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Barrabás - o Barba Azul

Barrabás - o Barba Azul

Rui Rocha demite-se numa carta de amor a si próprio

Edição Trapalhadas

Barba Azul, 31.05.25

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Prometo que vou tentar olhar para este ato digno de uma epopeia camoniana, como se estivesse particularmente maldisposto e com acesso irrestrito à ironia industrial.

Rui Rocha demitiu-se da presidência da Iniciativa Liberal. Tudo o que fiz foi pelo "partido", declarou ele, num momento de altruísmo tão profundo, que só não ofereceu também o fígado porque estava ocupado a digerir o ego.

Sim, meus senhores, este foi um ato de entrega, de renúncia, de martírio quase bíblico, é como se Jesus Cristo tivesse um LinkedIn e desse prioridade à sua “autonomia estratégica” antes de multiplicar os pães.

A carta de demissão é um verdadeiro testamento político, no sentido mais literal possível, porque é o fim de uma era e o início de uma autobiografia com pretensões a Prémio Camões em "auto-elogio performativo".

É um texto tão generoso que se fosse um postal de Natal incluiria uma fotografia do próprio Rui a abençoar a árvore com a Constituição na mão, e um saco cheio, às costas dos pobres veados .

“Durante os quase dois anos e meio (...), a Iniciativa Liberal defendeu um Portugal mais livre…” Disse!...
Mas mais livre de quê? Perguntamos. De votos, talvez, de influência política, sem dúvida, de qualquer noção de timing estratégico, com certeza.

Rui Rocha fez tudo, presidiu, discursou, posou para cartazes com um ar de quem acabou de ler metade do Adam Smith e ficou cansado, e agora despede-se por amor, como um namorado que, após trair sete vezes, diz à namorada, eu mereço coisa pior, mas fiz tudo por nós.

Não se pense que Rui sai derrotado, longe disso, sai como todos os líderes liberais que nunca lideraram nada realmente, de cabeça erguida, a olhar o horizonte, que é onde normalmente está o eleitorado que não votou neles, e anuncia com solenidade que “vai andar por aí”, o que soa perigosamente a ameaça.

Afinal, há quem ande por aí a distribuir panfletos e há quem ande por aí a distribuir ressentimento passivo-agressivo com um PowerPoint na mão.
“A visão estratégica (…) está neste momento desatualizada pelas circunstâncias.”

Traduzido do liberalgaltês para português, “Nada correu como eu queria, a culpa é das circunstâncias, e não, por amor de Deus, das decisões que tomei”.
A estratégia estava desatualizada! Claro! Como um iPhone 5 no bolso de um yuppie, talvez fosse tempo de atualizar a visão, ou pelo menos as lentes dos óculos ideológicos com que se olha o país.

“Recusámos integrar o governo em 2024…”
Isto é glorioso, é como um homem recusar ser astronauta porque a NASA não lhe ligou, e a IL recusou integrar um governo ao qual nunca foi convidada, numa espécie de fidelidade canina ao celibato involuntário.

Nunca antes se viu uma recusa tão convicta de algo que estava tão fora de alcance. É a versão partidária de “Eu nem queria ir a esse baile da escola, mas de qualquer forma… dancei”

E sim, houve vitórias, o melhor resultado de sempre nas legislativas! O que, no caso da Iniciativa Liberal, significa que agora cabem todos na mesma carruagem do Alfa Pendular, e ainda sobra espaço para a bagagem ideológica, com três panfletos, uma cópia de “A Revolta de Atlas” e uma dívida emocional a Milton Friedman.

Mas Rocha, sempre estoico, garante que não está “agarrado a nenhum lugar”, exceto, claro, ao de deputado, esse fica, é uma forma curiosa de desprendimento, abdicar do trono e ficar com a poltrona, porque um verdadeiro liberal nunca perde a oportunidade de contribuir para o país, mesmo que o país insista em não pedir ajuda.

No final, Rui Rocha “abre espaço para reflexão interna”, mas que coisa mais bonita e perspicaz, que gesto nobre, tal como um dono de restaurante que fecha portas porque ninguém entra, mas finge que é só para mudar a ementa.

Servir o partido, diz ele, com “total desprendimento”, sim, tal como um CEO que se despede, mas mantém o lugar no conselho de administração, chama-se a este ato, um desprendimento tão evidente que quase se ouve o tilintar dos botões de punho.

Senhoras e senhores, no fim, ficamos esclarecidos e conscientes, que Rui Rocha se despede, mas Liberal até ao fim, nem que seja só na retórica, e como é óbvio, “vai andar por aí”.

Fiquem descansados, já passou, e se não passou, passa, pois é só o Rui a ser Liberal para mais portugueses, e para, ele próprio, sobretudo.

A Capital Mundial da Selfie Institucional

Edição Autárquicas

Barba Azul, 31.05.25

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Barreiro, a Capital Mundial da Selfie Institucional

No Barreiro, já não há autarcas, há influencers de proximidade. A gestão camarária atual entendeu que governar uma cidade não passa por resolver problemas, mas por parecer muito entusiasmada enquanto os cria.

As ruas esburacadas? É arte urbana interativa, o lixo acumulado, é instalação ecológica para promover a biodiversidade urbana, a ausência de políticas estruturantes, é minimalismo administrativo, porque aqui, o espetáculo é tudo, o resto é paisagem, mal iluminada mas com filtro Instagram.

