O Tarzan do Barreiro e a Selva das Promessas
Edição Televisiva

André Pinotes Batista, O Tarzan do Barreiro e a Selva das Promessas
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André Pinotes Batista, O Tarzan do Barreiro e a Selva das Promessas
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O TGV, o Comboio de Alta Velocidade… ao Absurdo
Portugal é o único país do mundo onde se pode gastar milhares de milhões de euros num comboio que nunca saiu da estação, nem sequer do papel. O TGV é a versão ferroviária do D. Sebastião, todos dizem que vem, todos juram que vai salvar a pátria, mas só aparece em apresentações em powerpoint.
José Sócrates garante agora, com aquela cara de quem acabou de descobrir a roda, que o seu governo nunca pagou indemnizações às empresas pelo TGV chumbado. Verdade seja dita, não pagou às empresas, pagou foi aos bancos. É a diferença entre dar o dinheiro ao padeiro ou ao agiota, o pão nunca chega à mesa, mas a dívida fica em cima dela.
A narrativa é deliciosa: o Tribunal de Contas chumba o negócio porque aquilo era uma festa sem entradas, só com saídas, de dinheiro, claro. E o que acontece? O governo seguinte, de Passos Coelho, ficou com o empréstimo de 600 milhões de euros, não para fazer comboios, mas para pagar juros e swaps. Ou seja, o TGV não andou um metro, mas a conta correu uma maratona. É como comprar um Ferrari e usá-lo apenas para pagar estacionamento.
Sócrates diz que não foi o consórcio que ganhou, foi a banca. É curioso, em Portugal, quando há dúvidas sobre quem ganha, aposte sempre nos bancos e se a dúvida persistir, dobre a aposta porque vai ganhar. O resto é paisagem, ou melhor, linha férrea abandonada.
E há aqui um detalhe sublime, os swaps negativos. Malditos swaps, são um instrumento financeiro tão sofisticado que até hoje ninguém percebe bem de que se trata. O que se sabe é que custaram cerca de 180 milhões, ou seja, é como se o Estado tivesse comprado uma raspadinha em que, em vez de perder apenas um euro, perdeu 180 milhões. Apenas falta de sorte, um azarinho.
No teatro nacional chamado TGV, Sócrates surge sempre no papel de mártir incompreendido, como se tivesse sido crucificado por inventar maquetes em PowerPoint. Passos, no acto seguinte, vestiu a farda do gestor sério que corta gastos, mas cortou de forma tão eficiente que ficámos com a dívida, sem comboio e com um bilhete só de ida para os bancos. Agora, Montenegro, num remake sem orçamento, jura que vai ressuscitar o fantasma, como se fosse possível reanimar um cadáver que nunca chegou a nascer.
E assim seguimos, de década em década, a aplaudir maquinistas que prometem viagens Lisboa-Madrid em duas horas, quando na verdade o mais rápido continua a ser ir de carro até Badajoz para apanhar o comboio espanhol. O TGV português não é de alta velocidade, é de alta ilusão, anda sempre a todo o vapor nos discursos políticos, mas na realidade continua parado, invisível, como uma locomotiva movida a esperança, burocracia e juros bancários.
Resultado? Temos o povo a viajar em Intercidades que demora mais de quatro horas até ao Porto, mas com bilhetes cada vez mais caros. A verdadeira inovação é que nós já vivemos em alta velocidade, só que é a alta velocidade da dívida. O comboio não chegou, mas os juros atropelaram-nos todos, debaixo do olhar satisfeito da banca, que continua a vender bilhetes sem nunca ter posto os carris.
Portugal não construiu o TGV, mas construiu algo mais original, o único comboio do mundo que anda apenas em contas públicas, com carris de papel e locomotiva a juros. Senhores passageiros, mantenham-se sentados: o atraso é eterno, mas a cobrança é imediata.
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A morte anunciada do Estado Social, ou como se diz em alemão, "RIP Sozialstaat"
O chanceler alemão Friedrich Merz, aquele senhor que parece saído diretamente de um catálogo de fatos cinzentos com alma de Planilha de Excel, decidiu anunciar que o Estado Social Alemão,está oficialmente falido. Não é rumor, não é conspiração, é a certidão de óbito da coisa pública na Alemanha, uma das maiores economias europeias.
Disse, sem corar, que a Alemanha já não pode pagar hospitais, pensões e escolas. Mas, atenção! ainda pode pagar tanques, drones e a conta do Zelensky, que se tornou o vizinho chato da Europa, aquele que pede sal emprestado e aparece sempre à hora do jantar, mas em versão mísseis Patriot.
