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Barrabás - o Barba Azul

Barrabás - o Barba Azul

A Grande Muralha Imaginária da Europa

Edição Bélica

Barba Azul, 26.09.25

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A Grande Muralha Imaginária da Europa
Por Barrabás, à espera dos Drones
 
A Europa é o maior projeto de paz da História, ou pelo menos é assim que gosta de se ver e apresentar. Mas quando enxames de drones ameaçam os céus da Ucrânia e podem atingir qualquer canto do continente, a realidade é uma tragicomédia, recheada de cimeiras, powerpoints, comunicados e hashtags substituindo radares, mísseis e decisões rápidas. Enquanto isso acontece, os drones já deram voltas ao espaço aéreo e publicaram vídeos no TikTok, YouTube, Instagram ou Facebook.
 
Em Bruxelas, a resposta é emblemática, magotes de reuniões intermináveis e grupos de trabalho discutindo “uma resposta coordenada”. A União Europeia parece uma torre de marfim, emitindo guidelines enquanto a ameaça se aproxima. Portugal, por sua vez, observa com atenção, mas continua a depender de comissões, exercícios para fotografia e drones DJI para o Instagram. O Ministério da Defesa anuncia modernizações, mas os sistemas reais para derrubar enxames permanecem uma miragem, porque a estratégia nacional consiste mais em rezar e esperar um milagre em Fátima, do que em abater drones com equipamento adequado.
 
A Alemanha, locomotiva da Europa, não fica atrás no teatro da lentidão. Desde 2022, o histórico fundo de 100 mil milhões de euros prometido por Olaf Scholz para a Bundeswehr está, em grande parte, num Excel do Ministério das Finanças. Quando a Ucrânia solicitou baterias Patriot, Berlim demorou semanas entre Bundestag, comissões e pareceres jurídicos, e, quando o envio foi aprovado, os primeiros drones já haviam cumprido o seu destino. A burocracia alemã transforma a mais básica compra militar num épico administrativo, enquanto a dependência dos EUA garante um guarda-chuva estratégico que é mais retórico que operacional.
 
Em França, Emmanuel Macron governa a defesa como um maestro de ópera, com discursos sobre “autonomie stratégique”, desfile de caças Rafale no Dia da Bastilha e contratos industriais com a Dassault e Thales, e Paris mantém a aparência de liderança europeia, mas quando é preciso agir, prefere negociar contratos e garantir empregos industriais. O “drone wall” europeu é um comité de design mais do que um sistema real de intercepção e a defesa surge após os drones já terem atravessado as fronteiras.
 
A Polónia, por outro lado, é o vizinho que já tem o extintor, enquanto o resto da Europa ainda debate a existência do fogo. Com tanques sul-coreanos, baterias Patriot, mísseis HIMARS e presença permanente da NATO, Varsóvia prepara-se de forma concreta e prática. Desde 2014 avisou que Moscovo não pararia na Crimeia, mas só em 2022 foi levada a sério. Cada incursão de drone é detectada antes de cruzar o espaço aéreo, mas Bruxelas responde com reuniões e relatórios. A Polónia treina civis, testa sirenes e constrói abrigos, enquanto o restante continente ainda escreve o prólogo da crise.
 
A Espanha mantém a serenidade, priorizando turismo e tapas antes da defesa. Itália anuncia sistemas sofisticados com grande pompa, mas entrega-os com atrasos crónicos. O Reino Unido, pós-Brexit, mantém capacidade, mas apenas para faturar e Bruxelas, de novo, prepara comunicados, sanções e hashtags para quando a realidade finalmente bater à porta.
 
O drone tornou-se, assim, a metáfora perfeita da Europa: pequeno, barato, persistente e difícil de derrubar. Barrabás, observando a cena com um sorriso sádico e uma ironia calculada, aponta que isso revela toda a hipocrisia continental, com magotes de reuniões intermináveis e declarações pomposas, que não mudam o essencial, porque, a física e a guerra, não esperam pelo calendário político, ou se derruba o drone, ou ele derruba-nos a nós. A Europa, nesse ensaio contínuo de indiferença e retórica, aprenderá, à força, que a ação vale mais que o discurso, mas ainda não teve tempo, para que essa lição seja compreendida e aplicada.

NEM TUDO O QUE PARECE É

Edição Pirómana

Barba Azul, 21.08.25

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NEM TUDO O QUE PARECE É

O Salvador dos Incêndios que Comia ao Almoço, Jantar, Festas e Arranjinhos.

