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Barrabás - o Barba Azul

Barrabás - o Barba Azul

O Dia Seguinte às Autárquicas 2025

Crónicas Camarras

Barba Azul, 13.10.25

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O Dia Seguinte às Autárquicas 2025

Crónicas de um Barreiro, feito em loop, aos olhos de Barrabás
 
E agora, barreirenses, respirem fundo, o dia seguinte espera-vos, ainda em convalescença, depois de mais um acto de cidadania, entre muitos mais que hão-de vir, onde os eleitores começam a sentir-se outsiders num conto de fadas, porque o espetáculo já acabou, mas o cheiro a pipocas queimadas ainda paira no ar. O dia seguinte chegou, esse famoso personagem secundário que aparece sempre depois das eleições, com cara de ressaca democrática e hálito a promessas por cumprir. Ainda de pulseira hospitalar, o eleitor sai da urna como quem sai de uma cirurgia mal sucedida, sobreviveu, mas não sabe bem para quê.
 
Dizem que foi um acto de cidadania, eu diria antes um ritual de masoquismo cívico, um daqueles em que o povo vai de livre vontade entregar-se ao mesmo ciclo de sofrimento, convencido de que “desta vez é que vai ser diferente”. E é, claro, é diferente porque está tudo igual, mas com novo slogan e cartaz mais apropriado. O Barreiro acorda com a sensação de déjà-vu, como se "O Dia do Juízo", tivesse sido filmado no Largo do Mercado 1º de Maio, com elenco local e orçamento de uma união de freguesias.
 
Os eleitores, coitados, começam a sentir-se personagens secundárias de um conto de fadas burocrático, desses que deviam ser infantis, mas acabam em terapia de grupo. Os príncipes? Continuam presos no trânsito das promessas, os vilões? Fizeram um acordo de governação e as fadas madrinhas? Agora emitem recibos verdes e cobram IVA, porque até o pó mágico está sujeito à taxa intermédia.
 
O castelo municipal, esse monumento à paciência popular, segue em obras, desde o tempo em que a utopia ainda pagava IMI. Cada legislatura muda o tipo de andaime, o contrato de empreitada e o logotipo da placa “A Câmara Municipal investe em si”, mas o resultado é sempre o mesmo, pó, barulho e inaugurações sem inaugurações, cerimónias em que se corta a fita do nada, com tesouras douradas de faz-de-conta. Há discursos inflamados sobre o futuro, selfies junto ao entulho e promessas de “nova centralidade urbana”, mas o que permanece central é o caos. O castelo, coitado, continua a cair aos bocados, não pela idade, mas pelo excesso de planos estratégicos e powerpoints mal renderizados. No fim, só muda o folheto, o patrocinador e o presidente que jura, entre aplausos fatigados, que desta vez é que é.
 
O povo, paciente como um santo em lista de espera do SNS, continua à espera do “final feliz”, só que, no Barreiro, o final feliz é como a ligação fluvial a horas, uma lenda urbana contada de geração em geração.
 
E a moral da história? Sempre a mesma, com letra miúda e ironia incluída, pois quem acredita em milagres municipais acaba, inevitavelmente, a pagar o parque de estacionamento da própria desilusão. E paga caro, porque aqui, até a esperança é tarifada à hora.
 
Mas não desesperem, barreirenses, o espetáculo voltará daqui a quatro anos, com o mesmo argumento, novos figurantes e o público fiel de sempre. E enquanto esperam pelo "encore" da democracia local, podem sempre consolar-se com o refrão eterno: “Pior era se não houvesse eleições.”
 
Sim, pior era, mas, sinceramente, às vezes dá vontade de experimentar.
 
E é aqui, neste palco de promessas recicladas e esperanças com prazo de validade, que eu, Barrabás, o cronista involuntário da desgraça alheia e patrono dos cínicos, ergo a minha pena como quem levanta uma espada enferrujada. Que fique escrito, para memória futura e esquecimento breve, "Estarei atento!."
 
Atento, sim, agora mais do que nunca, ao verbo prometido, ao verbo adiado, ao verbo que se conjuga sempre no futuro e nunca no presente. Estarei à espreita nas actas, nas actas das actas, e nas conferências de imprensa e "Reels", onde se confunde progresso com apresentações de PowerPoint.
 
Porque quando os príncipes tropeçarem nos seus próprios decretos, quando as fadas ficarem sem pó mágico e começarem a vender esperança por medida, quando os vilões se declararem independentes “por amor à cidade”, lá estarei eu, Barrabás, sentado na plateia, a aplaudir de pé o colapso moral com sarcasmo messiânico.
 
E se o milagre municipal acontecer, se o Barreiro, contra todas as profecias, se erguer das cinzas administrativas e florescer em transparência e decência, prometo escrever o impossível, um elogio. Mas até lá, mantenho-me atento e fiel à minha função, rir e chorar, enquanto o palco arde em promessas inflamáveis e discursos reciclados. Rir e chorar, sim, como quem assiste a uma tragédia grega adaptada por uma junta de freguesia com ambições na Broadway, porque o riso, neste teatro autárquico, é o último escudo contra a loucura, e as lágrimas são apenas a humidade natural de quem ainda teima em acreditar. Até lá, que toquem os violinos da ironia, porque o navio municipal continua a navegar, direito ao iceberg da incompetência, com o maestro a jurar que é tudo parte do plano.
 
Porque, no fundo, alguém tem de acender o fósforo e manter a vela da esperança acesa.

Barreiro Autárquicas 2025

Edição Camarra

Barba Azul, 13.10.25

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Barreiro Autárquicas 2025

Louvor aos Iluminados e Misericórdia aos Omissos
 
Há cidades que fazem história, outras, fazem figura e depois há o Barreiro, onde o milagre eleitoral se tornou uma arte performativa, e o povo, esse figurante coletivo de infinita paciência, decidiu oferecer mais quatro anos de espetáculo aos mesmos actores, só que desta vez sem pipocas, sem enredo e, claro, sem intervalo.
 
Contra as vozes da rua, que ecoavam o desalento nas esquinas e nos cafés, prevaleceu a velha liturgia da acomodação. O eleitor barreirense, esse Santo Inácio do Tejo, ajoelhou-se diante da urna e rezou: “Senhor, livrai-me da mudança, que eu já me habituei à desgraça.” Porque no Barreiro, mudar é quase obsceno; é olhar para a rotunda e pensar que talvez ela não precise de ser inaugurada outra vez.
 
