Barrabás e o Último Acto
Edição Jurídica
Barba Azul, 04.11.25

Barrabás e o Último Acto
A Comédia Judicial de um País Irrecuperável
Portugal, essa eterna novela jurídico-burlesca, acaba de estrear mais um episódio da série “O Processo Que Nunca Mais Acaba” e tem como título do capítulo: “Pedro Delille abandona o barco de Sócrates e o navio continua a arder”.
O advogado, cansado de fingir que a justiça portuguesa é um sítio onde se julga, decidiu fazer o que qualquer pessoa com um mínimo de respeito por si mesma faria, bateu com a porta e saiu de cena. Alegou, em carta ao tribunal, que já não podia participar num “simulacro de julgamento” e Barrabás, à porta do tribunal, cá fora, murmurou em coro com os portugueses atentos: "ah, então só agora é que percebeste?
O “episódio da semana passada”, essa pérola de dramaturgia em toga, envolveu uma repreensão pública da juíza Susana Seca, a guardiã da liturgia judicial, que, entre interrupções e sussurros, transformou a audiência num "reality show" de decadência institucional. Delille, talvez num raro momento de lucidez trágica, olhou à volta, viu o cenário de cartonagem, as personagens de toga mal passada e os figurantes pagos a indignação, e concluiu que aquilo já não era um julgamento, foi transformado numa missa negra da burocracia, celebrada em nome do Espírito Santo do Formalismo.
Mas temos que ser justos, porque em Portugal, os simulacros não são acidentes e sim métodos. A justiça é uma longa coreografia de incompetências coreografadas, onde todos fingem dançar conforme a música, enquanto a orquestra toca debaixo de água. Um país que passa décadas a investigar um ex-primeiro-ministro e ainda não consegue chegar a uma sentença, não tem um problema de justiça, tem um problema de ficção, por desvendar.
O caso Sócrates é, na verdade, o spin-off infinito da série “Casa dos Segredos Edição Tribunal Central”. Cada episódio traz uma nova personagem secundária, um novo adiamento, uma nova carta dramática, um novo “incidente processual” que ninguém entende mas toda a gente comenta. O guião é tão previsível que já se pode prever o final, mais prescrições do que culpas, mais comunicados do que condenações.
Pedro Delille abandona, e nós aplaudimos o gesto com ironia, porque a coragem, neste circo, não está em enfrentar o sistema, está em reconhecer que o sistema é uma caricatura de si próprio. A justiça portuguesa é o único espectáculo onde o público já sabe o desfecho antes do primeiro acto, mas continua a assistir, entre pipocas e desespero, só para ver até que ponto a vergonha é capaz de se reinventar.
E lá seguimos, com juízes que repreendem, advogados que desertam, arguidos que envelhecem à espera da eternidade processual e cidadãos que, entre um aumento de impostos e uma gargalhada amarga, percebem finalmente o que Pedro Delille quis dizer: "em Portugal, não há julgamentos, há encenações".
Portugal é o país onde o tempo judicial não corre, rasteja, onde cada processo é um relógio parado, e cada sentença uma miragem prometida aos tolos que ainda acreditam que o crime, um dia, dá cadeia. Pedro Delille percebeu, tarde mas a tempo, que o palco do caso Sócrates não é um tribunal, é um teatro barroco onde os actores entram e saem, mas o enredo é sempre o mesmo, o herói cai, o vilão ri, o público boceja, e o encenador, com o patrocínio da justiça, manda repetir o acto até que todos morram de tédio ou prescrição. É uma peça onde as cortinas nunca fecham, os figurantes mudam de toga, e o texto, escrito em latim burocrático, serve apenas para encobrir a nudez do poder. No fundo, o caso Sócrates não é sobre culpa ou inocência, é sobre resistência, a resistência de um sistema inteiro a ser julgado.
O “simulacro de julgamento” que Delille denuncia é apenas o último acto de uma longa tradição nacional, com a justiça como arte performativa. Do BPN ao BES, do Freeport ao Marquês, da EDP ao Benfica, tudo em Portugal se transforma em processo, mas nada se transforma em consequência.
Senão, vejamos o arquivo histórico da vergonha:
O Caso BPN, onde a elite financeira tratou o banco como uma vaca leiteira, e o Estado, sempre compassivo, pagou a ração. Como resultado? Uns quantos anos de espectáculo, umas prisões preventivas para fingir moralidade e, no fim, absolvições como se fossem hóstias sagradas.
O Caso BES, um monumento de impunidade erguido em nome de Ricardo Salgado, o “Dono Disto Tudo”, o qual continuou a dar entrevistas sobre ética, enquanto o país engolia a dívida com juros e indignação, até decidir viver da reforma miserável,
O Caso Freeport, essa epopeia de corrupção pós-industrial, que acabou como um filme inacabado de Manoel de Oliveira, longo, arrastado, e sem resolução.
O Caso EDP, onde Manuel Pinho, entre jantares, PowerPoints e parelhas de cornos, foi acusado de corrupção passiva enquanto o país continuava a pagar a eletricidade mais cara da Europa e a acreditar que a justiça trabalhava a 220 volts.
O Caso Raríssimas, onde a caridade se revelou um negócio de luxo e os protagonistas continuam a desfilar em galas, porque em Portugal a vergonha tem passadeira vermelha.
