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Barrabás - o Barba Azul

Barrabás - o Barba Azul

Barrabás e o Último Acto

Edição Jurídica

Barba Azul, 04.11.25

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Barrabás e o Último Acto

A Comédia Judicial de um País Irrecuperável
 
Portugal, essa eterna novela jurídico-burlesca, acaba de estrear mais um episódio da série “O Processo Que Nunca Mais Acaba” e tem como título do capítulo: “Pedro Delille abandona o barco de Sócrates e o navio continua a arder”.
 
O advogado, cansado de fingir que a justiça portuguesa é um sítio onde se julga, decidiu fazer o que qualquer pessoa com um mínimo de respeito por si mesma faria, bateu com a porta e saiu de cena. Alegou, em carta ao tribunal, que já não podia participar num “simulacro de julgamento” e Barrabás, à porta do tribunal, cá fora, murmurou em coro com os portugueses atentos: "ah, então só agora é que percebeste?
 
O “episódio da semana passada”, essa pérola de dramaturgia em toga, envolveu uma repreensão pública da juíza Susana Seca, a guardiã da liturgia judicial, que, entre interrupções e sussurros, transformou a audiência num "reality show" de decadência institucional. Delille, talvez num raro momento de lucidez trágica, olhou à volta, viu o cenário de cartonagem, as personagens de toga mal passada e os figurantes pagos a indignação, e concluiu que aquilo já não era um julgamento, foi transformado numa missa negra da burocracia, celebrada em nome do Espírito Santo do Formalismo.
 
Mas temos que ser justos, porque em Portugal, os simulacros não são acidentes e sim métodos. A justiça é uma longa coreografia de incompetências coreografadas, onde todos fingem dançar conforme a música, enquanto a orquestra toca debaixo de água. Um país que passa décadas a investigar um ex-primeiro-ministro e ainda não consegue chegar a uma sentença, não tem um problema de justiça, tem um problema de ficção, por desvendar.
 
O caso Sócrates é, na verdade, o spin-off infinito da série “Casa dos Segredos Edição Tribunal Central”. Cada episódio traz uma nova personagem secundária, um novo adiamento, uma nova carta dramática, um novo “incidente processual” que ninguém entende mas toda a gente comenta. O guião é tão previsível que já se pode prever o final, mais prescrições do que culpas, mais comunicados do que condenações.
 
Pedro Delille abandona, e nós aplaudimos o gesto com ironia, porque a coragem, neste circo, não está em enfrentar o sistema, está em reconhecer que o sistema é uma caricatura de si próprio. A justiça portuguesa é o único espectáculo onde o público já sabe o desfecho antes do primeiro acto, mas continua a assistir, entre pipocas e desespero, só para ver até que ponto a vergonha é capaz de se reinventar.
 
E lá seguimos, com juízes que repreendem, advogados que desertam, arguidos que envelhecem à espera da eternidade processual e cidadãos que, entre um aumento de impostos e uma gargalhada amarga, percebem finalmente o que Pedro Delille quis dizer: "em Portugal, não há julgamentos, há encenações".
 
Portugal é o país onde o tempo judicial não corre, rasteja, onde cada processo é um relógio parado, e cada sentença uma miragem prometida aos tolos que ainda acreditam que o crime, um dia, dá cadeia. Pedro Delille percebeu, tarde mas a tempo, que o palco do caso Sócrates não é um tribunal, é um teatro barroco onde os actores entram e saem, mas o enredo é sempre o mesmo, o herói cai, o vilão ri, o público boceja, e o encenador, com o patrocínio da justiça, manda repetir o acto até que todos morram de tédio ou prescrição. É uma peça onde as cortinas nunca fecham, os figurantes mudam de toga, e o texto, escrito em latim burocrático, serve apenas para encobrir a nudez do poder. No fundo, o caso Sócrates não é sobre culpa ou inocência, é sobre resistência, a resistência de um sistema inteiro a ser julgado.
 
