipotecado ao preço de um duplex com vista para o abismo.
 
E assim seguimos, num país em que a inocência se declara em conferências de imprensa e a culpa se dissolve em comunicados bem escritos. Montenegro pode até escapar judicialmente, mas politicamente, já está condenado àquilo que mais teme, ser visto como aquilo que realmente é, um manipulador com cara de bom rapaz, a rezar para que o escândalo se confunda com o ruído.

Cravos Murchos e Vodka Azeda

Edição Internacionalista

Barba Azul, 04.10.25

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Da Utopia ao Desperdício
Cravos Murchos e Vodka Azeda
 
Dois Movimentos, Um Destino
O 25 de Abril e a Perestroika, os Reality Shows da História
 
Há quem diga que o 25 de Abril foi o dia em que Portugal acordou livre. O problema é que Portugal acordou livre… mas continuou a dormir a sesta. Derrubaram-se ditadores, abriram-se as portas de Caxias, e de repente tínhamos liberdade para tudo: falar, escrever, protestar, fundar partidos políticos como quem abre Mercadonas, lidl's e Continentes. O povo festejava com cravos vermelhos, sem perceber que o país ia trocar uma ditadura de botas por outra de fato e gravata. Porque, sejamos honestos, passámos do “Estado Novo” para o “Estado em Dívida”. A liberdade veio acompanhada de filas intermináveis nos centros de emprego, de promessas de desenvolvimento eterno e de políticos a praticarem tiro ao alvo com a paciência do povo.
 
A Perestroika, por sua vez, foi o 25 de Abril soviético mas sem cravos, sem Amália, e sem o cheiro a sardinha assada das revoluções mediterrânicas. Foi um banho frio em plena Praça Vermelha, com Gorbachev a tentar vender liberdade como quem vende máquinas de lavar usadas, “Ainda funciona, mas já vem sem garantia.” O grande plano era modernizar o comunismo, só que, no fim, a União Soviética ficou parecida com uma loja de ferragens onde todas as peças estão partidas. O Estado transformou-se num Ikea político, um manual mal traduzido, peças em falta e parafusos que nunca se encaixam. Resultado? Um país inteiro sentado no chão, a olhar para a estante da democracia que ninguém conseguia montar.
 
Ambos os movimentos partilhavam um traço comum, a crença ingénua, quase infantil, de que a liberdade política automaticamente gera pão, prosperidade e uma linha direta com os bancos da Suíça. Em Portugal, descobrimos que a liberdade também serve para votar nos mesmos corruptos, décadas após décadas, como se fosse um passatempo nacional, tipo raspadinhas. Na URSS, perceberam que a liberdade económica era basicamente uma Black Friday permanente, em que meia dúzia de futuros oligarcas compravam fábricas a preço da banana e revendiam petróleo e gás ao mundo inteiro. Enquanto isso, o povo continuava a beber vodka de supermercado, convencido de que o capitalismo vinha salvar a alma… quando afinal só salvou as contas bancárias de meia dúzia de ex-apparatchiks com novas gravatas italianas.
 
O 25 de Abril deu-nos democracia, sim senhor, mas também nos deu aquela sensação de que vivemos numa república de comadres. É um país em que o poder é um cadeirão musical, rodopia entre PS e PSD, mas a almofada já vem com cheiro de naftalina e nódoas de vinho tinto. Já a Perestroika deu aos russos uma promessa de renascimento, mas que rapidamente se transformou em McDonald’s na Praça Vermelha, uma legião de novos milionários com bigode oleoso e uma nostalgia crescente pelo ditador de serviço. Porque, no fim, o capitalismo soviético não trouxe liberdade: trouxe centros comerciais com filas ainda maiores do que no tempo do pão racionado.
 