Era uma vez um "herói nacional...", digo, comandante nacional da Proteção Civil, cuja batalha diária contra o fogo tinha o preço exato de... 684 euros numa única refeição no Solar dos Presuntos. Sim, exatamente aquele sítio chique, onde o fogo das chamas, nos come a bolsa. Noutra epifania gastronómica, desembolsou 348 euros numa marisqueira em Espinho, mas tudo justificado, claro, por “refeições de trabalho” dignas de um trovador romântico perante um incêndio devastador.

Mas esperem lá, nem tudo termina no estômago. O gabinete da Proteção Civil tornou-se numa filial de novas tecnologias, sete computadores num ano, iPod cor-de-rosa para as filhas, máquina fotográfica de 1 400 €, telemóvel de 800 €, televisor LCD e até um leitor de DVD, tudo pago com dinheiro, alegadamente destinado ao fogo, mas encontrado na casa da esposa, “Até porque era rosa e ficava mal a alguém da Proteção Civil usar essa cor.” Um verdadeiro choque de ética e estilo .

Segundo o acusado, o seu “teto de despesas” era de 80 milhões de euros, e bastava estalar os dedos para gastar sem justificar nada. Imagine-se um autêntico deus do Olimpo e da despesa pública, fumando charuto, soprando notas, enquanto acende fogos com ar operático.

A "Justiça Não Gosta de Heróis da Ética", e o Tribunal Criminal de Lisboa decidiu que este super-herói não estava tão inocente assim...., peculato confirmado, pena de 4 anos e 6 meses de prisão, mas suspensa, claro, afinal, o mérito estava lá, era um valente no combate aos fogos.
Teve de reembolsar ao Estado 102 537 euros, e ainda ficou com o cartão “Proibido ser Comandante” por quatro anos. Absolvido da falsificação de documentos, mas dizer que tudo foi “um grande engano do iPod cor-de-rosa”, isso não cola.

Para dar ainda mais sabor à piada, apesar de estar condenado, mantinha uma avença de mil euros brutos por mês na Escola Nacional de Bombeiros. “Sem qualquer impedimento legal”, segundo o presidente da escola, ironias da vida, não? Afinal, se estava protegido de cargos com dinheiros públicos, a escola é “privada”, e os incêndios que ardam, que se lixem, um perfeito "Penalti Moral Após a Sentença".

O Herói que não se arrepende, nem Um Pouquinho, que fosse, em declarações às autoridades, Gil Martins considerou que a acusação era “enferma de erros”. Reafirmou total “lealdade” às suas funções, e disse que se demitiu para que o processo fosse transparente e rápido, tendo ficado tudo tão transparente, como uma esponja preta .

Portanto, sim, caro leitor, nem tudo o que parece é. O comandante que deveria apagar incêndios acabou por incendiá-los, mas os das contas públicas, dos cofres do Estado, dos princípios éticos. O paradoxo irónico, nisto tudo, é que o mesmo Estado que lhe abriu as portas para consumir refeições de luxo, iPods cor-de-rosa e computadores a torto e a direito, agora lhe exigia a devolução do saque, mas com pena leve para que pudesse continuar serenamente a ensinar futuros bombeiros, de como... não se ser apanhado, no meio das cinzas da moralidade, a sorrir debaixo do capacete enquanto o país arde, convicto de que, no fim, o fogo da impunidade nunca queima realmente quem sabe soprar as cinzas para debaixo do tapete.

E aquilo que sobrou? Um sabor amargo de hipocrisia em pixel cor-de-rosa, uma justiça capenga, e um comandante que continua com avença para ensinar a apagar fogos... provavelmente imaginários.

E para que a memória não se apague, um pequeno resumo, sarcástico, para não mais esquecer:

Refeições de luxo (684 € e 348 €) pagas à custa dos incêndios.
Compras tecnológicas como se fosse Natal antecipado.
Defesa baseada em “teto de despesa” de 80 milhões.
Pena suspensa, dinheiro devolvido, mas não limpou a ficha social.
Continua a dar aulas à custa do Estado.
Ainda proclama inocência. Enfim.
“Nem tudo o que parece é.” Mas neste caso, aquilo que parece..., o que parece MESMO, é que vivemos num teatro de tragédia grotesca, comédia patética e hipocrisia à mistura. E tudo isso, entregue com tal elegância que até parece fino, ético... se ignorarmos o iPod cor-de-rosa, claro.

Terá sido o FIM, ou será só o começo de um stand-up trágico?