O “simulacro de julgamento” que Delille denuncia é apenas o último acto de uma longa tradição nacional, com a justiça como arte performativa. Do BPN ao BES, do Freeport ao Marquês, da EDP ao Benfica, tudo em Portugal se transforma em processo, mas nada se transforma em consequência.
 
Senão, vejamos o arquivo histórico da vergonha:
 
O Caso BPN, onde a elite financeira tratou o banco como uma vaca leiteira, e o Estado, sempre compassivo, pagou a ração. Como resultado? Uns quantos anos de espectáculo, umas prisões preventivas para fingir moralidade e, no fim, absolvições como se fossem hóstias sagradas.
O Caso BES, um monumento de impunidade erguido em nome de Ricardo Salgado, o “Dono Disto Tudo”, o qual continuou a dar entrevistas sobre ética, enquanto o país engolia a dívida com juros e indignação, até decidir viver da reforma miserável,
 
O Caso Freeport, essa epopeia de corrupção pós-industrial, que acabou como um filme inacabado de Manoel de Oliveira, longo, arrastado, e sem resolução.
 
O Caso EDP, onde Manuel Pinho, entre jantares, PowerPoints e parelhas de cornos, foi acusado de corrupção passiva enquanto o país continuava a pagar a eletricidade mais cara da Europa e a acreditar que a justiça trabalhava a 220 volts.
 
O Caso Raríssimas, onde a caridade se revelou um negócio de luxo e os protagonistas continuam a desfilar em galas, porque em Portugal a vergonha tem passadeira vermelha.
 
O Caso das PPP, onde o Estado contratou a ruína e assinou o recibo de culpa, mas ninguém sabe quem redigiu o contrato com a mediocridade.
 
E assim seguimos, entre audiências suspensas, recursos infinitos, juízes transferidos e procuradores que mudam de cargo antes de mudar de opinião. A justiça portuguesa é um carrossel de toga, gira, mas nunca sai do sítio.
 
Delille, ao abandonar Sócrates, não saiu apenas de um julgamento: saiu de uma religião. Porque a fé na justiça, em Portugal, é o último sacramento da ingenuidade e ele percebeu que o tribunal não procura a verdade, mas apenas o timing político adequado para que tudo prescreva com elegância.
 
E lá está Sócrates, sentado no banco dos arguidos, como um velho actor à espera da última ovação. O guião já está escrito e o tempo cuidará de o absolver, não por inocência, mas por cansaço colectivo.
 
E enquanto o país continua a discutir penas suspensas, delações premiadas e “vícios processuais”, os verdadeiros criminosos brindam nos terraços de Lisboa, com vista para um Tejo, que já viu demasiadas absolvições e demasiado poucos remorsos.
 
Se algum dia, o caso Sócrates, chegar ao fim, o que, convenhamos, exigiria uma conjugação astral raríssima entre Marte, Capricórnio e o Tribunal Central a funcionar em tempo útil, talvez reste apenas uma pergunta a Barrabás, digna de ecoar entre as ruínas deste simulacro de justiça: "Se José Sócrates for absolvido de tudo, quem julga quem o julgou?"
 
Porque se há verdade que até os inimigos reconhecem, é que Sócrates, com todos os seus defeitos e excessos, tinha uma visão de desenvolvimento para Portugal. Gostava do progresso como outros gostam do poder, visceralmente. Acreditava no país com uma arrogância épica e talvez tenha sido isso o seu maior pecado, porque em terra de medíocres, a ambição é crime de lesa-rotina.
 
O país que o acusou e o partido que o rejeitou, é o mesmo que, antes dele, o aplaudia de pé enquanto os fundos europeus choviam e as autoestradas brotavam como ervas daninhas. A mesma gente que agora o aponta como símbolo da decadência nacional, é aquela que se deixou governar por mediocridades sem projecto, burocratas sem rasgo, e tecnocratas de PowerPoint.
 