O Caso das PPP, onde o Estado contratou a ruína e assinou o recibo de culpa, mas ninguém sabe quem redigiu o contrato com a mediocridade.
E assim seguimos, entre audiências suspensas, recursos infinitos, juízes transferidos e procuradores que mudam de cargo antes de mudar de opinião. A justiça portuguesa é um carrossel de toga, gira, mas nunca sai do sítio.
Delille, ao abandonar Sócrates, não saiu apenas de um julgamento: saiu de uma religião. Porque a fé na justiça, em Portugal, é o último sacramento da ingenuidade e ele percebeu que o tribunal não procura a verdade, mas apenas o timing político adequado para que tudo prescreva com elegância.
E lá está Sócrates, sentado no banco dos arguidos, como um velho actor à espera da última ovação. O guião já está escrito e o tempo cuidará de o absolver, não por inocência, mas por cansaço colectivo.
E enquanto o país continua a discutir penas suspensas, delações premiadas e “vícios processuais”, os verdadeiros criminosos brindam nos terraços de Lisboa, com vista para um Tejo, que já viu demasiadas absolvições e demasiado poucos remorsos.
Se algum dia, o caso Sócrates, chegar ao fim, o que, convenhamos, exigiria uma conjugação astral raríssima entre Marte, Capricórnio e o Tribunal Central a funcionar em tempo útil, talvez reste apenas uma pergunta a Barrabás, digna de ecoar entre as ruínas deste simulacro de justiça: "Se José Sócrates for absolvido de tudo, quem julga quem o julgou?"
Porque se há verdade que até os inimigos reconhecem, é que Sócrates, com todos os seus defeitos e excessos, tinha uma visão de desenvolvimento para Portugal. Gostava do progresso como outros gostam do poder, visceralmente. Acreditava no país com uma arrogância épica e talvez tenha sido isso o seu maior pecado, porque em terra de medíocres, a ambição é crime de lesa-rotina.
O país que o acusou e o partido que o rejeitou, é o mesmo que, antes dele, o aplaudia de pé enquanto os fundos europeus choviam e as autoestradas brotavam como ervas daninhas. A mesma gente que agora o aponta como símbolo da decadência nacional, é aquela que se deixou governar por mediocridades sem projecto, burocratas sem rasgo, e tecnocratas de PowerPoint.
E Barrabás, sentado na primeira fila deste teatro da moral, pergunta: "Se o julgamento terminar em nada, quem indemniza o país pelo desperdício de décadas de ódio, de manchetes, de histeria? Quem será julgado por transformar a justiça em arena política, por destruir reputações em nome da decência pública enquanto o Estado se afundava em compadrios?".
A ironia é cruel, porque talvez Sócrates tenha sido culpado de acreditar que podia transformar Portugal num país europeu antes de o ser, mas o sistema, esse velho vampiro institucional, tratou de o relembrar, que aqui não se mudam estruturas, apenas nomes nas placas.
O verdadeiro crime de Sócrates, se existiu, não foi a corrupção, mas a ousadia. A ousadia de pensar grande num país pequeno, de querer acelerar um motor que há séculos trabalha em ponto morto, mas a vingança do sistema foi exemplar, arrastá-lo até à exaustão, até que o povo confundisse a demora com justiça e o descrédito com equilíbrio.
E assim, se um dia a sentença for absolvição ou, mais previsivelmente, prescrição, Barrabás estará lá, de charuto aceso e gargalhada amarga, para fazer a última pergunta que ninguém quer ouvir:
"E agora, quem paga a fatura?".
"Quem compensa o país por ter destruído o único político que, com todos os demónios e vaidades, ainda tinha um projecto de Nação? Quem responde pelo tempo perdido, pela política reduzida a espectáculo, pela justiça convertida em crucifixo mediático?".
Barrabás levanta-se, cospe a cinza no chão e sentencia com o sarcasmo de quem já viu tudo e não se surpreende com nada:
"Talvez Sócrates não tenha sido o Messias, mas o país, esse, continua a ser o mesmo que crucifica quem ousa prometer ressurreição".
Barrabás, que por acaso conhece bem os corredores do poder e as celas da hipocrisia, ri-se com raiva e num tom de desespero lúcido, desses que sabem que já não há redenção possível. Ri-se como quem vê o diabo confessar-se ao padre e o padre pedir desculpa. Ri-se porque percebe que em Portugal, a justiça não é cega, é míope, selectiva e vendida em suaves prestações de silêncio. Ri-se, enfim, porque aprendeu que neste país o pecado é punido não pela gravidade do acto, mas pelo azar de quem o cometeu fora da confraria certa.
Chamam-lhe justiça, mas é apenas administração da esperança, porque em Portugal, a corrupção morre sempre de velhice antes de ser julgada.
E depois cospe para o chão, com a solenidade dos profetas cansados, e murmura, olhando para o horizonte coberto de prescrições e comunicados:
"Quando a Justiça se transforma num espectáculo de sombras, os inocentes tornam-se figurantes e os culpados passam a produtores executivos.
Portugal, o país onde o crime compensa e desde que o advogado saiba esperar, o palco continua montado, as togas engomadas, as câmaras apontadas, faltando apenas o letreiro luminoso à entrada dos tribunais:
“Bem-vindo ao Teatro Nacional da Justiça, hoje em cena: A República das Aparências.”