A edilidade barreirense, convencida de que administra um cruzamento entre Cannes e Silicon Valley, aposta forte na cosmética digital.

Diariamente somos presenteados com vídeos, em contra-luz ao pôr do sol, posts com legendas em maiúsculas e drones que sobrevoam rotundas como se fossem património da UNESCO. A gestão está tão comprometida com o marketing que qualquer dia a Câmara muda de nome para "Agência Barreiro Influencer & Turismo, Lda."

Governa-se, portanto, como quem gere um reality show. Não há debate público, há lives no Facebook, não há projetos estruturantes, há reels com música épica e logótipos animados. O presidente e os vereadores atuam como protagonistas de um programa de variedades onde a prioridade não é a cidade, mas a sua própria performance.

Enfim, é um delírio narcisista disfarçado de dinamismo, uma espécie de TikTokcracia Municipal.

As inaugurações, por exemplo, são o grande momento de catarse política. Inaugura-se tudo, bancos de jardim, buracos tapados, placas com nomes ridículos, passadeiras pintadas, bueiros desentupidos.

Não há cerimónia que não tenha discursos, fotógrafos e, claro, um “antes e depois” partilhado com emojis. O importante não é fazer, é parecer que se fez, idealmente, com um plano de drone e um vereador a acenar de cima de um escadote.

E o que dizer das prioridades? Enquanto freguesias inteiras permanecem no esquecimento, sem acesso digno a transportes, sem equipamentos culturais, sem sequer uma sombra de planeamento urbano, a autarquia investe tempo, energia e fundos em eventos que fariam corar um canal de variedades.

Tudo em nome de uma “estratégia de proximidade” que, na prática, se resume a aparecer em todas as fotografias disponíveis, com sorrisos ensaiados e frases feitas como “estamos a construir juntos” (tradução: nós aparecemos na fotografia, vocês pagam a conta).

No campo da cultura, a política é simples: confundir quantidade com qualidade e agitação com dinamismo.

Programam-se três mil atividades por mês, desde que todas caibam numa story. Já ninguém sabe o que se faz, para quê se faz ou quem é o público-alvo, mas isso é irrelevante, porque o que importa é que pareça “muito cultural” e que o vereador da pasta possa fazer um carrossel de Instagram com cinco fotos, duas frases do Saramago e um agradecimento ao DJ da Junta.

Governar o Barreiro, hoje, é como dirigir um parque temático decadente: as atrações estão em ruínas, mas o autarca anda de microfone na lapela, animado, a gritar “divirtam-se!” para um público que só queria apanhar o autocarro a horas.

Talvez um dia, no futuro, a história julgue esta gestão à luz da sua obra. Infelizmente, a única coisa que ficará para a posteridade serão os arquivos digitais, vídeos de políticos a bater palmas, selfies em frente a obras alheias e hashtags como #BarreiroEmMovimento, movimento esse, aliás, que é maioritariamente em círculos.

A coisa chega ao cúmulo do grotesco quando comparamos o frenesim das redes sociais da Câmara com o vazio existencial das sessões públicas de Câmara e da Assembleia Municipal.

No Instagram, o Barreiro parece uma utopia escandinava em final de primavera: crianças a correr em parques, seniores a sorrir em workshops de aromaterapia e políticos de manga arregaçada como se estivessem sempre a meio de uma obra.
Já nas sessões oficiais? O som do desespero a ecoar nas paredes, um vazio de ideias, de gente e sobretudo de vergonha.

As Assembleias Municipais são o equivalente político de um concerto cancelado que ninguém deu pela falta. Há mais emoção numa reunião de condomínio, quando alguém fala (geralmente um munícipe mais teimoso que informado), é recebido com aquele paternalismo tipicamente autárquico: "agradecemos a sua intervenção", tradução livre: "que seca, mas temos de fingir que ouvimos"e os eleitos, com o olhar perdido entre o cansaço e o telemóvel, debitam textos como quem lê bulas de medicamentos vencidos.

As sessões de Câmara, por sua vez, são o verdadeiro teatro do absurdo. Pouco públicas, raramente deliberativas, e sempre previsíveis.
São reuniões onde se diz pouco, se decide menos e se comunica tudo, depois, editado, com legendas inspiradoras e música de stock gratuita.
A versão crua é uma espécie de “Arquivo Morto” da democracia local, mas a versão online parece um trailer de série da Netflix com orçamento.

E eis o contraste brutal, nos plenários do poder local reina a apatia, o formalismo sonâmbulo, o powerpoint em coma. Já nas redes sociais, é Carnaval todo o ano.

Cada visita técnica vira sessão fotográfica, cada protocolo assinado, um poema de autoelogio, onde o conteúdo é regado com hashtags como #CuidamosDeSi, #JuntosAvançamos, #SomosBarreiro, como se a política fosse uma campanha publicitária de pasta dentífrica.

Mas o mais fascinante, e perverso desta encenação digital, é a sua eficácia. Criou-se um ecossistema em que a crítica é confundida com negativismo, a dúvida com sabotagem e a exigência com má educação.