O mais fascinante é que ambos os movimentos são apresentados nos livros de História como momentos gloriosos, quase milagres. Mas, na prática, foram dois reality shows épicos com enredo previsível, derrubar os velhos monstros para depois descobrir que os novos monstros tinham mais maquilhagem, melhores relações públicas e contratos vitalícios com agências de comunicação. Os cravos de abril murcharam, mas ninguém os rega porque dá trabalho, já as reformas soviéticas apodreceram no gelo, mas ainda há quem jure que cheiravam à liberdade.
 
O 25 de Abril é celebrado todos os anos como uma missa revolucionária, com discursos reciclados, metáforas de sempre e flores no cano das espingardas, esquecendo que as espingardas de hoje, estão apontadas para nós sob a forma de impostos, portagens e burocracia. Já a Perestroika é lembrada com uma nostalgia mórbida do género “era mau, mas pelo menos sabíamos em que fila da padaria devíamos sofrer”. É como se os russos preferissem a fome organizada à abundância caótica.
 
No fim, tanto em Lisboa como em Moscovo, o povo dançou na rua, gritou por liberdade e acreditou no futuro. O problema é que o futuro não é só uma canção da Grândola nem um discurso com manchas de vinho de Gorbachev. O futuro é sempre uma dívida externa, uma privatização mal enjorcada e um político de sorriso amarelo a dizer, “Não era bem isto que tínhamos prometido, mas também ninguém vos obrigou a acreditar.”
 
E assim se prova que o 25 de Abril e a Perestroika foram como dietas milagrosas, emagreceram o Estado por uns meses, mas acabaram a engordar quem já estava bem alimentado. A diferença é que os portugueses continuaram a brindar com vinho barato e fado, enquanto os russos afogaram-se em vodka. No fundo, o resultado é o mesmo: o povo dança, o povo canta, o povo acredita e depois o povo paga a conta.
 
E hoje, passadas décadas de revoluções e reformas, Portugal e Rússia parecem dois velhos alcoólicos a discutir quem tem a ressaca mais digna. Portugal, orgulhoso dos seus cravos já secos, continua a exibir a democracia como quem mostra um Fiat Punto enferrujado a dizer “isto ainda pega à primeira”, enquanto o país definha entre salários de miséria, jovens a emigrar em massa e políticos a tratar o Estado como se fosse um negócio de família. A Rússia, por sua vez, transformou a Perestroika num necrotério ideológico, trocou a promessa de liberdade por um imperialismo belicista reciclado, com censura de luxo e ditador vitalício a posar no palácio dourado, enquanto o povo volta às filas, mas desta vez para recrutar filhos para a guerra. No fundo, são dois teatros diferentes a encenar a mesma peça trágica, onde o povo, sempre no papel de figurante, aplaude de pé uma liberdade que nunca chegará ao palco das suas vidas.

Carta aberta de Barrabás ao discurso da Embaixadora Israelita e à Onu

Edição Internacional

Barba Azul, 28.09.25

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Carta aberta de Barrabás ao discurso da Embaixadora Israelita e à Onu

Senhora Embaixadora, Multidão Das Nações Unidas;
 
Escuta-me bem, Embaixadora e vocês também, representantes de nações grandes e pequenas, que se sentam aqui para se julgarem uns aos outros com a régua da hipocrisia.
 
Eu sou Barrabás, aquele que vocês escolheram para viver quando crucificaram o inocente. Aprendi uma coisa na minha vida de fugas e revoltas, é que as multidões são volúveis, e o poder que grita mais alto hoje pode ser o mesmo que te apedreja amanhã.
 
O teu discurso é um punho cerrado, e punhos cerrados criam e fazem muito barulho na tribuna, mas não constroem pontes. Quando acusas a Europa inteira de ter ajudado os carrascos nazis, tens razão, no sangue que te percorre, mas erras na estratégia. A culpa coletiva é um prato que os inocentes não comem sem azedar o estômago, e isso só cria ainda mais ódio.
 