Em bom português, é como se em Portugal o primeiro-ministro viesse à televisão dizer que não há dinheiro para pensões, mas que vai aumentar o subsídio para manter o Cristiano Ronaldo a jogar até aos 65 anos.
Aliás, nós por cá conhecemos bem este número a farsa do “não há dinheiro” já foi o pano de fundo de várias peças tragicómicas, desde o PEC até à troika. A diferença é que em vez de Merz, tivemos Sócrates, Passos e a inesquecível coligação dos Excel boys que descobriram que cortar no rendimento dos cidadãos, dá mais votos do que cortar nas PPP.
E aqui está o ponto de referência delicioso: quando Merz diz que o Estado Social não é financiável, está a falar da Alemanha, a maior economia da Europa. Se eles não conseguem, imagine o que nos espera a nós, campeões da dívida, inventores do recibo verde e praticantes de alta performance em precariedade laboral. É como ver o Cristiano falhar um penálti e nós, que nem sabemos calçar chuteiras, acharmos que ainda vamos ganhar o campeonato.
Na Alemanha, essa fortaleza de eficiência e salsichas regulamentadas, já não se pode pagar saúde, escolas ou pensões. Imaginem, se até eles estão falidos, o que será de nós, esse país que não consegue gerir nem a fila do pão na Pastelaria Suíça. Lá, cortam-se pensões, cá, o próximo passo será cortar a eletricidade às casas dos reformados com a nota de rodapé: “guerra obriga, obrigado pela compreensão”.
Eis a verdade obscena, para Merz e para os seus clones em Portugal, a prioridade é a Ucrânia armada até aos dentes, não o português armado apenas com um pacemaker avariado. Dinheiro para tanques? Sim. Para insulina? Logo se vê. O Estado Social na Alemanha não caiu, foi empurrado para a cova com a mesma brutalidade com que se atira lixo ao contentor.
Portugal, como sempre, segue a Alemanha como um cão sem trela. Quando eles espirram, nós tossimos tuberculose. Se em Berlim já se anuncia o colapso, por cá já podemos encomendar o padre, a urna e a coroa de flores murchas. A missa de corpo presente será realizada no Terreiro do Paço, com transmissão direta nos telejornais, onde comentadores engravatados explicarão com ar sério: “É preciso coragem para acabar com o Estado Social”.
Coragem? Não, coragem é viver com 800 euros de reforma e ainda assim ter de pagar IRS. Coragem é esperar 18 meses por uma consulta no SNS e ainda agradecer por estar vivo. Coragem é ser português e acreditar que o voto muda alguma coisa.
O que se anuncia não é apenas o fim de um modelo, é o funeral de uma ilusão. O Estado Social foi vendido como promessa de dignidade, mas será enterrado ou cremado, como piada cruel. Primeiro tiraram-nos os salários, depois os direitos, agora levam-nos até a decência de envelhecer sem pedir esmola.
Preparem-se, meus senhores, o apocalipse não virá com bombas nucleares, mas com cortes orçamentais. O som das trombetas do fim do mundo não será o trovão, mas a frase repetida até à náusea: “não há dinheiro”.
E no dia em que fecharem a porta do último hospital público, acenderemos uma vela na janela e cantaremos, em coro fúnebre: “Aqui jaz o Estado Social. Foi morto por aqueles que juraram defendê-lo. Amém.”
A ironia é bíblica, há dinheiro para mandar Leopard 2 para a Ucrânia, mas não há para mandar um reembolso ao reformado que não consegue pagar a conta da farmácia. A lógica é simples, primeiro compramos mísseis, depois cortamos nas pensões, porque afinal de contas, o idoso sem medicamentos não vive o suficiente para reclamar. Economia de guerra, versão geriátrica.
Em Portugal, já se adivinha o ensaio geral desta ópera grotesca, o ministro das Finanças qualquer dia aparece a dizer “meus senhores, acabou-se a festa do SNS, mas temos boas notícias: conseguimos comprar mais uma fragata para guardar sardinhas em Setúbal”. E o povo, claro, baterá palmas, porque em Portugal bater palmas ao próprio funeral é quase uma tradição nacional e ficamos a saber que não vão faltar sardinhas no St. António.