E Barrabás, sentado na primeira fila deste teatro da moral, pergunta: "Se o julgamento terminar em nada, quem indemniza o país pelo desperdício de décadas de ódio, de manchetes, de histeria? Quem será julgado por transformar a justiça em arena política, por destruir reputações em nome da decência pública enquanto o Estado se afundava em compadrios?".
 
A ironia é cruel, porque talvez Sócrates tenha sido culpado de acreditar que podia transformar Portugal num país europeu antes de o ser, mas o sistema, esse velho vampiro institucional, tratou de o relembrar, que aqui não se mudam estruturas, apenas nomes nas placas.
 
O verdadeiro crime de Sócrates, se existiu, não foi a corrupção, mas a ousadia. A ousadia de pensar grande num país pequeno, de querer acelerar um motor que há séculos trabalha em ponto morto, mas a vingança do sistema foi exemplar, arrastá-lo até à exaustão, até que o povo confundisse a demora com justiça e o descrédito com equilíbrio.
 
E assim, se um dia a sentença for absolvição ou, mais previsivelmente, prescrição, Barrabás estará lá, de charuto aceso e gargalhada amarga, para fazer a última pergunta que ninguém quer ouvir:
"E agora, quem paga a fatura?".
 
"Quem compensa o país por ter destruído o único político que, com todos os demónios e vaidades, ainda tinha um projecto de Nação? Quem responde pelo tempo perdido, pela política reduzida a espectáculo, pela justiça convertida em crucifixo mediático?".
 
Barrabás levanta-se, cospe a cinza no chão e sentencia com o sarcasmo de quem já viu tudo e não se surpreende com nada:
 
"Talvez Sócrates não tenha sido o Messias, mas o país, esse, continua a ser o mesmo que crucifica quem ousa prometer ressurreição".
 
Barrabás, que por acaso conhece bem os corredores do poder e as celas da hipocrisia, ri-se com raiva e num tom de desespero lúcido, desses que sabem que já não há redenção possível. Ri-se como quem vê o diabo confessar-se ao padre e o padre pedir desculpa. Ri-se porque percebe que em Portugal, a justiça não é cega, é míope, selectiva e vendida em suaves prestações de silêncio. Ri-se, enfim, porque aprendeu que neste país o pecado é punido não pela gravidade do acto, mas pelo azar de quem o cometeu fora da confraria certa.
 
Chamam-lhe justiça, mas é apenas administração da esperança, porque em Portugal, a corrupção morre sempre de velhice antes de ser julgada.
 
E depois cospe para o chão, com a solenidade dos profetas cansados, e murmura, olhando para o horizonte coberto de prescrições e comunicados:
 
"Quando a Justiça se transforma num espectáculo de sombras, os inocentes tornam-se figurantes e os culpados passam a produtores executivos.
 
Portugal, o país onde o crime compensa e desde que o advogado saiba esperar, o palco continua montado, as togas engomadas, as câmaras apontadas, faltando apenas o letreiro luminoso à entrada dos tribunais:
 
“Bem-vindo ao Teatro Nacional da Justiça, hoje em cena: A República das Aparências.”

O Tarzan do Barreiro e a Selva das Promessas

Edição Televisiva

Barba Azul, 04.11.25

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André Pinotes Batista, O Tarzan do Barreiro e a Selva das Promessas

Dizem que o inferno está cheio de boas intenções, mas se for verdade, o Barreiro é já o inferno com auditório, palco, microfone e transmissão em direto. André Pinotes Batista voltou a subir à tribuna, com aquele tom de quem fala para a História ou, mais realisticamente, para o Facebook e Tiktoc e declarou, com solenidade bíblica, que “assume o cargo com sentido de responsabilidade e compromisso com o futuro colectivo”. O que significa continuar tudo como dantes, mas dito com mais eco.
 