Eu, que fui libertado em vez do justo, digo-te: não uses a memória dos teus mortos como espada sem misericórdia, usa-a como escudo para proteger todos os vivos, inclusive os que não são teus. Quando ameaças com bombas e armas cósmicas, assustas os fracos e excitas os fanáticos e os fanáticos são como eu era, quanto mais os espancas, mais fortes eles se julgam.
 
Não reclames só o génio dos teus, honra-o, sendo melhor que os outros, e não apenas referindo-o. Um génio que não gera compaixão é apenas vaidade e se queres que o mundo te ouça, mostra que és capaz de justiça até para quem te odeia. Essa é a vingança mais difícil, a essência e a única que se deve perpetuar.
 
A multidão da ONU quer sangue, mas também quer alívio para a consciência. Dá-lhes uma saída honrosa, propõe corredores para os inocentes, libertação dos reféns, investigação imparcial. Fala de paz com a mesma veemência que falas de sobrevivência, porque Isso deixa os hipócritas sem argumentos nem desculpa.
 
Para o futuro, ouve-me com atenção: sê a nação que sobreviveu ao genocídio, não a que vive dele. Usa a memória como bússola, não como martelo. Protege o teu povo, mas protege também a tua humanidade, porque sem ela, a vitória transforma-se rapidamente em derrota. Aprende com o Egipto que te escravizou, com Roma que te esmagou e com a Europa que te exterminou, pois todos caíram quando confundiram poder com impunidade.
 
Se queres que o nome de Israel seja respeitado daqui a cinquenta anos, faz dele sinónimo de justiça, não apenas de força. Ensina os teus filhos a serem engenheiros e cientistas, mas também mediadores de paz. Cria armas, sim, mas cria também pontes, porque o mundo respeita mais quem constrói do que quem destrói.
 
Dá ao inimigo uma porta de saída digna, porque o adversário encurralado, é mais perigoso do que o armado. A maior vitória que podes ter, é transformar o ódio em cooperação, mesmo que leve gerações. A força sem magnanimidade apenas perpetua o ciclo que começou comigo, no dia em que uma multidão escolheu Barrabás e não a reconciliação.
 
Lembra-te, o teu povo já foi vítima e já foi exilado, mas que nunca seja lembrado como opressor. A História não tem piedade dos que esquecem o que sofreram, quando chega a sua vez de ter o chicote na mão. Fala para o futuro, não para o eco das catacumbas e lembra-te, que, as crucificações de ontem, não justificam as cruzadas de amanhã.
 
Podes pensar que Barrabás é duro, mas acredita que não é teu inimigo é apenas um alerta, de que, a sobrevivência de Israel, passa não só pela força, mas pela preservação da sua autoridade moral, que poderá ser a sua arma mais poderosa no palco internacional.
Barrabás o Barba Azul

O FUTURO DO PS EM MANIFESTO

Edição Camarra

Barba Azul, 27.09.25

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O FUTURO DO PS EM MANIFESTO
Por Barrabás
 
Há já algum tempo, num comentário feito no blog do Barrabás, alguém o desafiava para uma reflexão acerca do futuro do PS, ou se estava irreversivelmente ancorado à direita?
Com base nesse desafio, Barrabás vai dizer de sua justiça, através deste simples manifesto, mas de boa vontade.
 
O Partido Socialista está como aquele amigo que jura, todos os anos, que vai deixar de fumar, faz um discurso bonito na passagem do ano, emociona toda a família, promete que “agora é de vez” e no dia seguinte, está à porta do café com o maço de tabaco no bolso. Vive de memórias de Mário Soares a enfrentar generais, de Guterres a prometer paixão pela educação, de Sócrates a vender modernidade, mas no presente, oferece-nos apenas uma sucessão de congressos com claques animadas, nomeações para gabinetes e um punhado de promessas que parecem um copy-paste do ano anterior.
 
António Costa largou o volante no meio da A2 e foi à vida dele. Pedro Nuno Santos chegou de peito cheio, prometeu virar a página da austeridade e acabou a virar apenas a página do Diário da República, para confirmar que as nomeações estavam em dia. José Luís Carneiro fala de moderação e Marta Temido de credibilidade, mas o país já não quer adjetivos, quer soluções.
 