O Trauma do Banquinho do PSD

Trilogia Cheganeira

Barba Azul, 29.07.25

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Ventura e o Trauma do Banquinho do PSD

André Ventura criou o CHEGA porque, basicamente, o PSD não o deixou brincar com os outros meninos na caixa de areia. E pensou: “Ah é? Então vou fazer a minha caixa. Maior, com bandeirinhas, e vou gritar tanto que até a vossa caixa vai tremer.”

O PSD olhou para Ventura como quem vê um vendedor de enciclopédias na era da Wikipédia. Resultado? Ele saiu de lá a ferver. Hoje, Ventura é aquele ex-namorado ressabiado que, depois de ser trocado, aparece no jantar de Natal da família, com uma nova namorada chamada Populismo e um brinco na sobrancelha, só para provocar.

André Ventura criou o CHEGA não como um partido, mas como uma espécie de reality show de vingança política com laivos de novela mexicana.
A tese é simples: o homem foi preterido dentro do PSD, não teve direito a sentar-se no banquinho dourado da “direita de gente bem” e, num ato de birra épico, decidiu fundar o seu próprio playground.
É como aquele miúdo que não foi escolhido para jogar à bola no recreio e, em retaliação, leva a bola para casa e funda a sua própria liga de futebol, com regras que mudam conforme o humor dele.

E funciona. O CHEGA é um sucesso porque vende uma coisa simples: ressentimento com desconto. É o Lidl das indignações. Tem tudo: imigração? Temos. Criminalidade? Temos. “Portugal está perdido”? Está na prateleira do meio, ao lado do “isto antigamente não era assim”.

Ventura parece ter nascido para o papel de “o excluído que se vinga”. O PSD, naquela altura, olhou para ele com o mesmo entusiasmo com que alguém olha para uma pizza de ananás, um misto de desconfiança e náusea, e Ventura jurou: “Vou provar-vos que sou mais do que um comentador televisivo de futebol com frases feitas. "Vou criar um partido que seja o espelho distorcido do vosso pior pesadelo, e vou chamar-lhe CHEGA porque vocês já me fartaram!”

E assim nasceu o projeto político que mistura tascas com TikTok, raciocínios de taberna com PowerPoint, e que faz do populismo um buffet à descrição. A vingança contra o PSD tornou-se quase bíblica, Ventura quer provar que quem o desdenhou dentro da máquina laranja vai pagar caro, com juros e em prestações mensais até ao dia do juízo político.

A hipocrisia é evidente, porque Ventura continua a usar o PSD como o ex-namorado tóxico de quem fala mal, mas que nunca supera. Cada vez que abre a boca contra os “velhos do sistema”, o subtexto é claro: “Podiam ter escolhido este génio e agora vejam só o que vos espera”.
É como se ele dissesse ao PSD: “Podem ir pedir desculpa de joelhos, porque agora o tio André tem um exército de indignados, 80% dos quais acham que as reuniões parlamentares deviam ser em direto na CMTV e com comentários ao minuto.”

E o mais caricato? Ventura transformou-se num empreendedor da raiva. O homem pega em tudo, da insegurança à imigração e serve como um prato gourmet de ressentimento popular, tipo vendedor ambulante de indignação colectiva.

No fundo, o CHEGA é o cartão de visita que Ventura atirou à cara do PSD, pois achavam que ele não tinha estofo? Agora vejam-no, porque ele é agora a vossa sombra. Transformou-se no vosso pior reflexo no espelho. Ele representa o comentário do taxista materializado num partido, e quando chegar ao poder, ou lá perto, eles, PSD, vão entender quanto custou dizer que ele não tinha futuro político.”

Se isto não é a vingança de um preterido, então é a comédia mais bem ensaiada da política nacional, porque, se Ventura tivesse sido promovido a estrela do PSD, hoje provavelmente estaria a distribuir sorrisos falsos ao lado de Montenegro. Em vez disso, prefere o papel de “Robin Hood da frustração”, mas sem dar nada a ninguém.

No fundo, Ventura criou o CHEGA só para mandar esta mensagem ao PSD: “Lembram-se de quando não me quiseram? Pois agora sou eu que vos mando SMS às 3 da manhã: ‘Tá tudo bem aí, ou querem que eu vos mande uns deputados para animar?’”

Trabalho Comunitário para Totós

Mapa Para Peregrinação a São Banto

Barba Azul, 25.05.25

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Trabalho Comunitário para Totós
JL Carneiro - Cuida-te

Senhoras e senhores, apresento-vos André Pinotes Batista, hoje, deputado socialista, e sobretudo um homem profundamente comprometido com o serviço público, acima de tudo aquele imposto por sentença judicial.

