Rui Rocha demite-se numa carta de amor a si próprio
Edição Trapalhadas

Prometo que vou tentar olhar para este ato digno de uma epopeia camoniana, como se estivesse particularmente maldisposto e com acesso irrestrito à ironia industrial.
Rui Rocha demitiu-se da presidência da Iniciativa Liberal. Tudo o que fiz foi pelo "partido", declarou ele, num momento de altruísmo tão profundo, que só não ofereceu também o fígado porque estava ocupado a digerir o ego.
Sim, meus senhores, este foi um ato de entrega, de renúncia, de martírio quase bíblico, é como se Jesus Cristo tivesse um LinkedIn e desse prioridade à sua “autonomia estratégica” antes de multiplicar os pães.
A carta de demissão é um verdadeiro testamento político, no sentido mais literal possível, porque é o fim de uma era e o início de uma autobiografia com pretensões a Prémio Camões em "auto-elogio performativo".
É um texto tão generoso que se fosse um postal de Natal incluiria uma fotografia do próprio Rui a abençoar a árvore com a Constituição na mão, e um saco cheio, às costas dos pobres veados .
“Durante os quase dois anos e meio (...), a Iniciativa Liberal defendeu um Portugal mais livre…” Disse!...
Mas mais livre de quê? Perguntamos. De votos, talvez, de influência política, sem dúvida, de qualquer noção de timing estratégico, com certeza.
Rui Rocha fez tudo, presidiu, discursou, posou para cartazes com um ar de quem acabou de ler metade do Adam Smith e ficou cansado, e agora despede-se por amor, como um namorado que, após trair sete vezes, diz à namorada, eu mereço coisa pior, mas fiz tudo por nós.
Não se pense que Rui sai derrotado, longe disso, sai como todos os líderes liberais que nunca lideraram nada realmente, de cabeça erguida, a olhar o horizonte, que é onde normalmente está o eleitorado que não votou neles, e anuncia com solenidade que “vai andar por aí”, o que soa perigosamente a ameaça.
Afinal, há quem ande por aí a distribuir panfletos e há quem ande por aí a distribuir ressentimento passivo-agressivo com um PowerPoint na mão.
“A visão estratégica (…) está neste momento desatualizada pelas circunstâncias.”
Traduzido do liberalgaltês para português, “Nada correu como eu queria, a culpa é das circunstâncias, e não, por amor de Deus, das decisões que tomei”.
A estratégia estava desatualizada! Claro! Como um iPhone 5 no bolso de um yuppie, talvez fosse tempo de atualizar a visão, ou pelo menos as lentes dos óculos ideológicos com que se olha o país.
“Recusámos integrar o governo em 2024…”
Isto é glorioso, é como um homem recusar ser astronauta porque a NASA não lhe ligou, e a IL recusou integrar um governo ao qual nunca foi convidada, numa espécie de fidelidade canina ao celibato involuntário.
Nunca antes se viu uma recusa tão convicta de algo que estava tão fora de alcance. É a versão partidária de “Eu nem queria ir a esse baile da escola, mas de qualquer forma… dancei”
E sim, houve vitórias, o melhor resultado de sempre nas legislativas! O que, no caso da Iniciativa Liberal, significa que agora cabem todos na mesma carruagem do Alfa Pendular, e ainda sobra espaço para a bagagem ideológica, com três panfletos, uma cópia de “A Revolta de Atlas” e uma dívida emocional a Milton Friedman.
Mas Rocha, sempre estoico, garante que não está “agarrado a nenhum lugar”, exceto, claro, ao de deputado, esse fica, é uma forma curiosa de desprendimento, abdicar do trono e ficar com a poltrona, porque um verdadeiro liberal nunca perde a oportunidade de contribuir para o país, mesmo que o país insista em não pedir ajuda.
No final, Rui Rocha “abre espaço para reflexão interna”, mas que coisa mais bonita e perspicaz, que gesto nobre, tal como um dono de restaurante que fecha portas porque ninguém entra, mas finge que é só para mudar a ementa.
Servir o partido, diz ele, com “total desprendimento”, sim, tal como um CEO que se despede, mas mantém o lugar no conselho de administração, chama-se a este ato, um desprendimento tão evidente que quase se ouve o tilintar dos botões de punho.
Senhoras e senhores, no fim, ficamos esclarecidos e conscientes, que Rui Rocha se despede, mas Liberal até ao fim, nem que seja só na retórica, e como é óbvio, “vai andar por aí”.
Fiquem descansados, já passou, e se não passou, passa, pois é só o Rui a ser Liberal para mais portugueses, e para, ele próprio, sobretudo.