“Se está tudo no Facebook, por que é que ainda há pessoas a queixar-se?”, perguntam alguns, de polegar em riste, viciados no scroll e desidratados de pensamento crítico.

A democracia, no Barreiro, tornou-se um produto audiovisual de consumo rápido. A transparência é medida em número de posts. A participação, em número de reacções. O contraditório? Cancelado por não cumprir os requisitos do algoritmo.

Talvez um dia, quando os filtros passarem de moda e o feed perder o brilho, alguém se lembre de perguntar: “Mas o que é que foi mesmo feito?” Até lá, os autarcas continuarão a viver o sonho de qualquer adolescente: serem populares no Instagram, sem ter de fazer os trabalhos de casa.

E enquanto a cidade se degrada sob a névoa do autoengano, os nossos governantes continuarão a sorrir para a câmara, não a da Assembleia Municipal, claro, a outra, a que dá likes.

Até lá, resta-nos assistir, ou melhor, gostar, comentar e partilhar, porque, no fundo, não vivemos numa cidade, vivemos num feed.

Dois homens e um destino

Edição Presidênciais

Barba Azul, 31.05.25

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Dois homens e um destino, a presidência

Preparem-se, caros cidadãos, para o blockbuster político mais aguardado desde a fusão da geringonça com a geringonhice: Marques Mendes vs. Gouveia e Melo, ou como diria alguém na nossa praça, “o mini e o militar”. Uma escolha difícil entre o homem que cabia numa caixa de sapatos da Chicco e o que parece ter saído da caixa preta da Marinha.

Marques Mendes: o candidato de bolso

Imagine-se um político tão discreto, mas tão discreto, que consegue ser confundido com um bibelô de escritório. Marques Mendes, o eterno comentador da TV, aquele senhor que fala com a solenidade de quem está a anunciar a morte do bacalhau à Brás.

Dizem que é experiente, mas, se formos honestos, a maior experiência que tem é interromper pivôs com “Informações que recolhi esta semana indicam que...”
Um oráculo de bastidores que nunca lá está quando é preciso alguém na linha da frente, exceto se for para comentar, claro.

Na política, Marques Mendes é o equivalente a um tampo de sanita em porcelana, pequeno, frio, e sempre à espera de um trono.

Gouveia e Melo: o almirante das vacinas e dos egos

Do outro lado, temos Gouveia e Melo, o nosso Chuck Norris da pandemia. Um homem que se auto-imunizou contra a humildade, alguém que acredita piamente que pôr seringas em braços equivale a salvar a pátria.

Podemos afirmar que, mérito lhe seja dado, pois organizou a vacinação com a eficácia de um general alemão da Segunda Guerra, claro, com discursos carregados de épico, como se cada frasco da Pfizer fosse uma baioneta em Waterloo.

Só que, surpresa das surpresas, depois de organizar filas de velhotes com pulseiras coloridas, decidiu que podia presidir à nação, porque nada diz "preparado para a presidência" como saber gerir um centro de vacinação em Viseu.

Escolher entre eles é como escolher entre uma torrada sem manteiga e uma com dinamite.

Votar em Marques Mendes é eleger o silêncio com gravata, um presidente que, perante uma crise internacional, diria: “não me compete”. Um símbolo vivo da passividade ativa, espécie rara, mas muito bem remunerada em Belém.

Já Gouveia e Melo, com ele, cada discurso será um desfile militar em modo PowerPoint, mas com legendas e hinos, ou provavelmente um tanque de guerra na varanda de Belém, "em nome da autoridade", afinal, nada diz "democracia saudável" como um exército à porta.

Ambos querem unir o país, num bocejo coletivo

Marques Mendes quer ser “o garante da estabilidade institucional”, ou seja, um bibelot institucional, já o Almirante quer "mobilizar os portugueses", o que, traduzido do militar, significa provavelmente acordar-nos às 5h da manhã, para cantar o hino e marchar à volta da Assembleia da República com máscara FFP2.

No fim, perante os factos, quem é que Belém merece?

Portugal, esse país com 900 anos e 900 mil comentadores, terá de escolher entre o homem que sabe tudo mas nunca fez nada, e o homem que fez uma coisa e agora acha que sabe tudo.

É a velha escolha portuguesa, entre o comentador-esfinge e o militar messianico . Um promete dizer pouco e não fazer nada, o outro promete dizer muito e fazer tudo (mal...). Um é o silêncio paralisante, o outro é o ruído autoritário. Entre a pequenez do carreirismo e a grandiloquência da caserna, o eleitor português vai ter saudades do Marcelo, sim, até do Marcelo.

Ou então, e é só uma ideia, podemos não votar em nenhum deles. Afinal, por hoje, até porque a procissão ainda não saiu da capela, aguardemos mais novidades, pois ainda há muito pastel de nata para provar, concerteza.

Não é roubo, é inovação financeira!

Edição Europa

Barba Azul, 30.05.25

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Não é roubo, é inovação financeira!

Senhoras e senhores, tragam o champanhe e os recibos de depósitos a prazo, que Maria Luís Albuquerque, aquela que um dia disse que não havia problema nenhum em vender swaps como quem vende raspadinhas, voltou em grande!