Em 2013, o jovem promissor foi apanhado a conduzir com 2,5 gramas de álcool por litro de sangue, o que, para os leigos, significa que não estava bêbado, estava embalsamado.

O tribunal foi compreensivo, em vez de pagar uma multa, propôs-lhe uma alternativa digna de quem acredita na reabilitação social, 109 horas de trabalho comunitário. Um verdadeiro abraço da justiça a quem se limita a trocar o volante por uma garrafa de bagaço.

Mas eis que o milagre socialista da multiplicação da dispensa, das 109 horas, acontece, só fez 10. E não porque se recusasse. Deus nos livre! O agora deputado, estava apenas… distraído, porque entre uma reunião do PS e outra, é fácil esquecer que temos de ir varrer folhas para cumprir pena. Prioridades, não é? O povo que espere, primeiro o partido, depois a pá.

Claro que o tribunal, esse chato burocrata do sistema, ameaçou com cadeia. Mas não subestimem um homem que sabe rodear-se. Eis que, num gesto de altruísmo sublime, Rui Pereira, presidente do Luso Futebol Clube e colega socialista, oferece ao nosso mártir uma oportunidade de redenção, cumprir o resto da pena no clube.

Varreu balneários, alinhou cadeiras, assinou folhas de ponto com zelo digno de funcionário público na véspera de feriado, e ainda sobrou tempo, para meter o seu supervisor de pena, passados poucos anos, nas listas autárquicas, mas foi só por coincidência.

E assim, em menos de um mês, estava redimido. Um relâmpago de civismo que faria o padre Américo bater palmas no túmulo. A DGRSP (Direção-Geral de Reinserção) não viu qualquer problema. O tribunal também não. O clube ficou limpo. E Pinotes? Pinotes foi promovido, passou de infrator a deputado. Milagre português. Ou melhor, milagre do Barreiro.

Quando, em 2017, a Visão ousou perguntar se este arranjinho não cheirava um pouco a tacho requentado, o deputado respondeu com toda a sobriedade de quem já não conduz depois de beber: "Não fui favorecido."

Claro que não, apenas teve a sorte de cumprir a pena com um camarada de partido como supervisor. É como um aluno a fazer exame com o primo a vigiar, tudo dentro da legalidade, senhor doutor.

Hoje, Pinotes Batista continua a legislar com a autoridade moral de quem um dia limpou balneários a mando da justiça, por ser apenas inconsciente, o que, em linguagem jurídica, é praticamente um elogio e, em política portuguesa, um trampolim para cargos de chefia.

Neste país, ser inconsciente ao volante é grave… exceto se o volante for o do Parlamento. Aí, a inconsciência é valorizada como visão estratégica.

E assim, lá vai Pinotes, de microfone em punho e passado enxaguado, legislando com a leveza de quem sabe que a ética é opcional, a consequência é facultativa e o trabalho comunitário, é com os outros.

As instituições, por sua vez, engolem seco, apertam o nó da gravata e prosseguem, serenas, no seu papel de figurantes cúmplices.

A Justiça não se ofende, a Assembleia não se envergonha, e o país, esse, vai assistindo à degradação institucional com a mesma passividade com que assiste a um reality show: sabe que é tudo uma farsa, mas já não consegue mudar de canal.

E no fundo, talvez nem queira. Afinal, sempre é entretenimento nacional, pago com o suor dos que ainda não descobriram que infringir a lei, em Portugal, é só um erro de classe.

Afinal, já deu o seu contributo ao clube. Não ao país, claro. Ao Luso Futebol Clube. Onde, por entre vassouras e camaradagem, se provou que em Portugal a justiça não é cega, apenas sofre de miopia seletiva e alergia a militantes do aparelho.

Moral da história? Se beber, não conduza. Mas se conduzir, seja do PS, e nós, simples mortais, olhamos com reverência para este exemplo vivo de como um sistema pode ser manipulado sem nunca se tornar, tecnicamente, ilegal.

E se perguntarem: “Mas ele não devia ter cumprido a pena como qualquer cidadão comum?”, a resposta é simples. É claro que sim, mas o infrator é socialista, um botão viciado de rosa a desabrochar, e em Portugal, socialista que se preze tem sempre direito a um serviço público... com serviço de quarto.

Significa tudo isto, que Portugal não é uma república das bananas, mas é uma feira da fruta, e Pinotes, ao que parece, é cliente VIP.