Pinotes é o exemplo acabado do político anfíbio, pois onsegue estar em todo o lado e, ao mesmo tempo, em lado nenhum. É deputado na Assembleia da República, onde intervém nos plenários e comissões, com a firmeza de quem sabe que o microfone o adora. Preside à Assembleia Municipal do Barreiro, lidera a Comissão Política da Federação de Setúbal do PS, participa nas reuniões da Comissão Nacional do partido e ainda aparece, com regularidade olímpica, nos canais de televisão a comentar o futebol, os outros e o país que ele próprio ajuda a desorganizar. Tudo isto, sem nunca transpirar, como um verdadeiro Tarzan da política portuguesa, saltando de cipó em cipó
 
institucional, com uma agilidade que deixaria o próprio Macaco Simão em estado de veneração.
E o mais fascinante é que, entre plenários, congressos, reuniões e painéis de comentário, Pinotes ainda arranja tempo para a vida familiar. Não se sabe se dorme, se medita, ou se se recarrega por USB numa PowerBank, mas o facto é que ele continua de pé, a discursar, sempre disponível para a fotografia. Há quem diga que é vocação, mas começa já a pensar-se que será talvez uma experiência inovadora de clonagem.
 
O problema não é o seu talento multitarefa, são as consequências, porque, com tanto cargo acumulado, fica a dúvida: quando é que o deputado se transforma em presidente da Assembleia Municipal, o presidente da Assembleia Municipal em dirigente partidário, o dirigente em comentador, e o comentador em marido e pai? E, mais importante, em que intervalo é que o cidadão André ainda tem tempo para ouvir o tal povo do Barreiro que jura representar?
 
O seu discurso de posse, cheio de palavras redondas e frases macias, numa dialética digna de Heráclito, foi uma espécie de versão autárquica de um anúncio da UNICEF: “as periferias serão ouvidas”, “as vozes serão respeitadas”, “a ética será o nosso guia”. Tudo lindíssimo, se não fosse precisamente o mesmo que disse há quatro anos, e há oito, e provavelmente o que dirá daqui a quatro, quando voltar a tomar posse de si próprio.
 
No Barreiro, as promessas têm mais mandatos do que os políticos e Pinotes domina a arte das promessas eternas. Fala com a convicção de quem acredita que, se repetir “rigor e transparência” vezes suficientes, o asfalto se conserta sozinho e a confiança pública renasce milagrosamente, como pão multiplicado nas margens do Tejo.
 
Mas o espetáculo é eficaz, pois há pompa, há retórica, há lágrimas discretas e palmas obedientes. O auditório aplaude, o telemóvel grava, o post vai para o ar. O Barreiro, esse, continua igual, com os mesmos buracos, os mesmos bairros esquecidos e a mesma sensação de que o poder local é um palco de marionetas com os fios à vista.
 
No fundo, André Pinotes Batista é o epítome da política portuguesa contemporânea: omnipresente, eloquente e incansável e, paradoxalmente, ausente do essencial. Um Tarzan que balança sobre a selva das promessas, gritando “rigor!” enquanto o cipó da credibilidade range perigosamente.
E talvez seja isso o mais trágico, porque Pinotes é competente, trabalhador e articulado, mas é também o retrato do sistema que o produziu, aquele que confunde dedicação com ubiquidade, ética com marketing, e presença com serviço. Um homem que quer salvar o Barreiro, mas que já está salvo pelo próprio partido.
 
No final da cerimónia, o público levantou-se, aplaudiu de pé, e saiu, porque o espectáculo acabou, mas o guião é o mesmo. E lá fora, o Barreiro continuava, fiel à sua sina, a olhar para o futuro como quem olha para um comboio que não vem.
 
No próximo acto, talvez o Tarzan municipal volte a prometer mais uma vez que “ninguém ficará para trás”, a não ser, claro, o próprio Barreiro.