Agora, com um título europeu que parece uma password gerada automaticamente por um sistema em stress: Comissária da Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e Mercados de Capitais, sim, tudo isto para nos lembrar que estabilidade, nos dias que correm, é quando o nosso dinheiro desaparece em câmera lenta com música clássica ao fundo.

A brilhante ideia da semana? Usar 10 biliões de euros de poupanças dos cidadãos, os tais remediados que ainda conseguem juntar umas moedas no fim do mês, entre um IVA e outro, para investir nos grandes sonhos de Bruxelas.

Inovação digital, leia-se, startups que falem de blockchain e acabem em falência, transição climática, plantar painéis solares em cima de pobres, e, claro, defesa, traduzido do eurocratês, tanques e mísseis com selo ecológico.

Mas atenção! Ninguém está a obrigar ninguém, longe disso, isto vai ser tudo "voluntário", tal como foi voluntário aquele senhor que investiu no BES porque o gerente do banco lhe disse, com um sorriso e um powerpoint, que aquilo era mais seguro do que a vida eterna.
Agora só lhe resta a vida, e mesmo essa com restrições.

O Eurofi, esse antro de brainstorming capitalista onde se reúne tudo o que é CEO, banqueiro e lobista de profissão, aplaudiu. Claro que sim, aplaudiram Maria Luís, com ar de quem acabou de descobrir a cura para a pobreza, por outras palavras, transformar os pobres em investidores falidos, propôs canalizar o dinheiro dos pobres para as mãos dos ricos, mas com "literacia financeira"!

E isto, porque o problema, meus caros, é que nós não percebemos nada disto, somos todos analfabetos financeiros, e até temos o desplante, de pensar que o nosso dinheiro no banco, é nosso! Que ingénuos.

E o melhor, a palavra “prudência” foi dita seis vezes no discurso, porque ao repetir muitas vezes "prudência", talvez o mercado acredite e os velhotes não se assustem.

Afinal, prudente também era o BES, prudente era o BPN, prudente era a ministra das Finanças que garantiu que não haveria mais problemas com a banca, e no fim, olhem onde estamos.

E agora, para o grande final, as reformas complementares, o novo eufemismo para dizer "esperem sentados porque a reforma base não chega nem para a conta da EDP".

A proposta é inscrever-nos automaticamente nesses esquemas, automático, mas voluntário, claro, tal como aqueles "upgrades" do Windows, que instalam tudo enquanto estás a beber café, ou a palitar os dentes e, de repente, perdeste a casa, mas ganhaste uma carteira digital.

E quem não quiser investir em ações de empresas de armamento? Problema seu. Afinal, o seu direito de não financiar bombas deve sempre ceder ao direito inalienável da União Europeia de alimentar os interesses do consórcio da guerra.

A escolha é sua, ou mete o seu dinheiro em armas, ou vê o seu dinheiro a desaparecer de forma civilizada, pelas mãos dos gestores prudentes.

Portanto, sim, as pensões e os depósitos estão em perigo, mas com elegância, com apresentações em magníficas apresentações, com comissários que falam de resiliência financeira.
E se perder tudo, console-se com uma certeza, foi tudo “voluntário”.

Boa sorte, Europa. Vais precisar.

Feira de Formação e Emprego Barreiro-Moita

Edição Autárquicas

Barba Azul, 29.05.25

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Feira de Formação e Emprego Barreiro-Moita: Uma Solução Brilhante Para Tudo, Exceto o Emprego e a Formação

Nos dias 8 e 9 de maio de 2025, o Barreiro voltou a ser palco daquela extraordinária tradição que une o útil ao fútil: a IV Edição da Feira de Formação e Emprego Barreiro-Moita. O nome, por si só, já soa a PowerPoint em modo automático. Promovida por essa entidade mística chamada REBM, que tanto pode ser uma rede de empregabilidade como um novo sabor de iogurte probiótico, a feira voltou a fazer aquilo que faz melhor, parecer que está a fazer alguma coisa.

O evento, segundo reza a lenda, visa reforçar sinergias (palavra-chave obrigatória em qualquer reunião onde ninguém sabe exatamente o que está a fazer), juntar escolas, autarquias e empresas num parque da cidade, e criar um ambiente onde os alunos percebam “o que as empresas estão à espera”, pelo historial, estão à espera de trabalhadores qualificados, baratos, disponíveis ao sábado, com três licenciaturas e experiência em armar stands.

Frederico Rosa, o presidente da Câmara do Barreiro e entusiasta de frases vagas, disse que era preciso “trazer esta malta das escolas” para um ambiente diferente. É um belo gesto. Nada como levar os miúdos de uma escola secundária para uma tenda onde podem levar com panfletos de empresas que procuram estagiários não remunerados para funções onde o principal requisito é saber sorrir enquanto se aceita o salário mínimo como se fosse um favor.

Estiveram presentes 37 empresas. Tantas! Só mais 963 e temos o desemprego resolvido. Centenas de jovens apareceram. Claro que sim, houve até pipocas, insufláveis e brindes com logótipos. Faltou apenas aquilo que o nome da feira promete: empregos. Mas não sejamos exigentes, afinal o que conta é a “experiência”, aquela palavra maravilhosa que justifica tudo, inclusive perder um dia de aulas para ver um PowerPoint da empresa “InovOffice+” sobre as vantagens de trabalhar remotamente no Sri Lanka com um portátil emprestado.