Crónica de um Sonho Líquido

Edição Autárquicas

Barba Azul, 23.05.25

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Crónica de um Sonho Líquido

Foi num sonho que tudo começou. Um sonho estranho, como aqueles que nos fazem acordar com um nó na garganta e uma sensação de que o mundo virou ao contrário enquanto dormíamos.

Um sonho onde o Tejo deixava de correr para o mar e passava a ser engarrafado, com selo municipal, pronto a ser vendido, não a empresas de abastecimento ou a laboratórios de análise, mas a cidadãos encantados com a mais recente inovação do Barreiro: "Água com Vista", agora disponível em frascos numerados, recicláveis e tributáveis.

Sim, foi só um sonho, mas tão vívido que dava para sentir o cheiro a vidro quente e burocracia morna.

Lá estavam eles, os frascos, alinhados como relíquias num altar pós-industrial, cada um com um rótulo sóbrio e elegante, aprovado em reunião de câmara com dois votos contra, três brindes e meia dúzia de sorrisos institucionalmente fotogénicos.

Um toque de génio da alquimia autárquica, capaz de transformar um bem comum em souvenir de luxo, e ninguém acordava, pelo contrário: aplaudia-se.

No sonho, tudo fazia um sentido enviesado. Primeiro venderam os terrenos, com direito a powerpoint e workshop. Depois os equipamentos, sempre com promessa de “revitalização”. Agora o rio. E por que não?

Num tempo em que a memória é gerida por curadores e a identidade se escreve em apresentações de pitch, engarrafar o Tejo soa mais a pragmatismo do que a provocação.

Havia até rumores de uma edição especial, um frasco com gota de suor de vereador, azulejo industrial pulverizado e selo de autenticidade.

Património líquido, sim, mas com IVA e storytelling. “O Barreiro somos nós”, diria o slogan, com letra redonda e fundo degradê. O povo, esse, comprava, porque ao menos vinha com rótulo.

A receita, garantia o executivo, seria canalizada para a “dinamização cultural”, que é como quem diz: mais murais nas rotundas, mais consultorias, mais podcasts onde o passado operário é falado em tom neutro, entre jargões de inovação e promessas de cowork.

Nada que não se possa resolver com uma vending machine junto ao Polis, onde o cidadão poderá adquirir o seu frasco de identidade líquida enquanto ouve a playlist oficial da autarquia.

Mas o sonho não parava aí. No horizonte, vinha já a próxima fase: o pôr-do-sol transformado em NFT, com certificado blockchain e trilha sonora aprovada por curadoria de tendências.

O vento? Em concessão a uma eólica norueguesa, o cheiro a maré? Como Marca Registada, tudo com ata, vídeo e emojis na página oficial da Câmara.

E foi então que acordei. Ainda com a sensação húmida nas mãos, como se tivesse mesmo segurado um frasquinho de Tejo, a janela aberta deixava entrar o cheiro do rio, esse sim, ainda de graça. Por quanto tempo?

Era só um sonho, mas parecia tão real, porque na verdade, o mais assustador não era o absurdo da ideia, era a lógica por trás dela, a lógica fria de um mundo onde o bem comum se converte em oportunidade, onde a memória se molda ao mercado, onde o património se vende com embalagem premium.

E nesse sonho, que talvez não fosse apenas sonho, a cidade já não era cidade. Era showroom, era vitrine, era uma ideia líquida, embalada com amor e assinatura digital.

“Água com Vista”, porque já que nos tiram tudo, ao menos que venha com um design apelativo.

Barreiro Resort & Spa

Edição Autárquicas

Barba Azul, 22.05.25

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Barreiro Resort & Spa

O Nosso Tejo é Sua Excelência Sr. Vice Presidente Rui Braga

Já estranhavam a sua ausência na Imobiliária " CMB & Companhia AFB? Mas eis que o Mago voltou e cheio de gás.

Hoje foi dado um passo importante para o futuro da nossa cidade, diz-nos o vereador e vice-presidente Rui Braga, com a pompa de quem acaba de reinventar o fogo, ou pelo menos de quem descobriu mais uma maneira de o vender a retalho, neste caso, sob a forma de terrenos públicos.

Traduzido por miúdos, de quem descobriu mais uma forma de liquidar o património público com o entusiasmo de um feirante em liquidação total.

Sim, meus amigos, aprovada está a hasta pública para erguer mais uma unidade hoteleira no Barreiro, porque o verdadeiro desígnio desta terra é transformar-se num Airbnb à escala concelhia.

Uma vitória para o progresso, para a visão estratégica e, acima de tudo, para quem anda há anos à espera de transformar terrenos municipais em metros quadrados de lucro.