No fundo, Merz apenas deu voz àquilo que os nossos políticos cá da terra sonham secretamente, mas não dizem, acabar com o incómodo de pagar velharias, saúde e escolas, para finalmente se poder investir no que realmente interessa, desfiles militares e inaugurações de rotundas com estátuas e obeliscos indecifráveis, estudos e pareceres que não servem para nada, a não ser encher os cofres do costume.
Portanto, preparem-se, se a Alemanha enterra o Estado Social, Portugal nem precisa de coveiro. Já temos a sepultura cavada há décadas, com lápide inscrita: “Aqui jaz o Estado Social. Morreu de austeridade, foi enterrado em dívida, e ressuscitado em propaganda.”
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Barreiro a Cidade do Tacho Perpétuo
A revista Sábado fala da promiscuidade do executivo socialista atual na Câmara do Barreiro e tem razão. Mas para o Barrabás, não é novidade nenhuma, até porque o PS não inventou nada, apenas fez o remake da velha fita do PCP. É como aqueles filmes de ação de Hollywood, onde mudam os atores, os efeitos especiais ficam mais caros, mas a história é sempre a mesma.
O PCP, durante décadas, usou o Barreiro como o seu viveiro de quadros. Era a “escola de poder” onde militantes sem futuro encontravam emprego eterno em gabinetes inventados. Chamavam-lhe “gestão participada”, mas na prática era mais uma “gestão partilhada entre camaradas”. Cada cargo era uma trincheira, cada nomeação, uma medalha de fidelidade.
Quando Carlos Humberto mandava, os argumentos eram iguais, “competência técnica”, “confiança política”, “dedicação à causa pública”. Por outras palavras, se passaste noites a distribuir o Avante! no terminal fluvial, tinhas meio caminho andado para uma carreira nos Recursos Humanos da autarquia.
Chegou o PS de Frederico Rosa e o que fez? Pintou de rosa o mesmo modelo encarnado. Onde antes o PCP falava em “coletivo”, agora fala-se em “modernização”, onde os comunistas davam tachos com base na “luta de classes”, os socialistas distribuem-nos em nome da “confiança política”, é o mesmo prato, só que servido em loiça diferente.
Até os esquemas são reciclados, senão vejamos a engenharia desta “obra-prima democrática”:
Adjudicações em série a empresas “amigas”, muitas vezes sem concurso público, porque no Barreiro, o Código dos Contratos Públicos é como o Código da Estrada, só serve para os outros. Obras no centro da cidade entregues sempre aos mesmos operadores locais, em nome da “celeridade”. Celeridade, note-se, é a palavra técnica para “não deixar a concorrência meter o bedelho”.
Na Cultura, o desastre tem nome, programação medíocre e clientelar, sempre com os mesmos coletivos, os mesmos artistas da casa, os mesmos grupos que já faziam favores ao PS antes de 2017. O Barreiro, que já foi motor cultural, tornou-se num parque infantil para amigos do poder. Festivais de segunda linha com cartazes reciclados, subsídios para associações “da família socialista”, enquanto projetos independentes definham.
No Urbanismo, a promiscuidade é mais óbvia que os andaimes no centro, ou seja, reabilitação feita em modo “show off”, com orçamentos gordos e prazos elásticos. A Avenida da Praia está sempre “em requalificação”, mas os gabinetes camarários estão sempre prontos em tempo recorde.
Nos Recursos Humanos, é onde se nota a verdadeira inovação. Militantes derrotados nas urnas? Emprego na Câmara,Técnicos superiores recém-descobertos? Curiosamente, todos ligados ao partido. É o Barreiro a inventar o “subsídio de militância vitalício”.
E como se tudo isto fosse pouco, o executivo ainda fala de “transparência”? Transparência, sim, daquelas que deixam ver claramente o jogo, contratos, cargos e tachos sempre a circular dentro do mesmo círculo. É o PS a fazer do Barreiro uma espécie de Monopoly socialista, onde a praça pública é comprada em prestações partidárias.
Como resultado, temos um Barreiro que se transformou numa cidade com mais tachos que restaurantes de bifanas. A população paga impostos e recebe rotundas, os camaradas colam cartazes, likes nas redes sociais e recebem contratos. É uma obra de arte da hipocrisia, enquanto se fala de “participação cidadã”, o único cidadão que participa é o militante na fila do gabinete da RH da autarquia.
É por isso que, quando se fala em “promiscuidade”, a verdadeira tragédia é perceber que o Barreiro nunca conheceu outra coisa. PS ou PCP, tanto faz, o método é eterno, muda de cor, mas o esquema é imortal e o cheiro fede. A cidade viveu décadas sob o dogma vermelho, e agora vive sob o dogma rosa e o cidadão comum continua a pagar impostos para financiar esta novela autárquica que mais parece um episódio infinito de "Conta-me Como Foi".