Entretanto, repete-se a pergunta: se há quatro edições que esta feira promete resolver a questão da empregabilidade, porque raio é que ainda é preciso fazê-la? Será uma espécie de “Groundhog Day” do desemprego, onde todos os anos fingimos que estamos quase lá, mas por acaso nunca passamos da rotunda?

É claro que não se pode dizer que o evento não sirva para nada. Serve sim: serve para que políticos tirem fotos, para que empresas façam scouting de carne fresca e para que os participantes adicionem no LinkedIn a célebre entrada “participação em feira de empregabilidade”, que os recrutadores lêem com a mesma atenção com que nós lemos a bula dos medicamentos genéricos.

Em suma, a Feira de Formação e Emprego Barreiro-Moita é como um comprimido de homeopatia para a crise estrutural do emprego: bonito na embalagem, inócuo no conteúdo, mas dá sempre jeito para fingir que se está a tratar o problema. Até para o ano, malta! Com sorte, na V edição, oferecem mesmo um contrato a termo incerto… para montar as tendas.

Não é roubo, é inovação financeira!

Edição Classe Executiva

Barba Azul, 28.05.25

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Não é roubo, é inovação financeira!

Senhoras e senhores, tragam o champanhe e os recibos de depósitos a prazo, que Maria Luís Albuquerque, aquela que um dia disse que não havia problema nenhum em vender swaps como quem vende raspadinhas, voltou em grande!

Agora, com um título europeu que parece uma password gerada automaticamente por um sistema em stress: Comissária da Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e Mercados de Capitais, sim, tudo isto para nos lembrar que estabilidade, nos dias que correm, é quando o nosso dinheiro desaparece em câmera lenta com música clássica ao fundo.

A brilhante ideia da semana? Usar 10 biliões de euros de poupanças dos cidadãos, os tais remediados que ainda conseguem juntar umas moedas no fim do mês, entre um IVA e outro, para investir nos grandes sonhos de Bruxelas.

Inovação digital, leia-se, startups que falem de blockchain e acabem em falência, transição climática, plantar painéis solares em cima de pobres, e, claro, defesa, traduzido do eurocratês, tanques e mísseis com selo ecológico.

Mas atenção! Ninguém está a obrigar ninguém, longe disso, isto vai ser tudo "voluntário", tal como foi voluntário aquele senhor que investiu no BES porque o gerente do banco lhe disse, com um sorriso e um powerpoint, que aquilo era mais seguro do que a vida eterna.
Agora só lhe resta a vida, e mesmo essa com restrições.

O Eurofi, esse antro de brainstorming capitalista onde se reúne tudo o que é CEO, banqueiro e lobista de profissão, aplaudiu. Claro que sim, aplaudiram Maria Luís, com ar de quem acabou de descobrir a cura para a pobreza, por outras palavras, transformar os pobres em investidores falidos, propôs canalizar o dinheiro dos pobres para as mãos dos ricos, mas com "literacia financeira"!

E isto, porque o problema, meus caros, é que nós não percebemos nada disto, somos todos analfabetos financeiros, e até temos o desplante, de pensar que o nosso dinheiro no banco, é nosso! Que ingénuos.

E o melhor, a palavra “prudência” foi dita seis vezes no discurso, porque ao repetir muitas vezes "prudência", talvez o mercado acredite e os velhotes não se assustem.

Afinal, prudente também era o BES, prudente era o BPN, prudente era a ministra das Finanças que garantiu que não haveria mais problemas com a banca, e no fim, olhem onde estamos.

E agora, para o grande final, as reformas complementares, o novo eufemismo para dizer "esperem sentados porque a reforma base não chega nem para a conta da EDP".

A proposta é inscrever-nos automaticamente nesses esquemas, automático, mas voluntário, claro, tal como aqueles "upgrades" do Windows, que instalam tudo enquanto estás a beber café, ou a palitar os dentes e, de repente, perdeste a casa, mas ganhaste uma carteira digital.

E quem não quiser investir em ações de empresas de armamento? Problema seu. Afinal, o seu direito de não financiar bombas deve sempre ceder ao direito inalienável da União Europeia de alimentar os interesses do consórcio da guerra.

A escolha é sua, ou mete o seu dinheiro em armas, ou vê o seu dinheiro a desaparecer de forma civilizada, pelas mãos dos gestores prudentes.

Portanto, sim, as pensões e os depósitos estão em perigo, mas com elegância, com apresentações em magníficas apresentações, com comissários que falam de resiliência financeira.
E se perder tudo, console-se com uma certeza, foi tudo “voluntário”.

Boa sorte, Europa. Vais precisar.

Barreiro, Onde o Planeamento é uma Arte Abstracta

Edição Autárquicas

Barba Azul, 27.05.25

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Barreiro, Onde o Planeamento é uma Arte Abstracta

A Oposição, um Silêncio Zen

No Barreiro, terra fértil em promessas estéreis em pudor, o Executivo Camarário de maioria PS tem levado a cabo aquilo que só pode ser descrito como uma performance artística de vandalismo institucional, uma espécie de Land Art, mas sem a parte “Art”.