Aparentemente, a proximidade ao Terreiro do Paço e a vista sobre o Tejo, que até aqui serviam para inspirar poesia ou desenhar postais, passam agora a justificar a privatização do espaço comum, que se lixe a poesia, o que interessa é o “retorno do investimento”.

O que antes era um território com história operária e identidade própria, agora é um "destino turístico com potencial", ou como diz o outro, betão com vista privilegiada.

E dizem as más línguas, porque as boas estão ocupadas em comissões de avaliação, que a primeira coisa que Rui Braga fez ao entrar nas instalações da Câmara Municipal do Barreiro foi perguntar, de olhar brilhante e mãos a esfregar: “O que é que temos aí para vender?”

Uma pergunta simples, quase inocente, como quem entra numa loja de penhores, mas com o poder de decisão executiva.

É assim que se governa no Barreiro da visão turística, como num programa de vendas da madrugada, com um fundo de drone sobre o Tejo e uma legenda a piscar “IMPERDÍVEL: Terreno municipal com potencial de rentabilização imediata! Oferta limitada! Ligue já!”

Claro que o hotel “não é só turismo”, serve também a cultura, o desporto, os negócios, porque um hotel, como toda a gente sabe, é a solução mágica para tudo. Concertos, conferências, corridas de sacos, seminários de Reiki e até lançamento de livros que ninguém vai ler, como se um átrio com carpete espessa e serviço de brunch fosse o novo pólo cultural da cidade.

Aposto que já há reuniões para saber se a biblioteca municipal pode ser transferida para o lobby do hotel, talvez entre a máquina de café e a receção.

Finalmente, o Barreiro terá o privilégio de receber eventos que, de tão extraordinários, não podem ser acolhidos em nenhum dos muitos espaços municipais já existentes, esses mesmos que continuam semi-abandonados, por falta de verba, pelas ausências consecutivas das responsáveis da área ou por excesso de desprezo.

Mas há aqui uma coerência admirável, o executivo continua firme no seu compromisso com a iniciativa privada, especialmente quando o património público está disponível a preço de saldo.

Alienar terrenos da autarquia, novo planeamento estratégico, é uma espécie de Black Friday autárquica, mas sem devoluções, provavelmente desenvolvido e apresentado no mestrado de Rui Braga.

O vídeo de Rui Braga no Facebook é o epílogo perfeito desta encenação: lá está ele, sorridente, excitado como de costume, abanando-se por todo o lado, a anunciar que o Barreiro está cada vez mais preparado.

Perguntamos nós, preparado para quê? Não sabemos.
Para o turismo? Para a especulação imobiliária? Para os dividendos de quem vem, constrói, fatura e vai-se embora? Talvez seja, só que para os munícipes, é que não parece.

Num mundo ideal, este anúncio seria acompanhado por uma moratória sobre a palavra "futuro", que entretanto foi raptada, espancada e exibida em público como símbolo de progresso, porque quando um autarca vende um pedaço da cidade, o mínimo que se exige é que não o faça com um sorriso de Pasta Medicinal Couto ou Pepsodent e frases dignas de uma brochura de agência imobiliária.

O discurso oficial fala de uma cidade “mais preparada, mais atrativa e com mais oportunidades para todos”, sobretudo para todos os que conseguirem licenciar uma obra antes das eleições, digo eu.

Para os outros, sobram as visitas guiadas: “À esquerda, o terreno que era nosso, à direita, a unidade hoteleira que nos devolve, em troca, um parque de estacionamento pago e uma esplanada com wi-fi.”

E enquanto se anunciam passos firmes rumo ao “futuro”, esquecem-se os passos em falso que deixaram bairros inteiros ao abandono, equipamentos culturais a cair de podres e freguesias que só aparecem nos mapas, mas não nos orçamentos.

Mas o melhor ainda está para vir: "uma cidade com mais oportunidades para todos", exatamente, para todos os empreiteiros, claro, para os grupos económicos do costume, para as consultoras que redigem as minutas dos cadernos de encargos.

E para o cidadão comum? Talvez uma selfie ou vídeo junto ao lobby, com vista para o rio, antes que construam outro hotel em cima, ou vendam, quem sabe, o Tejo também.

Mas descansem, porque o futuro está assegurado, está traçado, loteado e devidamente vendido. Tudo em nome da atratividade, da modernidade e do sagrado mercado, no Barreiro, cidade onde o património é promessa de campanha e a hasta pública, a conclusão lógica.

E assim se faz a cidade do futuro, não com participação, não com visão de conjunto, não com memória, mas com hasta pública, cimento armado e fé no Instagram.