As vozes que se indignavam, que reclamavam das obras eternas, dos bairros esquecidos, do abandono cultural e das promessas recicladas, foram engolidas pelo mais português dos sentimentos, o “deixa andar e sempre foi assim, porque haveria de ser agora diferente”. E foi assim que, com um voto aqui, outro ali, o mesmo guião teve luz verde para a sequela, o filme continua e o povo, esse público resiliente, continua a pagar bilhete.
 
A Câmara, triunfante, anuncia o sucesso como se tivesse sido nomeada para os Globos de Ouro da Gestão Pública, conferências de imprensa, sorrisos de catálogo e promessas em modo “copy-paste”. O argumento é o mesmo de sempre, “O Barreiro está melhor.” Claro que está, sobretudo para quem lá trabalha, dirige ou contrata. Já para o resto, o Barreiro é uma produção em câmara lenta, patrocinada pela esperança adiada.
 
Os críticos, esses chatos de sempre, falam em estagnação, clientelismo e falta de visão, mas, convenhamos, quem precisa de visão quando já se decorou o guião? O novo mandato promete ser uma trilogia de déjà-vus, mais requalificações daquilo que foi requalificado, mais promessas de futuro nas áreas onde o passado ainda não foi resolvido, e mais selfies em frente a cartazes onde se lê “O Barreiro está em transformação”, há 40 anos..
 
Entretanto, o eleitor, agora espectador de luxo da própria resignação, comenta no café: “Ao menos não piora.” E não há frase mais trágica do que essa, porque quando o povo já não espera progresso, mas apenas a ausência de catástrofe, é sinal de que a política venceu e a cidadania perdeu.
 
A ironia suprema é que os mesmos que gritavam nas redes sociais “basta de mais do mesmo!” foram os que, em silêncio, carimbaram a continuidade. Chamam-lhe estabilidade, é u chamo-lhe anestesia. O Barreiro é hoje uma espécie de parque temático da inércia, onde a emoção é opcional e o conformismo é obrigatório.
 
E assim, entre promessas de regeneração e discursos de vitória dignos de um musical distópico, os eleitores voltaram a entregar a chave do município aos mesmos protagonistas. Aplaudiram, é certo, mas já sem entusiasmo, sem pipocas, e com aquele ar de quem sabe que o final feliz foi cortado na montagem.
 
O Barreiro não vive nenhuma tragédia, vive mais uma tragicomédia repetida até à exaustão, onde o público já deixou de rir. E quando o povo se habitua ao espetáculo da própria mediocridade, já nem precisa de censura, basta-lhe o conforto da apatia. A cidade continua, como sempre, em obras. Só o futuro é que ficou em ruínas.
 
Os meus parabéns, pois, aos vencedores, esses magos da continuidade, alquimistas da retórica, que transformaram a fadiga em vitória e a resignação em maioria absoluta. Conseguiram o milagre de convencer um povo cansado de tudo a continuar exatamente com tudo igual. É preciso talento, paciência e uma certa perversidade poética para transformar a rotina em esperança, o tédio em estabilidade e a apatia em triunfo. Bravo, senhores. Bravo.
 
O vosso mérito é inequívoco: prometeram muito, cumpriram menos, mas ainda assim conquistaram mais quatro anos. São os verdadeiros artistas da gestão emocional, sabem que o eleitor português não quer ser surpreendido, quer apenas ser embalado. E vós, com a doçura de um berço político, souberam embalar até ao sono profundo da indiferença cívica.
 
Quanto aos vencidos… silêncio. Fica-vos melhor o luto do que o protesto.l, porque a verdade, essa criatura ingrata que todos fingem não ver, é que nada fizeram para merecer a confiança dos cidadãos. Passaram quatro anos a contar as falhas dos outros, esquecendo-se de mostrar que sabiam fazer melhor. Foram sombras em plenário, ecos em comissões, e fantasmas nos bairros que juravam representar. Queriam mudar o filme, mas provaram que não estavam à altura para escrever um guião.
 
E assim, entre os que governam por hábito e os que se opõem por desespero, o Barreiro renova o seu destino de tragicomédia suburbana, uma cidade que sonha ser moderna, mas acorda sempre no século passado. O povo, esse espectador de vocação, voltou a aplaudir, não por fé, mas por falta de alternativa.
 
E assim termina mais um episódio, na vida desta cidade, onde o único consenso é que o caos é a nova ordem, e a única coisa que realmente progrediu foi a nossa capacidade de fingir que ficámos surpreendidos com o inevitável desastre.
 
 
Os vencedores erguem o troféu da continuidade, os vencidos ensaiam desculpas num camarim vazio e Barrabás, sentado na última fila, acende um charuto e murmura com o sorriso de quem já viu tudo:
 
“No Barreiro, o inferno não é a punição.
É a reeleição.”

O Evangelho Segundo Barrabás

Edição Bíblica

Barba Azul, 10.10.25

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André Pinotes Batista, a Ressurreição Televisiva do Socialismo
 
Por que Barrabás apoia André Pinotes, à liderança do PS.
 
Irmãos e irmãs do cinismo redentor, o novo profeta da telegenia política, André Pinotes Batista, o homem que nasceu para falar, mesmo quando ninguém lhe perguntou nada. É o comentador que comenta o comentário, o opinador opinativo, o especialista em tudo e mais um par de botas, incluindo as que calça para aparecer em direto.
 
Se os socialistas se sentirem adormecidos, como Barrabás se sente, acompanhem o seu miserável raciocínio. Como já referi, num artigo anterior, nada melhor do que apoiarmos alguém, que, como a Coca-Cola política, tem muito gás, muito açúcar e uma energia tão artificial que até brilha no escuro.
 
Pinotes não dorme, hiberna entre debates, vive em estúdios, alimenta-se de luz de ring light e respira através dos microfones da NOW ou outro qualquer canal. É aquele socialista que, se o país fosse atingido por um terramoto, apareceria três minutos depois a explicar o que correu mal com as placas tectónicas, sempre com o sorriso confiante de quem sabe o número do epicentro.
 