À falta de planeamento, sobra-lhes betão. A falta de ética, substituem-na com rotundas. E em cada esquina surge um novo exemplo de “requalificação”, entendido aqui como o nobre ato de substituir o mau gosto antigo por um ainda pior, mas com selo de adjudicação direta.

As aberrações urbanísticas espalham-se pelo concelho com a leveza de um vírus e a subtileza de uma escavadora em pleno recital de Schubert, ou seja, não é bem um “Recital” se o que ouvimos é cimento a ser despejado como se fosse melodia.

E não é bem “urbanismo” pois a palavra certa talvez fosse “arraso”, mas dito com aquele sotaque tecnocrático que transforma destruição em “visão estratégica”.

O Executivo Camarário, com a convicção de quem herdou a cidade num leilão de penhoras, tem feito obra onde pode, onde não pode, e sobretudo onde não deve. Faz obra em casa alheia com a mesma naturalidade com que se empresta a marmita do almoço: “leva lá, depois logo se vê”.

É um modelo inovador de gestão, urbanismo à la tuga, em que se usa e abusa de património com a confiança de um miúdo que desenha nas paredes da escola e depois chama aquilo de “expressão artística de renovação descontrolada”.

Veja-se o caso do antigo armazém de víveres da CP, um edifício centenário, carregado de memória ferroviária, digno de museu, talvez, ou pelo menos, de uma limpeza básica e estrutural.

Pois bem, no Barreiro, decidiu-se que a melhor forma de preservar a história é desfigurá-la com a mesma sensibilidade com que se pinta uma estrela do mar num passeio de calçada.

A reconversão foi feita ao abrigo daquele princípio estético do “nem é carne nem é peixe”, mas com muito vidro, betão e a inevitável chapa canelada, porque nada diz "requalificação" como uma fachada que parece encomendada à pressa por um primo com stock a despachar, de tal forma, que ainda hoje, funciona com energia de contador de obra.

Ali construíram um “hub à democracia”, expressão que já promete desgraça logo à partida, um sítio com mobiliário de catálogo escandinavo, mesas de coworking em contraplacado, e uns candeeiros industriais pendurados como se cada lâmpada fosse uma metáfora para a ausência de luz no planeamento urbano.

Serve para residência partidária das diferentes forças políticas, com representação na Assembleia Municipal, com mais um auditório descontextualizado da história do imóvel, exposições, para colóquios, ou para ficar às moscas com dignidade modernaça.

Está tão cheio de “potencial” que só falta mesmo alguém querer usá-lo, mas para isso seria preciso ter tornado o espaço funcional, seguro e a operar dentro da legalidade. E isso, como sabemos, é muito anos 90, faz-se um liefting, coloca -se sinalética impressa numa qualquer impressora, e já está.

Mas o verdadeiro festival da vergonha municipal está no Cambalacho do dormitório da CP. Uma operação de sub-aluguer digna de telenovela mexicana com argumento de Kafka: a autarquia, esse bastião da legalidade flexível, decide ocupar um edifício que não é seu, celebra um contrato e entrega o mesmo à exploração, através de expediente pouco recomendável ou transparente.

Com tanta convicção que já lhe põem candeeiros, fazem obras, e atribuem usos como se estivessem a decorar um quarto alugado no Booking. O antigo dormitório da CP, lugar de repouso de ferroviários, é agora palco de uma remodelação que desafia o bom gosto, a propriedade privada e provavelmente o Código Civil, transformado e reciclado para um Hostel com gestão privada, pelo já reconhecido, empresário do regime.

Fez-se lá de tudo: armaram-se paredes, trocaram-se portas, montaram-se divisórias em pladur como se fossem origamis institucionais. Chegou-se mesmo a colocar janelas de alumínio que brilham como os olhos de um empreiteiro com contrato de ajuste direto. O problema é que o prédio ainda pertence à IP Património. Pequeno pormenor técnico. Nada que um sorriso camarário e um protocolo não tentem disfarçar.

O sub-aluguer, esse prodígio legal, parece ter sido assinado numa mesa de café, com guardanapos a servirem de adenda contratual. E claro, tudo isto sob o olhar cúmplice da oposição.

Como sempre, ou está ausente, ou está à espera que alguém lhes diga em que freguesia estão. Talvez estejam ocupados a tirar selfies com buracos no alcatrão para denunciar no Facebook. Um modelo de fiscalização ativo, mas apenas se houver Wi-Fi.

É neste caldo de criatividade institucional, onde se baralham competências, terrenos e noções de estética, que o Barreiro avança, aos tropeções, para um futuro onde a única coisa preservada é o descaramento.

Porque aqui, faz-se obra com a propriedade dos outros, a sensatez de um reality show e a legalidade de uma carta de ajuste redigida por um estagiário disléxico.

E a oposição? Sim, a oposição, esse fenómeno paranormal, mais raro que um Pingo Doce sem filas. Não se ouviu um pio, um grunhido, uma mísera interpelação. Terão emigrado? Estarão em retiro espiritual? Ou apenas se dedicaram ao mais radical dos protestos: a passividade absoluta?

Mas eis que, como numa peça mal ensaiada de teatro político, aproximam-se as eleições e, com elas, um súbito surto de sensibilidade dermatológica: os furúnculos partidários vêm à flor da pele.