Parabéns, Barreiro, o futuro é agora e está à venda.

Cisma Místico no PS. As manhas do costume (2/2)

Segunda Parte

Barba Azul, 14.04.25

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No rescaldo de uma eventual derrota de Pedro Nuno Santos nas legislativas de 18 de maio, o Partido Socialista irá prepara-se com o estoicismo teatral de quem já viveu vários enterros e sempre regressa, para mais um ritual de autoflagelação e purga interna.


Mas não se trata de uma simples reunião de reflexão, é o levantar do pano para uma nova ópera buffa, em que os actores não entram em cena pela ideologia, mas pelo reflexo no espelho do poder.

No primeiro acto, surgem os Pedro-Nunistas, herdeiros da esquerda musculada e da convicção berrada, sempre prontos a morrer pelas suas ideias, desde que isso não implique perder o lugar na bancada parlamentar.

Depois, entram os Costistas de meia reforma, com o seu pragmatismo cirúrgico e a nostalgia tecnocrática de quando o PS ganhava eleições com powerpoints e serenidade fiscal.

Seguem-se os Renovadores, jovens ambiciosos que ainda acham que o socialismo se pode praticar em stories de Instagram, desde que alguém lhes dê um gabinete com vista privilegiada na cena da sobrevivência.

E finalmente, os grandes maestros da ambiguidade, os que dizem, é tempo de união, enquanto contam discretamente quantos passos faltam para chegar à liderança. São os profissionais da flutuação democrática, os oráculos do eu bem avisei, os verdadeiros especialistas na arte de estar sempre disponíveis, para tudo, menos para perder.

Este não será, pois, um cisma ideológico, será uma guerra fria de egos temperados à mesa do café, conferências e mensagens em off. E no centro disto tudo, o PS, esse enorme navio, onde todos querem comandar, mas poucos sabem remar.

Alexandra Leitão, a ministra sem pasta mas plena de criatividade, defensora do Estado forte, pode converter-se numa paladina da resistência socialista com coluna.

João Galamba, o enfant terrible que adora o confronto e já anda a ensaiar o papel de fanatismo, acusações e sarcasmos garantidos.

Fernando Medina, com ares de gestor de contas públicas, poderá posicionar-se como o regresso à sensatez, leia-se, ao poder sem paixão.

Ana Catarina Mendes, sempre em cima do muro, mas com um ouvido bem afinado para saber quando saltar, coloca-se como figura Ideal para um papel de grande unificadora… depois da carnificina ideológica.

Mariana Vieira da Silva, uma face soft do costismo, pode emergir como alternativa madura, sensata, comedida e competente, caso Medina arrebente na curva.

José Luís Carneiro, o eterno vice de qualquer coisa, poderá tentar o salto de legitimidade com discursos sobre territorialização do socialismo.

Francisco Assis, aparecerá para dar uma entrevista com ar professoral, dizendo que já previa tudo desde 1997. E depois desaparecerá.

Carlos César, o Oráculo de Ponta Delgada, surgirá para lançar a confusão e garantir que ninguém perceba bem de que lado está, até ser demasiado tarde.

Miguel Costa Matos, vai querer parecer estadista antes de ser promovido a chefe de gabinete de alguém mais velho.

Isabel Moreira, com discurso mais ideológico e de causas, pode tentar erguer uma ala progressista real, ainda que com pouco exército.

E no fim desta triste e preocupante caminhada, sobre espinhos, o Messias, ainda vai ter que se ver e confrontar com os sempre Figurantes de Luxo, ou mais conhecidos por Tertulianos de Prime Time, Francisco Seixas da Costa, Vital Moreira, Ana Gomes e afins. Cada um terá a sua tese de cisma em artigos densos, onde o PS é simultaneamente vítima, vilão e esperança.

No fundo, o cisma, quando vier, não será entre ideias: será entre vaidades mal digeridas, vinganças prometidas e adiadas, ambições de secretaria-geral e uma nostalgia difusa por um partido que já foi movimento, depois governo e hoje é sobretudo uma memória em disputa.

Fazer mais, com muito menos

Isabel Ferreira na luta por Santo António da Charneca

Barba Azul, 09.04.25

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Isabel Ferreira em foto de www.rostos.pt

A Presidente da Junta de Freguesia de Santo António da Charneca, Isabel Ferreira, tem-se afirmado como uma das figuras mais dinâmicas do poder local no concelho do Barreiro. Ao longo do seu mandato, tem demonstrado um compromisso inabalável com a melhoria da qualidade de vida da população, evidenciando uma gestão próxima, eficiente e orientada para resultados visíveis.