Há quem o veja como um talento emergente, e há quem o veja como o produto acabado da era do comentário, uma mistura explosiva de ambição com maquilhagem. Em Pinotes, o PS encontrou o seu influencer institucional, fala de política como quem faz publicidade a uma nova aplicação bancária, com entusiasmo estudado e voz de podcast motivacional.
 
Como Virtudes, reconheço-lhe;
Eloquência, energia, e uma rara capacidade de parecer inteligente, mesmo quando não está a dizer nada.
 
Como Vícios, narcisismo telegénico, oportunismo estratégico e uma propensão quase evangélica para se ver como a nova geração, ainda que a geração não tenha pedido para nascer.
 
Pinotes, o Irrequieto, o Imprevisível e o Ambicioso, é um Macron em versão soft, com uma pitada de talk-show. Quer ser o rosto do “PS moderno, urbano e dialogante” que acredita num partido que ainda fala de igualdade social, mas já em linguagem e versão de marketing digital.
 
Ele encarna o novo socialismo líquido, aquele que se molda ao formato do ecrã e mede o impacto das ideias pela quantidade de partilhas no Instagram.
 
Imprevisível? Sem dúvida. Tanto pode estar a citar Rosa Luxemburgo como a elogiar o sentido de gestão de um banqueiro. É o político-camaleão, que muda de cor conforme o cenário, mas nunca larga o sorriso nem o penteado.
 
Ambicioso? Mais do que isso: Pinotes não quer apenas liderar o PS, quer narrar a própria ascensão em direto. Um homem que se olha ao espelho e pensa: “este país precisa de um primeiro-ministro que saiba usar bem o teleponto”.
 
O milagre do protagonismo de Pinotes é simples: enquanto os outros discutem nas reuniões do partido, ele aparece em horário nobre. Enquanto Carneiro tenta unir o PS, Pinotes já uniu a televisão à política. É a fusão perfeita entre o soundbite e a selfie.
 
Nos bastidores do Largo do Rato, uns chamam-lhe “o pupilo das luzes”. Outros, mais maldosos, dizem que ele é o único político português que teria prazer em debater com o seu reflexo. Mas o facto é que o nome dele já está nas bocas do partido e nos ouvidos dos telespectadores.
 
E, no socialismo moderno, quem aparece mais vezes no ecrã vale mais do que quem aparece nas urnas.
 
Imaginem o cenário: depois da derrota nas próximas autárquicas e da crise de fé em José Luís Carneiro, surge Pinotes, de sorriso impecável, frase pronta e currículo televisivo consolidado, a propor “um PS renovado, mais próximo das pessoas, mais comunicativo, mais direto”.
 
Traduzindo, por miúdos, um PS com menos ideologia e mais branding.
 
O país, cansado de gestores e monges, poderia até cair no feitiço. Afinal, em tempos de TikTok, um líder que fala bem, pisca o olho e diz frases curtas, tem mais hipóteses do que um que lê dossiês.
 
E se há coisa que Pinotes domina, é o espetáculo. Ele percebeu o que muitos políticos ainda não perceberam nem decifraram: em Portugal, a política é uma novela sem guião e quem domina o tempo de antena ganha o episódio seguinte.
 
Pinotes é o sinal dos tempos, a política transformada em talk show, o partido reduzido a painel de opinião, e o líder escolhido não pelo que pensa, mas pelo que projeta.
 
No fundo, o PS de amanhã pode vir a escolher entre três caminhos:
 
O chá morno da serenidade (Carneiro),
O café amargo da convicção (Pedro Nuno),
A água morna (Medina),
ou a Coca-Cola efervescente do espetáculo (Pinotes).
 
E, conhecendo os apetites do eleitorado socialista e a gula da comunicação social, arrisco dizer que, o futuro socialista, pode bem vir com gás e palhinha.
 
Porque, sejamos honestos, num país que já confunde governo com programa de entretenimento, Barrabás vos diz: Pinotes Batista é o líder que o PS merece... e a televisão já o escolheu.

O FUTURO DO PS EM MANIFESTO

Edição Camarra

Barba Azul, 27.09.25

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O FUTURO DO PS EM MANIFESTO
Por Barrabás
 
Há já algum tempo, num comentário feito no blog do Barrabás, alguém o desafiava para uma reflexão acerca do futuro do PS, ou se estava irreversivelmente ancorado à direita?
Com base nesse desafio, Barrabás vai dizer de sua justiça, através deste simples manifesto, mas de boa vontade.
 
O Partido Socialista está como aquele amigo que jura, todos os anos, que vai deixar de fumar, faz um discurso bonito na passagem do ano, emociona toda a família, promete que “agora é de vez” e no dia seguinte, está à porta do café com o maço de tabaco no bolso. Vive de memórias de Mário Soares a enfrentar generais, de Guterres a prometer paixão pela educação, de Sócrates a vender modernidade, mas no presente, oferece-nos apenas uma sucessão de congressos com claques animadas, nomeações para gabinetes e um punhado de promessas que parecem um copy-paste do ano anterior.
 
António Costa largou o volante no meio da A2 e foi à vida dele. Pedro Nuno Santos chegou de peito cheio, prometeu virar a página da austeridade e acabou a virar apenas a página do Diário da República, para confirmar que as nomeações estavam em dia. José Luís Carneiro fala de moderação e Marta Temido de credibilidade, mas o país já não quer adjetivos, quer soluções.
 
E se olharmos para o Barreiro, o laboratório socialista — a história repete-se: obras lançadas à pressa na zona da Santinha em ano eleitoral, o centro da cidade aberto em trincheiras como se fosse cenário de guerra urbana, escolas em obras com os alunos já nas salas, habitação social eternamente prometida mas ainda perdida nos PowerPoints da câmara. Frederico Rosa inaugura, corta fitas, tira selfies, mas o Barreiro continua a ser o Barreiro: mais cafés hipster, menos estacionamento e a eterna promessa de “Lisboa da Margem Sul” que só existe nos cartazes de campanha.
 
E é aqui que Barrabás fala com franqueza: o maior perigo do PS não é a direita, não é Ventura, não é a abstenção, é o conforto, esse conforto anestesiante de quem acha que o eleitorado é um cliente fiel e que o país não tem outra escolha senão aturá-los.
 
Um PS que só gere fundos do PRR e adjudica obras de última hora não é um partido, é uma Junta de Freguesia XXL. Um PS que tem medo de desagradar, que prefere consensos mornos a decisões corajosas, é um PS que corre o risco de se transformar num clube de memórias, reunindo-se apenas para recordar vitórias passadas enquanto o país se afunda no presente.
 