São como virgens arrependidas, agora horrorizadas com o que se passou na cama do urbanismo municipal. Onde estavam quando o lençol era puxado? A dormir, presume-se, mas em nome da democracia, claro.

Curiosamente, os mesmos que agora se agitam como salmonetes em campanha, tinham, até há pouco, a elasticidade moral de um elástico velho. Agora, debatem-se com indignações frescas, recicladas do fundo do baú, onde costumavam guardar as promessas desde 1980.

Entretanto, no Barreiro, continuam-se a erguer monstros de cimento, concessões de fachada, parques que são desertos com bancos, e centros cívicos que só servem para reuniões entre os mesmos de sempre.

A política local é um teatro de revista, mas sem piada, a não ser que se encare tudo com a ironia necessária, a de que estes eleitos foram, de facto, eleitos, e que talvez o verdadeiro furúnculo esteja onde menos se espera, no espelho de cada eleitor.

Mas enfim, como diria qualquer vereador com ficha limpa por falta de investigação: “Fizemos o que estava ao nosso alcance”. O problema é que o alcance deles parece sempre coincidir com os bolsos errados.

E se alguém pergunta: “Mas quem é que deixou isto acontecer?”, a resposta é sempre a mesma: “Foi por todos nós.” O que, em democracia, quer dizer que ninguém tem culpa de nada.

Humildade Democrática com Pó de Talco

Ainda as Legislativas

Barba Azul, 26.05.25

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Uma Reflexão Colectiva, com Espelhos Embaciados.

Por alguém que acredita firmemente no poder terapêutico do disparate político.

Há textos que nos deixam boquiabertos. Outros, que nos deixam de boca cheia de vómito ou de riso, conforme o estômago e a paciência.

O caso do nobre militante socialista, e também Presidente da Distrital de Setúbal do PS, que, após o desaire eleitoral do passado dia 18 de Maio, nos brindou com um relicário de frases feitas e pensamento plastificado, pertence decididamente à segunda categoria.

É um texto que dá vontade de imprimir, emoldurar e colocar na casa de banho, mesmo ao lado do autoclismo, para que nunca nos esqueçamos que o fundo, quando parece ter sido atingido, afinal ainda tem cave e sub-cave.

Comecemos pelo tom do esforçado deputado. O autor diz-se da "cepa que não disfarça a realidade", o que é verdade, se considerarmos que disfarçá-la, exigiria muito talento, e ele, talento tem mas é para os copos, já o provou.

E esse, infelizmente, ficou retido nos arquivos da Justiça e Conselho Nacional. A realidade, como nos é servida, vem toda embrulhada em papel pardo de vitimização e fita-cola de superioridade moral, uma espécie de missa de sétimo dia do PS, mas com homilia lida por alguém que acha que a culpa do enterro foi do caixão mal pintado.

"Obtivemos o 3.º melhor resultado no meu Distrito!", exclama com orgulho ferido, como quem diz, "Perdi o campeonato, fui despromovido, mas bati recordes no aquecimento!"

É este o novo standard da vitória moral, ficar a léguas do poder, mas com a autoestima firme e a cabeça enterrada na areia da estatística distrital. Já não se ganha eleições; agora fazem-se bons desempenhos no escalão etário 35-50, na secção B, zona ribeirinha.

A seguir, vem a grande novidade epistemológica, a reflexão colectiva. Diz o texto que não se trata de uma reflexão individual, o que é compreensível, porque ninguém quer ser apanhado sozinho numa sala com um espelho e um mandato perdido.

É mais seguro reflectir em grupo, com powerpoints, croissants do Lidl e desculpas partilhadas. O importante é que a culpa seja diluída, em Costa, em Galamba, no IVA zero, nos influencers da esquerda TikTok ou cereja ideológica, nos malandros dos eleitores que teimam em votar ao centro.

O trecho sobre o “reencontro do PS com o povo” é de uma ternura que faria corar o ursinho carinhoso mais cínico.

Querem ouvir o povo, depois de o ignorar sistematicamente sempre que o povo dizia algo que não vinha aprovado pela Comissão Política.

Agora, querem escutar “os mais ricos e os desfavorecidos”, como se esses dois grupos frequentassem os mesmos cafés ou partilhassem a mesma língua.

Talvez marquem um encontro numa estação de comboios, onde ambos esperam por um futuro que o PS prometeu e nunca chegou.

E depois, claro, o alerta dramático, a direita pode destruir os serviços públicos! Este é o momento em que o texto se despe das vestes de reflexão para vestir o colete à prova de ridículo.

O PS, que teve maioria absoluta e tempo para reforçar o SNS, salvar a escola pública, proteger os pensionistas e domar a CGD, agora teme que a direita venha destruir, aquilo que eles próprios deixaram em frangalhos.

É como o pirómano que acusa os bombeiros de estarem a molhar demasiado as cinzas.

Por fim, a declaração de missão, “O Partido Socialista tem um importante papel a cumprir.” Ora, claro que sim, alguém tem de manter viva a tradição do auto elogio, da retórica vazia e da fé inabalável na própria inocência. Alguém tem de guardar o espólio do falhanço com dignidade institucional e punhos de renda.

Em resumo, o texto é um monumento à arte do não aprender, uma ode à reciclagem de chavões, servida com o fervor de quem perdeu, mas ainda não percebeu porquê.