No fim, a grande ironia: o Barreiro tem o slogan “Cidade em Movimento”. Verdade seja dita, em movimento está, mas um movimento circular, vicioso, nauseante, como um carrossel enferrujado que só diverte quem tem lugar cativo. Os empregos vão e voltam como se fossem cadeiras musicais entre camaradas, os contratos giram sempre na mesma mesa de jogo, as promessas repetem-se como discos riscados.
E os cidadãos? Esses, exaustos, apanham o barco para Lisboa, com a sensação de viver numa cidade em segunda mão e viciada em esquemas. Enquanto isso, outros entram pela porta dos fundos da autarquia, sorridentes, de currículo vazio, mas com o bolso cheio de fidelidade partidária. No Barreiro, o futuro nunca chega, apenas regressa, pintado da cor que convém. E o slogan “Cidade em Movimento” podia ser trocado por algo mais honesto, do tipo “Cidade em Rotação Eterna, onde o povo paga a viagem e o partido escolhe quem anda no carrossel”.
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Palestina Versão de uma homilia satírica
Um sermão dominical pregado por um padre cínico, com incenso de hipocrisia e badalos de sarcasmo:
Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,
Hoje não vos venho falar da Ressurreição de Deus, mas sim da Ressuscitação da Estupidez, que acontece todos os dias no Médio Oriente, com bilhete garantido para o inferno. O evangelho segundo o Hamas e Israel começa assim: “Bem-aventurados os reféns, porque deles é o reino da chantagem.”
O Hamas guarda meia dúzia de reféns como quem guarda o Santíssimo Sacramento, trancados, escondidos, e exibidos apenas em procissão estratégica, para lembrar que o sofrimento humano é uma ferramenta negocial. Libertá-los? Deus nos livre! Perderiam o único capital que lhes resta, a vida dos outros.
Do outro lado, Israel responde com zelo bíblico, pois se o inimigo esconde uma pedra, arrasa-se a montanha inteira. É o Velho Testamento na prática, olho por olho, prédio por prédio, criança por criança. Netanyahu lê as Escrituras de trás para a frente e interpreta o Apocalipse como se fosse um manual de governança.
E assim os palestinianos morrem, não por serem mártires, mas por serem moeda de troca. São hóstias humanas, consagradas no altar da estupidez militar e do fanatismo político. Enquanto isso, os líderes do Hamas sorriem nos túneis, e os ministros israelitas brindam nos bunkers. No fim, quem paga a conta? Sempre os mesmos, os que não votaram nem em Deus nem no Diabo, mas vivem debaixo da ira dos dois.
E vós, irmãos, que assistis pela televisão, fazeis a vossa penitência com um post no Instagram e uma lágrima de crocodilo. “Chorem pela Paz”, rezam os teclados, enquanto a realidade se ri da oração digital.
E assim vos digo: quando tocarem as trombetas do juízo final, não esperem anjos nem milagres, sobrará apenas silêncio, porque todos os inocentes já terão partido, e os culpados continuarão vivos, preparando a próxima guerra, o próximo sermão, e o próximo minuto de silêncio.
Ámen.
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Barrabás e o Oráculo do Fim do Mundo
A ex-presidente da Lituânia, na televisão portuguesa, ofereceu-nos um sermão digno do Apocalipse segundo São João, mas em versão low cost báltica. Foi mais ou menos isto: “Ou seguimos os EUA até ao abismo, ou Putin devora-nos ao pequeno-almoço.” Simples, direto, e sem espaço para raciocínio intermédio.
O problema é que, por trás da teatralidade da senhora, esconde-se uma verdade desconfortável, a Europa tornou-se palco de um duelo onde não tem voz, apenas eco. Os EUA e a China disputam o trono global como dois gladiadores bem alimentados, e nós, europeus, ficamos reduzidos a figurantes que varrem o sangue da arena.
Os Estados Unidos vivem da indústria da guerra, onde cada tanque europeu comprado, cada míssil instalado, cada base americana expandida no Velho Continente é mais um contrato assinado em Washington e mais um sinal de que a União Europeia não passa de um apêndice estratégico da NATO, subjugada aos EUA. Para os EUA, a Europa deve ser forte…, mas nunca demasiado. Deve resistir à Rússia…, mas sempre com armas compradas e controladas em solo americano. Deve erguer-se como bastião da democracia…, mas sem autonomia política que contrarie o guião de Hollywood pretendido por Donald, não o pato, mas Trump.