Por isso, Barrabás apresenta o seu Manifesto ao PS, sete passos para salvar a alma socialista, ou para lhe dar um funeral digno se nada for feito:
 
Chega de tentar agradar a todos, porque um partido que não desagrada a ninguém, é um partido inútil. É hora de enfrentar lóbis, interesses instalados e até os seus próprios barões distritais. Será melhor perder votos por convicção, do que ganhá-los com promessas impossíveis.
 
Menos congressos com slogans e mais praças com causas, os militantes que se habituem a sair do ar condicionado e venham para as ruas, falar com professores em greve, médicos em burnout e jovens que só pensam em emigrar.
 
Reformas estruturais na habitação, na justiça, na saúde, custam votos, mas valem o país. O PS precisa de voltar a ser o partido que mexe onde dói e não apenas o partido que gere o que já existe.
 
Chega da dança de cadeiras entre câmaras, empresas públicas e gabinetes, é necessário premiar a meritocracia e a transparência têm de voltar a ser bandeira, ou então, mais vale transformar o Largo do Rato num cowork de startups.
 
É preciso voltar a falar de valores, de ideais, de futuro. Os cidadãos estão fartos de soundbites e mensagens nas redes sociais, preferindo o regresso à política com P grande.
 
Chega de governar só para Lisboa e Porto, preocupando-se apenas com as grandes áreas metropolitanas. O Barreiro precisa de investimento real, não de marketing e o interior precisa de vida, não de promessas em tempos de campanha.
 
Ganhar eleições a todo o custo mata partidos, perder com coragem, para preparar o futuro, é o que salva os movimentos políticos.
 
Se o PS seguir estes passos, ainda tem futuro, mas se continuar nesta gestão, tipo condomínio, será apenas mais um cadáver político, seguindo os passos do PCP, que os portugueses enterrarão sem lágrimas e talvez até com algum alívio.
 
Mas Barrabás, mesmo cínico, é um optimista, porque acredita que o PS pode renascer, que pode voltar a ser motor de mudança e que pode recuperar a alma reformista que um dia já teve, mas precisa de muita coragem para arriscar, de humildade para reconhecer erros e de ousadia para mexer onde dói, porque o país já está à espera, há muito tempo, e a paciência não é eterna.
 
Nota final: Este manifesto não é um epitáfio, é um convite. Um desafio para que o PS volte a ser mais do que uma máquina de poder, para que volte a ser um partido de ideias, de causas e de futuro. Se não o fizer, Barrabás estará lá para escrever a crónica do seu funeral político.

Barreiro do orgulho desportivo à promiscuidade privada

Edição Camarra

Barba Azul, 25.09.25

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O Barreiro! Cidade que já foi berço de talentos que encheram de glória o desporto nacional, agora reduzida a um palco de promiscuidade entre público e privado, onde o interesse coletivo se submete ao lucro de alguns. O que antes eram clubes como Galitos, Fabril, Barreirense e Luso, exemplos de identidade e orgulho comunitário, transformou-se numa sucessão de cedências de terrenos, alienações e negócios fechados à porta fechada, enquanto os cidadãos e atletas se tornam meros figurantes.

O Complexo Desportivo Supera Barreiro, o triunfo do privado sobre o público, inaugurado na freguesia de Santo André, é o símbolo mais recente desta lógica perversa. Investimento anunciado de 10 milhões de euros, piscina climatizada, ginásio, spa e apenas 50 empregos, como chamariz e visibilidade máxima. O terreno pertencia ao Galitos Futebol Clube, mas em 2021 a Câmara Municipal cedeu-o ao clube para depois ser entregue à rede privada Supera. Valores, condições, contrapartidas? Um segredo bem guardado, tudo ao sabor do interesse privado.
 
E o Galitos? Continua a depender do Pavilhão Luís de Carvalho para as suas modalidades, ou seja, cedeu o que era seu, entregou ao privado e perdeu autonomia. E como se não bastasse, o presidente do clube, à data da cedência, tornar-se-ia vereador nas listas do PS à Câmara Municipal. Coincidência ou cálculo político? Milagre eleitoral ou convicções nubladas? Quem paga impostos espera retorno, mas o que recebe é lucro alheio.
 
A Câmara Municipal do Barreiro tem-se comportado como facilitadora desta lógica, rendida a uma promiscuidade institucional, com o público ao serviço do privado, sem regras claras, sem transparência, sem fiscalização. Terrenos públicos cedidos a preço simbólico, ginásios de luxo a erguer-se, piscinas climatizadas a brilhar e contratos fechados sem debate público. O que era para servir a comunidade transforma-se em lucro privado. O investimento comunitário desaparece entre fotos de inauguração, discursos de “benefício social” e promessas que se evaporam no ar.
 
O declínio da comunidade desportiva do Barreiro, que formou talentos como Vítor Domingos, Leonel, José Augusto, Chalana, Mike Plowden e Minhava, sem desprimor para tantos outros, hoje, vê o seu tecido desportivo reduzido à insignificância.
 
O Fabril através de terrenos sonegados, mais uma vez pelo privado, incapaz de contrariar e assegurar os seus direitos, completamente desprezados pela autarquia, ao permitir a alienação de um bem patrimonial de direito, mais que não fosse pelo legado industrial da ex-CUF.
 
O Barreirense, com áreas do direito público empacotadas e entregues a privados, com perda de identidade e redução drástica das suas capacidades desportivas, ficando dependente de soluções alheias para continuar a existir.
 
O Luso, alienação total de terrenos, deixando o clube sem condições para a prática de actividades que sempre foram factor na sua existência e apanágio desta instituição.
 
O Galitos entrega de terrenos a privados, sem soluções próprias para modalidades, dependo na mesma do Pavilhão Luís de Carvalho.
 
Os atletas do passado, que foram orgulho e referência nacional, hoje observam o que construíram ser corroído pela promiscuidade e pelo interesse privado. A cidade que formou glórias agora vê os seus clubes reduzidos a meras sombras, dependentes da boa vontade de investidores e decisões políticas opacas.
 