Nem sempre faz quem pode, mas sim quem quer e se esforça. E é precisamente esse espírito que tem marcado o seu desempenho na Presidência da Junta de Freguesia de Santo António da Charneca. Num território extenso, com forte presença rural e recursos orçamentais limitados, a sua acção tem sido marcada por resultados concretos e uma dedicação incansável à melhoria da vida das populações.

Entre os vários eixos da sua intervenção, destacam-se a recuperação e manutenção de espaços verdes, higiene urbana, espaços escolares e de colectividades, estruturas fundamentais para a coesão social, a educação e a dinamização cultural, bem estar e qualidade de vida dos fregueses. Ao requalificar estes espaços, Isabel Ferreira tem investido na criação de melhores condições para idosos, crianças, jovens, associações e toda a comunidade, promovendo não apenas o acesso a serviços, mas também a vivência activa da cidadania.

A sua gestão soube acolher e operacionalizar as novas competências descentralizadas pela Câmara Municipal do Barreiro, com foco na proximidade e na valorização dos recursos locais, promovendo o diálogo e presença permanente com a comunidade, valorizando a escuta activa e a construção de soluções em conjunto com os cidadãos e associações da freguesia. A sua postura é um verdadeiro exemplo de liderança colaborativa, assente na proximidade e na valorização dos recursos locais.


O espaço público está mais cuidado, as respostas sociais mais eficazes e a população sente-se mais ouvida e envolvida.

O desempenho de Isabel Ferreira é, assim, não apenas motivo de reconhecimento a nível local, mas também um modelo de como as freguesias podem assumir um papel central na concretização de políticas públicas descentralizadas, garantindo que as decisões estão cada vez mais próximas das pessoas.

Isabel Ferreira é um exemplo de liderança autárquica determinada, próxima e transformadora, provando que, mesmo com menos, é possível fazer muito, quando se trabalha com visão, competência, e espírito de missão.

A escolha de Isabel Ferreira para liderar a Junta de Freguesia de Santo António da Charneca revelou-se certeira, como atesta o trabalho sério levado a cabo nos últimos oito anos, a proximidade e identificação com a população e os resultados visíveis.

Uma derrota anunciada.

Barba Azul, 01.04.25

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Pedro Nuno Santos, um pequeno burguês a brincar ao proletariado. PNS sempre tentou projectar uma imagem de proximidade com as classes trabalhadoras, mas a sua trajectória pessoal e política evidencia outra realidade.

Vindo de uma família de classe média-alta e com carreira forjada dentro do aparelho partidário, ele representa mais a elite política tradicional do que qualquer tipo de militância operária genuína.

O seu discurso inflamado e a retórica esquerdista parecem muitas vezes uma estratégia para consolidar poder dentro do PS, agradando a uma base eleitoral mais à esquerda sem nunca realmente romper com o status quo.

A sua gestão enquanto ministro demonstrou que, na prática, cede facilmente aos interesses económicos quando necessário. No fim, o socialismo que defende, ou diz que defende, é mais uma questão de estética política do que de transformação estrutural.

Mas como a realidade não se coaduna com o facsimile, Pedro Nuno Santos será um descalabro político para o partido Socialista nas eleições que se aproximam. Ele, e os seus apaniguados, sem nunca terem lutado para ser alguém na vida real, com currículos construídos na estrutura partidária, ajudam e levam o centro direita para uma vitória retumbante.

Pedro Nuno Santos representa uma ala do PS que tentou radicalizar o discurso para capturar o eleitorado mais à esquerda, mas sem credibilidade suficiente para conquistar os sectores populares ou moderados. A realidade política portuguesa sempre foi dominada pelo centro, e qualquer desvio mais acentuado pode ser fatal para um partido tradicional como o PS.

O eleitorado percebe quando um líder é um produto da máquina partidária e não alguém que construiu a sua trajectória no mundo real. Isso explica por que tantos eleitores de centro-esquerda acabam migrando para a direita quando se deparam com um candidato como PNS, que soa mais como o membro de uma Tuna Universitária do que como um estadista preparado para governar.

Se a direita já estava em ascensão devido ao desgaste do PS no governo, Pedro Nuno Santos apenas facilitou a sua vitória ao alienar os eleitores moderados e reforçar a ideia de que o PS perdeu a sua identidade reformista, e, a rematar, tem telhados de vidro tão grandes como os que anda a apedrejar.

A história de Pedro Nuno Santos nestas eleições é a crónica de uma derrota anunciada!