Do outro lado, a China observa com aquele sorriso de porcelana que só os mandarins sabem cultivar. Pequim não precisa de intervir, basta-lhe esperar que os europeus, guiados pelos seus arautos do pânico, se esgotem em guerras, sanções e histerias. Enquanto isso, a China compra empresas estratégicas, assegura rotas comerciais, cimenta a sua influência, em África e na Ásia Central e prepara-se para herdar um continente europeu enfraquecido, endividado e dependente.
No meio, a Rússia, que a ex-presidente lituana pintou como dragão apocalíptico, serve de desculpa perfeita. Para os EUA, Moscovo é o espantalho que justifica o rearmamento europeu, já para a China, é um aliado de conveniência que acelera a decadência do Ocidente. Para a Europa, é sobretudo um trauma histórico transformado em prisão mental, que impede qualquer visão estratégica independente.
E assim chegamos ao cerne da entrevista: não foi apenas uma ex-líder báltica a falar, foi a voz de uma Europa assustada, provinciana, que repete mantras de Washington e acredita que a salvação virá de mais tropas americanas estacionadas no quintal europeu. Foi a prova de que o Velho Continente perdeu a capacidade de pensar o mundo como sujeito político, reduzindo-se a um paciente em estado terminal, à espera que os médicos, americano e chinês, decidam se lhe querem prolongar a vida ou se desliguem da máquina.
E Barrabás, que não tem paciência para rosários diplomáticos, traduz a coisa sem rodeios, e se tivesse de resumir esta entrevista, diria que foi um espetáculo de ventriloquia geopolítica, a ex-presidente mexia a boca, mas quem falava eram Washington e Pequim, um a vender armas, o outro a vender paciência, enquanto a Europa, coitada, pagava a conta e aplaudia o próprio funeral.
Os EUA querem uma Europa forte o suficiente para servir de escudo, mas fraca demais para competir e suficientemente viva para morrer por eles.
A China quer uma Europa dividida, cansada e dependente, para depois recolher os frutos e para ser ressuscitada ao seu estilo.
E a Europa quer… aparecer no elenco a fazer discursos dramáticos, como se isso a salvasse do colapso, como se fosse uma peça de teatro comunitário
A entrevista foi, portanto, uma parábola cruel, onde a Europa aparece como órfã voluntária, a mendigar proteção ao padrasto americano e ao mesmo tempo a temer o olhar penetrante do vizinho chinês. Uma espécie de adolescente inseguro que, para se afirmar, precisa sempre de alguém que lhe diga como se deve vestir e com quem pode sair de casa.
É esta a tragédia, a ex-presidente da Lituânia pensa que falava de Putin, mas na verdade estava a anunciar o epitáfio europeu, "Aqui jaz um continente que preferiu ser vassalo do medo a senhor do seu destino".
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Barreiro, Capital Mundial da Mediocridade Visionária
O Barreiro, meus senhores, atravessou de 2017 a 2025 um período tão brilhante, tão resplandecente, que merecia ser estudado em Harvard, Cambridge e, sobretudo, no Café Tico-tico, onde se decide muito mais do que nas assembleias municipais. Não foi apenas uma governação, foi uma epopeia de apresentações, um poema de rotundas, um romance de outdoors e uma sinfonia de eventos culturais cujo maior legado é a memória de cartazes gastos ao sol.
Entre 2017 e 2025, o Barreiro também aperfeiçoou a arte da adjudicação. Houve contratos para tudo: assessorias de comunicação, estudos de impacto que nunca impactaram nada, consultorias sobre a vocação turística do Barreiro e chegou à conclusão que não tem, e claro, a habitual pintura de paredes, que funciona como maquilhagem para cadáver.
A Câmara Municipal do Barreiro demonstrou, com um rigor científico digno da NASA, como é possível fazer muito barulho sem mexer uma pedra. Obras? Sim, claro, obras de teatro, obras de comunicação, obras de ilusionismo urbano, ou seja, obras sem fim. O executivo conseguiu elevar a arte de não governar a um patamar onde já não se distingue a incompetência da performance artística. Quem precisa de resultados quando se tem promessas? Quem precisa de planeamento urbano quando se tem drones a filmar inaugurações?
E que dizer do Milagre da Requalificação Perpétua?