O Apocalipse Segundo Ventura

Edição Bíblica

Barba Azul, 24.10.25

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O Apocalipse Segundo Ventura

O Sermão de Barrabás
 
Há quem diga que o CHEGA está a rachar. Eu diria antes que está a cumprir a sua vocação natural, a entropia do ódio organizado. Porque quando um partido nasce do ressentimento, cresce na raiva e alimenta-se do insulto, é normal que, um dia, se olhe ao espelho e grite consigo próprio: “Comunista!”
 
Mithá Ribeiro, outrora o cérebro ou o que mais se aproximava disso, da suposta intelectualidade venturista, transformou-se agora no inimigo interno. Era o filósofo do caos, o homem que citava Aristóteles entre duas piadas raciais, o profeta de uma extrema direita, que se queria culta, mas acabava sempre a bater palmas aos gritos, “Portugal aos portugueses!” numa tenda mal iluminada, algures entre Pegões e Santarém. E eis que, de súbito, o pensador do “politicamente incorreto” descobre que o seu próprio partido é politicamente... imbecil.
 
André Ventura, por sua vez, assiste a esta debandada como Nero perante Roma em chamas, com o mesmo ar de quem pensa “isto dá-me jeito, desde que as câmaras estejam ligadas”. O líder que jurava unir os descontentes, agora une apenas os que ainda não aprenderam a escrever uma carta de demissão. A estrutura autárquica do partido parece um convívio de casamento, onde metade dos convidados saiu antes da sobremesa.
 
Os eleitos do CHEGA fogem em bando, cada um levando consigo um pedaço do delírio original. Uns levam a xenofobia, outros o populismo barato, outros ainda a nostalgia do Estado Novo embrulhada na bandeira. No fim, Ventura ficará apenas com a cadeira e o microfone e talvez o eco do seu próprio “basta!” a responder-lhe, solitário, num auditório às moscas, se essas ainda não tiverem sido extintas.
 
O mais divertido, ou trágico, dependendo da fé política de quem ler este texto, é que o colapso do CHEGA não virá de fora, mas de dentro. Não será obra dos “globalistas”, nem dos “socialistas”, nem sequer da “agenda 2030”, será fruto da mais bela e previsível das ironias, um partido que semeou divisão, colhe a sua própria divisão, num acto de justiça poética em versão populista.
 
Mithá, o discípulo que ousou pensar mais do que berrar, agora é o novo Judas, mas um Judas com vocabulário. Foi expulso do templo, por tentar ensinar aos mercadores da indignação, que a política não é um espetáculo de circo, com bandeiras e megafones. Pobre Mithá, quis civilizar o monstro e acabou por ser devorado por ele, entre aplausos e emojis de raiva no Facebook.
 
E Barrabás, que observava o cenário da ruína, há muito tempo, com o olhar de quem já viu muitas cruzes levantadas e muitos profetas crucificados, levantou-se, e pregou aos sobreviventes do naufrágio venturista o seu Sermão aos Desertores do CHEGA:
 
“Meus filhos da indignação fácil e do verbo inflamado,” começou ele, com a serenidade de quem já viu Roma arder três vezes e ainda conseguiu vender os tijolos no OLX,
 
“não vos enganeis: não é a consciência que vos trouxe até aqui, foi o cansaço do teatro. Vós não fugis do CHEGA, fugis da vergonha de ainda lá estar.”
 
Perante o cenário, houve choro e ranger de dentes, embora alguns continuassem a tirar selfies, porque até na debandada se quer registar o momento e Barrabás, embalado pelo momento, continuou arrebatador e cínico:
 
“Durante anos, chamastes ‘traidor’ a quem pensava, e ‘herói’ a quem berrava, e, agora, quando o vosso templo desaba, perguntais quem empurrou as colunas. Pois eu vos digo: foram as vossas próprias mãos, cansadas de aplaudir o vazio.”
 