Deixo aqui algumas questões que se impõem ser colocadas aos candidatos para as próximas eleições de 12 de Outubro:
 
Até quando será permitido que a autarquia ceda terrenos públicos a privados, sem garantias, fiscalização ou retorno para os clubes e a comunidade?
 
Quem realmente beneficia deste modelo, os cidadãos que pagam impostos ou os privados que lucram?
 
Como proteger os interesses coletivos, o desporto e o legado histórico da cidade perante esta promiscuidade?
 
Que lições os atletas e jovens barreirenses podem retirar quando veem glórias históricas desaparecerem, substituídas por ginásios e spas privados?
 
Que mecanismos existem para proteger o desporto e o património coletivo perante esta promiscuidade institucional?
 
Será esta a normalidade que queremos perpetuar, onde o lucro privado se sobrepõe à identidade e às conquistas históricas do Barreiro?
 
Como conclusão existe um dever e uma obrigação, questionarmos-nos que futuro pretendemos, porque o Barreiro merece mais do que ser palco de promiscuidade institucional. Merece clubes fortes, atletas capazes de brilhar e cidadãos que recuperem o retorno do investimento público.
 
Terrenos cedidos, ginásios de luxo, piscinas e spas a prosperar, mas no fim de contas, a comunidade privada do que pagou, e, essa, é a hipocrisia elevada à norma.
 
O Barreiro que formou Vítor Domingos, Chalana e José Augusto, entre muitos mais, merece um futuro em que o público não seja trampolim para interesses privados, mas sim espaço de identidade, glória e desenvolvimento coletivo. É hora de exigir transparência, respeito pelo desporto, pelas instituições e pela comunidade. É hora de devolver ao Barreiro o que sempre lhe pertenceu.

A Cidade da Hipocrisia

Edição Camarra

Barba Azul, 23.09.25

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A Cidade da Hipocrisia

Lisboa, Barreiro e a Ética Seletiva

Lisboa ganhou um livro, o Barreiro ganhou vídeos épicos, e Portugal ganhou políticos especialistas em fingir ética, enquanto a ignoram com elegância de salão. Carlos Moedas publica um livro que deveria prestar contas à cidade, mas transforma-se num desfile de autopromoção, hipocrisia e opacidade institucional. A indignação explode nas colunas e nas redes, mas no Barreiro, onde Frederico Rosa faz brochuras, vídeos e mupis glorificando obras feitas, o silêncio é absoluto. André Pinotes Batista, presidente da Assembleia Municipal do Barreiro, ergue o dedo em Lisboa e aplaude em casa, com uma ética geograficamente seletiva, flexível, conveniente e descaradamente partidária.

Cada página do livro de Moedas é uma selfie institucional, cada vídeo de Frederico Rosa é um espetáculo de luz, cor e música épica. O que em Lisboa suscita críticas ferozes, da parte de André Pinotes, no Barreiro é veneração. Pinotes observa com lupa uns e com binóculos outros, como prova de que a hipocrisia não é acidente, é arte. É pregar moral e ética performativa quando convém e fechar os olhos quando o interesse próprio ou partidário está em causa. A transparência deixou de ser um princípio e tornou-se adorno: custos, recursos utilizados, meios mobilizados, desaparecem como nevoeiro artístico, visíveis apenas quando convém atacar o adversário.

Moedas e Rosa podem encher páginas e ecrãs com autopromoção, André Pinotes, que deveria ser guardião da ética, transforma-se no maior artífice da própria hipocrisia. Cada gesto, cada silêncio, cada dedo apontado apenas quando convém revela que a política se transformou num autêntico circo de máscaras, glamour e nada de substância

Enquanto isso, as prioridades reais da cidade ficam esquecidas. Lisboa gasta-se em livros de luxo, o Barreiro em vídeos épicos, e os cidadãos continuam a lidar com ruas sujas, transportes caóticos e habitação insuficiente. A ética não resolve problemas, apenas pinta cenários de aparência respeitável, onde a comunicação institucional se mistura com propaganda eleitoral, mas o juízo sobre o seu valor depende sempre da latitude e da cor partidária de quem observa. O que é crime em Lisboa é virtude no Barreiro e o que irrita, enriquece a imagem.

E é aqui que a censura à Barrabás se impõe, porque Pinotes, enquanto deputado da nação, deveria ser guardião da ética, mas revela-se autor e intérprete de um carnaval de fingimentos. Cada aplauso seletivo, cada silêncio estratégico, cada indignação geograficamente localizada expõe uma dialética apodrecida, uma vida política mística e mascarada de virtude. A autopromoção torna-se espetáculo, a hipocrisia arte e a ética apenas decoração. O resultado é um circo de máscaras e papéis brilhantes, onde os cidadãos pagam impostos e sonham com cidades onde se viva com qualidade, mas recebem brochuras, livros e vídeos como substitutos de soluções concretas.

No fim, a lição é clara e brutal, quando a política é governada por quem apenas finge ter ética, a hipocrisia torna-se obra-prima, a transparência figurativa, a moral enfeite, e a cidade inteira assiste ao espetáculo, rindo, engasgando-se, ou abanando a cabeça perante o descaramento. Quem deveria proteger princípios transforma-se, inevitavelmente, em autor da própria vaidade, e a hipocrisia torna-se num triste e lamentável legado. A cidade paga, eles sorriem, e a ética desaparece, convenientemente, em silêncio rosáceo.

Lisboa, Barreiro e toda a geografia política portuguesa, assistem ao maior espetáculo de vaidades da história recente e Barrabás sorri, triunfante, sabendo que a verdadeira cidade foi esquecida enquanto os políticos brincam com as próprias máscaras.

Hospital do Barreiro

Edição Trapalhadas

Barba Azul, 22.09.25

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Hospital do Barreiro

O Paciente Terminal que Continua a Emitir Boletins de Saúde
 
O Hospital do Barreiro é a prova viva de que em Portugal a medicina descobriu um novo milagre, manter um cadáver tecnicamente vivo enquanto se vão desligando órgãos, um a um. Obstetrícia? Fecha. Pediatria? Fecha. Cardiologia? Fecha também, que é para o coração não sofrer com tanto drama. Está tudo tão bem gerido que até as portas de urgência têm mais folgas do que um deputado em agosto.
 
Cada encerramento é apresentado como “pontual”, “temporário” e “excecional”, o que em dialeto governamental significa “habitual”, “permanente” e “inevitável”. É como dizer ao doente que está em coma “mas é reversível” e depois desligar-lhe as máquinas, para poupar eletricidade.
 