Cá para mim, talvez seja melhor assim, afinal, se refletissem com seriedade, arriscavam-se a chegar a conclusões perigosas, como, por exemplo, a de que o povo português está farto de ser tratado como um erro estatístico com boletim de voto.

E isso, convenhamos, seria um choque terrível para quem ainda acha que “terceiro lugar no distrito” é sinónimo de missão cumprida.

Trabalho Comunitário para Totós

Mapa Para Peregrinação a São Banto

Barba Azul, 25.05.25

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Trabalho Comunitário para Totós
JL Carneiro - Cuida-te

Senhoras e senhores, apresento-vos André Pinotes Batista, hoje, deputado socialista, e sobretudo um homem profundamente comprometido com o serviço público, acima de tudo aquele imposto por sentença judicial.

Em 2013, o jovem promissor foi apanhado a conduzir com 2,5 gramas de álcool por litro de sangue, o que, para os leigos, significa que não estava bêbado, estava embalsamado.

O tribunal foi compreensivo, em vez de pagar uma multa, propôs-lhe uma alternativa digna de quem acredita na reabilitação social, 109 horas de trabalho comunitário. Um verdadeiro abraço da justiça a quem se limita a trocar o volante por uma garrafa de bagaço.

Mas eis que o milagre socialista da multiplicação da dispensa, das 109 horas, acontece, só fez 10. E não porque se recusasse. Deus nos livre! O agora deputado, estava apenas… distraído, porque entre uma reunião do PS e outra, é fácil esquecer que temos de ir varrer folhas para cumprir pena. Prioridades, não é? O povo que espere, primeiro o partido, depois a pá.

Claro que o tribunal, esse chato burocrata do sistema, ameaçou com cadeia. Mas não subestimem um homem que sabe rodear-se. Eis que, num gesto de altruísmo sublime, Rui Pereira, presidente do Luso Futebol Clube e colega socialista, oferece ao nosso mártir uma oportunidade de redenção, cumprir o resto da pena no clube.

Varreu balneários, alinhou cadeiras, assinou folhas de ponto com zelo digno de funcionário público na véspera de feriado, e ainda sobrou tempo, para meter o seu supervisor de pena, passados poucos anos, nas listas autárquicas, mas foi só por coincidência.

E assim, em menos de um mês, estava redimido. Um relâmpago de civismo que faria o padre Américo bater palmas no túmulo. A DGRSP (Direção-Geral de Reinserção) não viu qualquer problema. O tribunal também não. O clube ficou limpo. E Pinotes? Pinotes foi promovido, passou de infrator a deputado. Milagre português. Ou melhor, milagre do Barreiro.

Quando, em 2017, a Visão ousou perguntar se este arranjinho não cheirava um pouco a tacho requentado, o deputado respondeu com toda a sobriedade de quem já não conduz depois de beber: "Não fui favorecido."

Claro que não, apenas teve a sorte de cumprir a pena com um camarada de partido como supervisor. É como um aluno a fazer exame com o primo a vigiar, tudo dentro da legalidade, senhor doutor.

Hoje, Pinotes Batista continua a legislar com a autoridade moral de quem um dia limpou balneários a mando da justiça, por ser apenas inconsciente, o que, em linguagem jurídica, é praticamente um elogio e, em política portuguesa, um trampolim para cargos de chefia.

Neste país, ser inconsciente ao volante é grave… exceto se o volante for o do Parlamento. Aí, a inconsciência é valorizada como visão estratégica.

E assim, lá vai Pinotes, de microfone em punho e passado enxaguado, legislando com a leveza de quem sabe que a ética é opcional, a consequência é facultativa e o trabalho comunitário, é com os outros.

As instituições, por sua vez, engolem seco, apertam o nó da gravata e prosseguem, serenas, no seu papel de figurantes cúmplices.

A Justiça não se ofende, a Assembleia não se envergonha, e o país, esse, vai assistindo à degradação institucional com a mesma passividade com que assiste a um reality show: sabe que é tudo uma farsa, mas já não consegue mudar de canal.

E no fundo, talvez nem queira. Afinal, sempre é entretenimento nacional, pago com o suor dos que ainda não descobriram que infringir a lei, em Portugal, é só um erro de classe.

Afinal, já deu o seu contributo ao clube. Não ao país, claro. Ao Luso Futebol Clube. Onde, por entre vassouras e camaradagem, se provou que em Portugal a justiça não é cega, apenas sofre de miopia seletiva e alergia a militantes do aparelho.

Moral da história? Se beber, não conduza. Mas se conduzir, seja do PS, e nós, simples mortais, olhamos com reverência para este exemplo vivo de como um sistema pode ser manipulado sem nunca se tornar, tecnicamente, ilegal.

E se perguntarem: “Mas ele não devia ter cumprido a pena como qualquer cidadão comum?”, a resposta é simples. É claro que sim, mas o infrator é socialista, um botão viciado de rosa a desabrochar, e em Portugal, socialista que se preze tem sempre direito a um serviço público... com serviço de quarto.

Significa tudo isto, que Portugal não é uma república das bananas, mas é uma feira da fruta, e Pinotes, ao que parece, é cliente VIP.

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