Mithá, o filósofo excomungado, ouvia de longe. O apóstolo que descobriu que a verdade, num partido de fé cega, é um pecado capital, ele, que quis discutir ideias no meio de quem só queria slogans, agora percebe que no Chega pensar é heresia e discordar é alta traição.
 
Sem perder tempo, Barrabás, cáustico como sempre e oportunista, não perde a oportunidade, para desferir mais um golpe de misericórdia: “Não choreis pelo partido, chorei antes por vós que trocastes a razão pela raiva, a dúvida pelo dogma e o futuro por um lugar nas lista autárquicas.”
 
Ventura, esse, seguia de longe, ensaiando o próximo discurso sobre a decadência dos outros, sem reparar que a sua própria ruína já estava escrita nas paredes da sede, entre dois cartazes a desbotar com o rosto dele e a prometer “ordem, honra e Portugal”.
 
Mas sem piedade e com o dedo sempre apontado, Barrabás rematou: “Em verdade vos digo, o Chega não ruiu, apenas voltou ao que sempre foi, um saco de gatos assanhados, um grito vazio à procura de um eco.”
 
E houve silêncio, um silêncio tão ensurdecedor, que até a raiva, pela primeira vez, se envergonhou de si própria.
 
E foi assim que terminou o primeiro acto do Apocalipse Venturista: com Mithá a filosofar na sombra, Ventura a discursar para o vazio, e Barrabás, sempre o mais sábio de todos, a rir-se baixinho, porque sabia que o colapso do Chega não era o fim do populismo, é apenas o intervalo.

O Grande Teatro da Miséria

Edição Les Misérables

Barba Azul, 23.10.25

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O Grande Teatro da Miséria
 
Uma sátira amarga sobre quem governa a fome
 
Há uma velha regra do teatro, se a peça corre mal, culpa-se o cenário. Em Gaza, o cenário está reduzido a entulho, os figurantes morrem à vista de todos e a cortina nunca mais desce. Mas há sempre, sempre alguém, pronto a arrancar aplausos da plateia, sejam eles generais que contam cadáveres em briefings com slides, sejam milícias que prometem protecção e distribuem medo. Entre os aplausos, quem paga o bilhete é o povo que fica na fila por uma caixa ou uma misera panela de comida.
 
Chegámos a uma conclusão simples, que o público pode não gostar: Existem os que atacam e os que administram a miséria. Os primeiros, segundo relatam as organizações de direitos humanos, que os comandos terroristas do Hamas, cometeram crimes atrozes no ataque de 7 de Outubro e noutros episódios, incluindo execuções públicas sumárias, tomadas de reféns e ataques deliberados contra civis. É preciso dizê-lo bem alto, sem metáforas românticas, porque há responsabilidade directa de grupos armados por violência que atingiu a população civil.
 
Os segundos ocupam o gabinete improvisado da governança quotidiana, prometem segurança, controlam entradas e saídas, gerem, quando gerem, o pouco que entra. E aqui começa a tragédia absurda, quando o Estado é uma milícia que veste a pele de autoridade administrativa, a linha tenua, entre proteger e explorar, desaparece. Há relatos investigados por múltiplas fontes e denunciados por organizações humanitárias, de execuções sumárias, coerção interna e uma aplicação da lei tão brutal quanto seletiva. Quando um grupo se arma com o monopólio da ordem, as filas por comida transformam-se em mercados de medo.
 
E a ajuda humanitária? O civismo internacional envia caixas, paletes, promessas, algumas dessas promessas nunca chegam inteiras ao prato, abundam denúncias persistentes de desvio e de mercantilização do que devia ser comum, ração e medicamentos a virem parar ao mercado negro, vendidos a preços vergonhosos, enquanto os lares e as famílias desabam. As Nações Unidas e as agências que operam em campo descrevem um colapso logístico e uma dificuldade quase sistémica em garantir que a ajuda chegue primeiro aos mais vulneráveis. Quem fiscaliza a distribuição quando quem controla a rua é também quem manda aplicar a ordem?
 