Na obstetrícia, as grávidas já são atletas de resistência: percorrem quilómetros à procura de uma maternidade aberta, numa espécie de reality show patrocinado pela Via Verde. Na pediatria, os pais já têm mais contactos de urgência em Setúbal e Almada do que na própria freguesia. E na cardiologia, a triagem é simples: se sobreviveu à viagem para outro hospital, é sinal de que não estava assim tão mal.
 
Até aqui, tudo normal no país onde as urgências são conceitos filosóficos, abrem quando podem, fecham quando querem e funcionam quando calha. Mas o que torna esta situação grotesca é que o Barreiro teve obras de milhões. Corredores a brilhar, paredes impecáveis, novos equipamentos, mas médicos e enfermeiros? Esses são espécies protegidas, em vias de extinção. É o hospital IKEA, onde o material está lá, mas quem monta é você, o utente.
 
E é aqui que entram os protagonistas locais, ou melhor, figurantes de luxo. O Presidente da Câmara do Barreiro e o da Moita limitam-se a “acompanhar com preocupação”, “exigir soluções” e fazer reuniões que mais parecem consultas de tarot, muito fumo, zero resultados. No fim tiram a selfie da praxe, colocam no Facebook e pronto, está cumprida a função política, até porque a indignação rende likes.
 
Mas os grandes ausentes-presente desta história são os deputados eleitos pelo distrito de Setúbal. Bruno Vitorino, André Pinotes e companhia têm um mandato que não é apenas para cortar fitas e aparecer em fotos sorridentes nas inaugurações. O papel deles deveria ser mais musculado:
 
Pressionar o Ministério da Saúde com perguntas parlamentares regulares e incisivas, para expor publicamente o problema.
 
Exigir planos concretos de contratação e fixação de profissionais, com incentivos salariais, progressão na carreira e condições dignas, porque ninguém fica na Margem Sul apenas por amor ao Tejo.
 
Propor medidas legislativas que tornem obrigatória a manutenção mínima de equipas em hospitais estruturantes da região, evitando o pingue-pongue de encerramentos.
 
Criar frentes comuns com autarcas e associações de utentes, para transformar cada encerramento num escândalo nacional, e não apenas numa nota de rodapé.
 
Mas em vez disso, os deputados preferem o papel confortável de comissários políticos, defendem o governo se forem da cor certa, atacam-no se forem da cor contrária, e no fim todos se juntam para cortar o bolo quando há inauguração. É a política do “seja o que Deus quiser”, que é ótima para a fé, mas péssima para a saúde pública.
 
Perguntas parlamentares concretas como:
 
“Quantos profissionais de pediatria, obstetrícia e cardiologia estão atualmente em falta no Hospital do Barreiro? Qual o plano de contratação para suprir essas falhas, e em que prazos?”
 
“Quantas vezes, nos últimos 12 meses, houve encerramentos temporários de urgências nesta unidade? Que medidas preventivas foram tomadas para evitar a repetição?”
 
Apresentar Moções urgentes na Assembleia da República:
 
“Recomendar ao Governo a criação de um programa de incentivos salariais e de carreira para fixação de médicos e enfermeiros no Hospital do Barreiro, incluindo majoração salarial para quem se mantenha em serviço por mais de três anos.”
 
“Requerer a publicação trimestral de relatórios de funcionamento do hospital, incluindo indicadores de falta de recursos humanos, tempo de espera nas urgências e número de transferências de doentes para outras unidades.”
 
Pressão política direta, com audições da Ministra da Saúde, reuniões públicas com utentes, e não apenas os encontros de corredor em Lisboa para “marcar posição”.
 
Enquanto isso, o hospital transforma-se num elefante branco reluzente, perfeito para visitas oficiais e péssimo para tratar pessoas. A população, que merecia um serviço de saúde digno, fica reduzida ao papel de figurante numa tragédia grega, grita do fundo do coro, mas ninguém lhe responde.
 
Se nada mudar, o Hospital do Barreiro será em breve um museu do SNS, com visitas guiadas, “À esquerda, a nova ala de pediatria onde nunca entrou um pediatra, à direita, o bloco de obstetrícia, agora usado para armazenar material, e ao fundo, os deputados do distrito, a cortar mais uma fita.
 
Barrabás, que sobreviveu a crucificações e a promessas eleitorais, olha para este teatro e desconfia. “Se o governo continuar a tratar o Hospital do Barreiro como uma experiência social, a próxima emergência não vai ser médica, vai ser política”, avisa ele, de sobrancelha levantada.
 
“Quando a população perceber que o hospital é um cenário de cartolina, que os deputados são figurantes e que as câmaras servem apenas para a foto, não vão pedir médicos, vão pedir cabeças e aí, meus amigos, nem o INEM vos salva.”

A última versão do software que nunca foi atualizado

Edição Camarra

Barba Azul, 21.09.25

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PCP/CDU 2025
A última versão do software que nunca foi atualizado

O Barreiro foi, durante décadas, o Vaticano do comunismo português. Hoje é apenas um museu ao ar livre, do que o PCP já foi, com entrada gratuita, porque já ninguém paga bilhete para ver.

No Barreiro, o outrora coração vermelho, bate hoje em modo SOS. Onde o partido já foi sistema operativo, mas hoje, é uma disquete de 3 ½ esquecida na gaveta, que já ninguém usa e de uma fábrica que já não existe, a apresentação dos candidatos foi menos uma festa e mais um ensaio geral para o funeral político. O drama tem causas claras: o PCP é o único partido que se recusa a atualizar o software desde 1975. Continua a funcionar em DOS enquanto o resto do mundo corre em nuvem.

No Barreiro, terra que em tempos foi capital da foice e martelo, onde o PCP enchia praças, coretos e sonhos, a apresentação dos candidatos às autárquicas de 12 de Outubro juntou pouco mais de duas dúzias de apoiantes. Duas dúzias, sim, não me estou a enganar o mesmo número de pessoas que costuma alinhar para um peddy paper qualquer, talvez menos que os próprios candidatos presentes.