E se olharmos para o Barreiro, o laboratório socialista — a história repete-se: obras lançadas à pressa na zona da Santinha em ano eleitoral, o centro da cidade aberto em trincheiras como se fosse cenário de guerra urbana, escolas em obras com os alunos já nas salas, habitação social eternamente prometida mas ainda perdida nos PowerPoints da câmara. Frederico Rosa inaugura, corta fitas, tira selfies, mas o Barreiro continua a ser o Barreiro: mais cafés hipster, menos estacionamento e a eterna promessa de “Lisboa da Margem Sul” que só existe nos cartazes de campanha.
 
E é aqui que Barrabás fala com franqueza: o maior perigo do PS não é a direita, não é Ventura, não é a abstenção, é o conforto, esse conforto anestesiante de quem acha que o eleitorado é um cliente fiel e que o país não tem outra escolha senão aturá-los.
 
Um PS que só gere fundos do PRR e adjudica obras de última hora não é um partido, é uma Junta de Freguesia XXL. Um PS que tem medo de desagradar, que prefere consensos mornos a decisões corajosas, é um PS que corre o risco de se transformar num clube de memórias, reunindo-se apenas para recordar vitórias passadas enquanto o país se afunda no presente.
 
Por isso, Barrabás apresenta o seu Manifesto ao PS, sete passos para salvar a alma socialista, ou para lhe dar um funeral digno se nada for feito:
 
Chega de tentar agradar a todos, porque um partido que não desagrada a ninguém, é um partido inútil. É hora de enfrentar lóbis, interesses instalados e até os seus próprios barões distritais. Será melhor perder votos por convicção, do que ganhá-los com promessas impossíveis.
 
Menos congressos com slogans e mais praças com causas, os militantes que se habituem a sair do ar condicionado e venham para as ruas, falar com professores em greve, médicos em burnout e jovens que só pensam em emigrar.
 
Reformas estruturais na habitação, na justiça, na saúde, custam votos, mas valem o país. O PS precisa de voltar a ser o partido que mexe onde dói e não apenas o partido que gere o que já existe.
 
Chega da dança de cadeiras entre câmaras, empresas públicas e gabinetes, é necessário premiar a meritocracia e a transparência têm de voltar a ser bandeira, ou então, mais vale transformar o Largo do Rato num cowork de startups.
 
É preciso voltar a falar de valores, de ideais, de futuro. Os cidadãos estão fartos de soundbites e mensagens nas redes sociais, preferindo o regresso à política com P grande.
 
Chega de governar só para Lisboa e Porto, preocupando-se apenas com as grandes áreas metropolitanas. O Barreiro precisa de investimento real, não de marketing e o interior precisa de vida, não de promessas em tempos de campanha.
 
Ganhar eleições a todo o custo mata partidos, perder com coragem, para preparar o futuro, é o que salva os movimentos políticos.
 
Se o PS seguir estes passos, ainda tem futuro, mas se continuar nesta gestão, tipo condomínio, será apenas mais um cadáver político, seguindo os passos do PCP, que os portugueses enterrarão sem lágrimas e talvez até com algum alívio.
 
Mas Barrabás, mesmo cínico, é um optimista, porque acredita que o PS pode renascer, que pode voltar a ser motor de mudança e que pode recuperar a alma reformista que um dia já teve, mas precisa de muita coragem para arriscar, de humildade para reconhecer erros e de ousadia para mexer onde dói, porque o país já está à espera, há muito tempo, e a paciência não é eterna.
 
Nota final: Este manifesto não é um epitáfio, é um convite. Um desafio para que o PS volte a ser mais do que uma máquina de poder, para que volte a ser um partido de ideias, de causas e de futuro. Se não o fizer, Barrabás estará lá para escrever a crónica do seu funeral político.