Durante oito anos, o Barreiro viveu sob o milagre da “requalificação perpétua”, onde tudo começa, nada acaba, mas a cidade fica sempre “em obra”. É o urbanismo quântico, simultaneamente existe e não existe. O metro Sul do Tejo chega? Não, mas a promessa chega sempre, todos os anos, de gravata nova e sorrisos de catálogo.
As avenidas foram decoradas com buracos que se tornaram parte do património imaterial. Os passeios, uma espécie de percurso radical que atrai turistas invisíveis, os quais foram cuidadosamente mantidos para estimular a criatividade pedonal. E quem se queixa do trânsito nunca entendeu que a fila interminável é, na verdade, uma instalação artística, uma performance coletiva onde todos participamos sem querer.
A Cultura transformada, como se de uma Arma de Distração Massiva se tratasse, mas não fiquemos apenas pelas pedras. No domínio da cultura, o Barreiro foi consagrado como o Dubai da banha da cobra. Festivais, iniciativas, galas, conferências, todos com nomes tão épicos que até pareciam desenhados para candidaturas ao Nobel do Fingimento. O executivo descobriu que a cultura não é para transformar mentalidades, mas para garantir boas fotografias no jornal local camarário.
Foi também um laboratório de sociologia: provaram que, se se oferecer cerveja e música gratuita, a população esquece-se que a cidade fede a abandono. O Barreiro virou-se para a cultura como quem se vira para o karaoke ao fim da noite, ébrio, desafinado, mas com muito entusiasmo.
E a Economia, sempre na expectativa, entre 2017 a 2025, prosperou… no papel. Grandes projetos, investidores mirabolantes, anúncios em cascatas de promessas, reinventadas ao turismo de luxo. Foi um espetáculo de prestidigitação política, onde a cada promessa falhada, vinha logo outra mais colorida, como palhaços a saírem de um Fiat 600.
O segredo estava na economia da expectativa, porque não se produz riqueza, produz-se esperança, não se criam empregos, criam-se apresentações, e a cada conferência de imprensa, o executivo fazia questão de demonstrar que o Barreiro era a “porta de entrada para o futuro”, esqueceram-se foi do detalhe, é que a porta nunca se abriu.
Assim, o período de 2017 a 2025 ficará para sempre como a época dourada da política municipal, "A Santa Trindade Barreirense", dourada, não porque brilhe, mas porque está coberta com aquele spray barato que se usa em presépios de escola. Com isto, o Barreiro aprendeu, à custa de tanta promessa, três lições fundamentais:
A realidade é irrelevante.
O anúncio vale mais do que a obra.
O futuro é sempre amanhã e o amanhã nunca chega.
E agora, "O Legado de Ouro para 2026"; caros barreirenses, respirem fundo, porque tudo isto não foi o fim, foi apenas o prelúdio. O executivo prepara-se para 2026 com ainda mais promessas, mais inaugurações de placas, mais discursos visionários. Se até agora conseguimos oito anos a caminhar para lugar nenhum, imaginem o esplendor que nos espera na próxima década!
O Barreiro de 2026 em diante será, seguramente, uma capital mundial. Não sabemos de quê, talvez da frustração, talvez do turismo arqueológico de rotundas, talvez da arte contemporânea do buraco. Mas uma coisa é certa, este executivo mostrou-nos que a verdadeira governação não está em mudar o presente, mas em adiar o futuro.
Portanto, a partir de 2026, preparem-se porque vai ser tudo ainda melhor, ou pior, ou igual. Mas uma coisa é certa, haverá sempre uma fita para cortar, um post para partilhar e uma população que, entre resignada e divertida, continua a aplaudir o espetáculo grotesco da sua própria cidade em modo “stand-up” governativo.
O executivo da Câmara Municipal do Barreiro, liderado pelo sempre disponível e nunca ausente Frederico Rosa, conseguiu em oito anos o que muitos julgavam impossível: transformar o concelho na Disneyland da Inércia, com direito a foguetório, selfies e placas inauguradas de obras que ainda hoje cheiram a betão fresco… porque nunca secaram.
Assim se construiu o legado do executivo de 2017 a 2025, um Barreiro que é tudo… menos aquilo que podia ser. Uma cidade que vive da promessa, da propaganda e da pose. Uma cidade que já não tem memória do passado industrial, nem coragem para inventar um futuro decente.
O Barreiro não é apenas um concelho, é uma metáfora, um lugar onde a esperança é eterna e o progresso é sempre amanhã.
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