Jéssica Pereira, cabeça de lista à Câmara, discursou no largo do Mercado Municipal 1° de Maio, como quem fala para a História, mas teve de se contentar com um auditório onde a História estava de férias. Nas freguesias, o panorama foi idêntico, Santo André, bastião comunista, parecia um condomínio fechado para o PCP, fechado mesmo, porque nem o porteiro apareceu. Na Verderena, o último comício encheu a esplanada do café, mas só porque estava calor e os clientes não se levantaram.

A verdade é que o PCP continua a viver num loop temporal, completamente à deriva e desnorteado. Recusa-se a fazer “update” desde a versão 1975. Está tão agarrado ao passado, que ainda desconfia da eficiência da Internet, dos micro-ondas e Airfryer. A sua agenda continua a falar de “defesa das conquistas de Abril”, mas já ninguém se lembra bem quais eram as conquistas e alguns até já venderam as casas de Abril ao preço da chuva no OLX.

O resultado é uma tragédia grega, passada no cenário industrial de um filme apocalíptico, sem fábricas para sindicalizar, sem juventude para radicalizar e sem trabalhadores para mobilizar, o partido está reduzido a uma confraria de resistentes reformados, que insiste em falar da NATO como se estivesse prestes a invadir o Barreiro. Entretanto, Putin já invadiu a Ucrânia, e nem isso bastou para o PCP atualizar o seu discurso repetitivo e descontextualizado das novas realidades, pois continua a dizer que é “um conflito complexo”, o que na prática, é usado como um código para “vamos fingir que não vimos nem acreditamos”.

No concelho, a perda de influência é tão grande que já se fala em transformar o Centro de Trabalho num museu interativo, com visitas guiadas ao “tempo em que isto enchia”. A antiga fortaleza operária está agora rodeada por cartazes de outros partidos, PS, PSD, Chega e até Livre, que conseguem meter mais gente num piquenique vegan do que o PCP numa apresentação de candidatos.

E a pergunta paira na boca dos cidadãos barreirenses, como cartaz de campanha desbotado numa parede grafitada: o que se passa com o PCP?
A resposta é cruelmente simples, passou-se o tempo e o PCP ainda não se apercebeu disso. Passaram-se as fábricas, passaram-se as lutas, passou-se a paciência de um eleitorado que queria menos dogmas e mais soluções e agora, o partido corre o risco de ser aquilo que mais teme, folclore político.

O Barreiro, que foi o coração vermelho do país, bate agora num compasso diferente e o PCP, que um dia foi motor, é hoje uma peça de museu. Uma peça que insiste em funcionar com manivela num mundo onde tudo já é digital.

O PCP precisava de um “update”, mas escolheu fazer “ignore” e como resultado, está a correr debaixo de um software há muito ultrapassado de 1975, em pleno século XXI, em 2025. E quando o sistema crashar nas urnas a 12 de Outubro, não digam que Barrabás não vos avisou.

O Tubo, o Mártir e as Bofetadas Democráticas

Edição Pugilista

Barba Azul, 21.09.25

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Coina-Palhais

O Tubo, o Mártir e as Bofetadas Democráticas
 
Há episódios que definem uma era. Para uns, é a queda do Muro de Berlim, para Coina-Palhais, é o dia em que a política local descobriu que a melhor forma de resolver desentendimentos é com recurso a material de canalização.
 
Há quem diga que a política portuguesa precisa de mais emoção. Pois bem, Coina-Palhais ouviu o apelo e decidiu transformar uma campanha eleitoral num misto de Velocidade Furiosa com UFC (Ultimate Fighting Championship).
 
O enredo é digno de uma série da Netflix. O candidato a presidente da Junta pelo PS, conduz o seu veículo, provavelmente a caminho de prometer mais uns bancos de jardim, um bebedouro ou uma passadeira que já tem barbas de esquecimento, quando um cidadão indignado, ou apenas inspirado pelo espírito cívico, decide atravessar-se à frente do carro, numa reconstituição low-cost da queda do Muro de Berlim. Seguem-se gritos, murros e bofetadas trocadas com a mesma elegância de um filme do Bud Spencer.
 
Segundo reza a crónica, tudo começou com um cidadão atrevido que ousou agredir verbalmente e, segundo o próprio candidato, até fisicamente, através da janela do carro. Aqui convém imaginar um filme de ação da Marvel, onde o cidadão entra pela janela do carro como um ninja e o candidato, numa fração de segundo, transforma-se em Jason Bourne da Margem Sul.
 
O candidato, segundo ele próprio, foi agredido e como qualquer pessoa pacífica faria, em vez de arrancar e ir à sua vida, decide avançar sobre o provocador e responder com aquilo que tinha à mão, nada mais nada menos que um tubo. Sim, senhoras e senhores, um tubo, não um panfleto, não uma citação de Aristóteles, mas um tubo, porque nesta freguesia a retórica é feita de ferro galvanizado.
 
E aqui entra a parte mais bonita, o argumento da legítima defesa. O cidadão dá-lhe uns sopapos, tudo bem, mas a resposta foi pedagógica e democrática, uma pancada com o tubo, para que ele nunca mais se esqueça. É uma espécie de lição de Educação Cívica versão medieval, olho por olho, tubo por bofetada.
 
E é então que surge a peça central desta série de canalização de boas intenções, o tubo. Sim, senhoras e senhores, o tubo milagroso, guardado religiosamente no carro, como quem carrega um terço ou uma medalhinha de Fátima, pois não há nada como termos todos um tubo à mão, por precaução, para nivelar discussões sobre orçamento participativo ou simplesmente para dar aquele toque artesanal à democracia local.
 
O candidato explica que foi em legítima defesa e nós acreditamos, porque nada melhor para “legítima defesa” como um golpe improvisado com material de canalização. Aparentemente, os cursos de autodefesa das juntas de freguesia ensinam Krav Maga, mas versão “Loja do Cidadão”, quando ameaçado, agarra o que tiver no carro e se for um tubo, melhor ainda, que é para deixar marca.
 
As reações políticas foram um espetáculo à parte. Uns apressaram-se a dizer que “não podemos tolerar violência”, outros preferiram a diplomacia do costume: “é preciso apurar os factos”, que em linguagem política significa “vamos esperar que o povo se esqueça disto e depois lançamos uma foto do candidato a plantar uma árvore para limpar a imagem”.
 
E há quem veja no candidato um mártir, um novo São Sebastião da Margem Sul, só que em vez de flechas foi alvejado com murros e bofetadas, e, ao contrário do santo, respondeu à letra, mas com o tubo. Há até quem defenda que isto é a prova de que temos um político “que não foge à luta”. Ótimo! Quer dizer que nas próximas eleições podemos substituir debates por combates de artes marciais. É a verdadeira retórica do murro, a gramática da chapada, a filosofia política da cabeçada. Rousseau e Montesquieu aplaudem de pé no além.
 
O partido, por sua vez, tenta cobrir o episódio debaixo do tapete ou enfiado no saco, mas não seria mais honesto transformar isto numa bandeira eleitoral? “Votem em nós, trazemos o tubo para a política!”, dava uma bela faixa para pendurar nos postes, até porque no país onde a corrupção raramente dá cadeia, a única consequência prática disto será talvez o tubo ir parar ao museu da Junta, ao lado das primeiras atas de freguesia.
 
Coina-Palhais conseguiu, enfim, elevar a política local a um novo patamar, o da pancadaria simbólica. O tubo entra para a história como novo brasão da freguesia, as bofetadas ficam como lição de cidadania, e o mártir-candidato segue para as urnas com mais notoriedade do que nunca. E nós, cidadãos, ficamos a pensar: e se esta moda pega? Vamos ter Assembleias Municipais à chapada e a distribuir capacetes à entrada.
 
O mais fascinante é que, apesar da violência, há quem veja nisto um acto de coragem. Finalmente um político que “não se fica”, dizem alguns. Claro, porque é isto que queremos, que os nossos autarcas sejam uma mistura de presidente de junta e Mister. T.
 
No fim, o grande vencedor é o tubo. Passa de simples pedaço de metal a símbolo da política moderna, pragmático, direto, sem rodeios e letal se necessário. A Junta de Coina-Palhais podia até adotar o tubo no brasão, substituindo a tradicional roda dentada ou espiga de milho. Afinal, é ele que simboliza a nova doutrina menos conversa, mais ação… e se possível, com impacto sonoro.
 
Coina-Palhais entra assim para a História como o primeiro território onde a democracia se defendeu à tubada. Um marco civilizacional, digno de ser estudado nas aulas de Educação Cívica, para ensinar às crianças que sim, o diálogo é importante, mas convém trazer sempre algo no carro, por via das dúvidas, porque, no fundo, é isto que a democracia precisava, menos diálogo, mas mais adrenalina.
 
A democracia em Coina-Palhais não é representativa nem participativa, é combativa.

Barreiro - A Democracia da Poltrona

Edição Camarra

Barba Azul, 15.09.25

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Barreiro - A Democracia da Poltrona

Por Barrabás, cronista de serviço e espectador privilegiado desta grande telenovela municipal.
No Barreiro, o PS governa à vontade e com toda a razão, porque a oposição mais parece estar a tirar um MBA em como não fazer ondas. PSD, CDU, BE, IL e CHEGA deviam ser agraciados com a Medalha de Ouro da Cidade pelo contributo silencioso para a estabilidade política.
 
Senão, vejamos:
Foi aprovada, em 23 de dezembro de 2024, uma alteração por adaptação ao PDM para transpor o Plano de Gestão de Risco de Inundação (PGRI RH5A) do Tejo e Ribeiras do Oeste, mudando regulamentos e a planta de ordenamento. A oposição limitou-se a ensaiar uns protestos vagos sobre “densidade urbana” e “mobilidade sustentável”, para logo a seguir se abster em bloco. Como resultado, o PS aprovou o documento praticamente sozinho, com o selo de “consenso democrático” oferecido de bandeja pelos partidos que deveriam questionar cada linha.
 
Nas obras do Polis e especialmente na saga do Largo 1º de Maio, a oposição também brilhou pela ausência. Os atrasos e derrapagens orçamentais foram tratados como se fossem chuva no Barreiro, inevitáveis. O PSD lá pediu “esclarecimentos adicionais”, que nunca chegaram, a CDU lamentou mas votou favoravelmente a revisão do contrato, o BE emitiu um post a criticar “a falta de participação popular”, a IL nem apareceu na reunião, e o CHEGA aproveitou para sugerir que se colocasse uma bandeira gigante no meio da rotunda “para devolver orgulho aos barreirenses”.
 
Quando a Câmara aprovou o aumento das taxas municipais para 2024, a oposição indignou-se… mas só no café. Na Assembleia Municipal, lá veio a abstenção de sempre, com justificações dignas de um manual: “não estamos contra, mas também não estamos a favor”. Traduzindo, não queremos desagradar a ninguém, nem ao executivo, nem aos contribuintes.
 
No Barreiro, a campanha da oposição é tão entusiasmante que parece uma sessão de espiritismo: não se vê ninguém, mas garante-se que há atividade do outro lado. PSD, CDU, BE, IL, CHEGA e até o LIVRE aparecem apenas para a fotografia e mesmo assim a contragosto, como quem foi arrastado para o almoço de família e está a contar os minutos para sair.
 
Enquanto o executivo socialista vai fazendo o que quer e o que bem entende, a oposição continua em modo “campanha de poltrona”, apostando tudo no silêncio, na esperança de que a abstenção faça o trabalho por eles. Se o contraditório fosse obra de arte, já estaria exposto no Auditório Municipal Augusto Cabrita, tão raro e tão conceptual que ninguém entende, mas todos fingem que apreciam.
 
O resultado é um concelho governado sem oposição efetiva, apenas com figurantes que compõem a fotografia de grupo da democracia. Uma espécie de reality show político, onde o PS faz, a oposição comenta em voz baixa, e no final brindam todos na inauguração da próxima obra.
E o eleitor? Esse que escolha, ou vota no PS, ou vota no nada e o nada, no Barreiro, tem sido a mais coerente das forças políticas, não promete, não cumpre, não se compromete.
 
No fundo, não venham dizer que o PS governa sozinho, porque governa com o beneplácito de uma oposição tão bem-comportada, que podia ser contratada para animar cerimónias oficiais e presenteada com a Medalha de Ouro da Cidade pelo contributo silencioso para a estabilidade política.
 
Se isto não é uma democracia de poltrona, é pelo menos uma democracia de sofá-cama.
E no meio disto tudo, Barrabás, esse cronista cínico, sabe dançar o tango e não só, ainda sapateia no velório da oposição.