Não quero e não devo simplificar, mas há também um Estado que oprime, bombardeia e bloqueia, e sobre o qual recaem acusações gravíssimas de crimes, destruição massiva de infra-estruturas e obstrução à assistência. Organizações internacionais chegaram a descrever padrões que apontam para condutas que podem constituir crimes graves. A máquina do sofrimento tem sempre duas engrenagens, uma que julga a agressão externa e outra que capitaliza a vulnerabilidade interna. Certo, certo, é que ambas destroem vidas.
 
A minha ironia não é gratuita, porque quando se lêem manchetes sobre “milícias que usam civis como escudo” ao mesmo tempo que se documentam “vendas de ajuda no mercado negro” e “execuções internas”, a sensação é de que o drama se repetiu com novos cenários e os mesmos actores. Isto não é uma alegoria, é uma sucessão de factos que pedem justiça, investigação e responsabilização. Que haja equilíbrio e que a crítica não se transforme em desculpa para criminalidade de Estado ou de movimentos armados.
 
E agora, a parte altruísta desta comédia negra, o mínimo que se pode exigir, para além das convulsões retóricas dos comentadores e das cartas indignadas dos políticos, é a ação prática. Transparência total nas cadeias de distribuição de ajuda, monitorização independente com acesso irrestrito, canais seguros para denúncias sem medo de represálias e, acima de tudo, processos judiciais imparciais quando há alegações de execuções, tortura ou desvio de ajuda. A impunidade é o fertilizante que faz florescer novas arbitrariedades.
 
E mais uma vez, Barrabás, termina com uma imagem que não é metáfora, porque ver pessoas a correr por um saco de comida, num ponto de distribuição, é ver a dignidade posta à venda. Rir dessa cena seria de um cinismo inaceitável, mesmo para o irreverente e pior mete nojo, Barrabás, criticar apenas um lado e absolver o outro por narrativa de guerra, seria de uma hipocrisia desumana e sem redenção possível.
 
Porque, desta vez, nem o sarcasmo salva os inocentes, há tragédias que não cabem em piadas, há misérias que nem a ironia consegue mascarar. Barrabás, que sempre riu do poder e das suas farsas, engole em seco e percebe que o inferno não é apenas político, é humano. É o lugar onde as vítimas têm dois carrascos, o ocupante e o libertador que as usa como escudo.
 
A ironia mordaz de Barrabás serve para chamar a atenção, pois o que se pede agora, é coragem política e um mínimo de decência operacional. Porque, no fim, se a cortina cair e os espectadores perceberem que a peça inteira era sobre roubar o futuro de quem mais precisa, não haverá aplausos que valham isso.
 
E ali, entre escombros e bandeiras rasgadas, nem o riso de Barrabás encontra eco, porque apenas sobra o silêncio cúmplice do mundo, que assiste, comenta e escolhe o lado que lhe dá mais likes. Depois desliga o televisor, lava as mãos com indignação morna e posta uma frase sobre a paz, enquanto o pó assenta sobre corpos sem nome. Barrabás observa, já sem forças para o sarcasmo, percebendo que o drama não está nas bombas, mas na indiferença, porque o mundo não morre de guerra, sofre e morre por audiências.
 
Amém!

A Peste Partidária e o Milagre Dos Candidatos Imaculados

Edição Presidenciável

Barba Azul, 23.10.25

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A Peste Partidária e o Milagre Dos Candidatos Imaculados

Barrabás abre o casaco roto, afaga as suas barbas e bigodes já grisalhos, olha o palco político e solta uma gargalhada que trespassa o ar como faca sem fio: “Agora todos são virgens, todos nasceram ontem, todos independentes como órfãos à procura de uma herança. Há uns anos, vendiam-se partidos ao quilo, mas hoje vendem-se consciências embaladas a vácuo. Chamam-lhe nova política, eu chamo-lhe desodorizante ideológico, tapa o cheiro, mas o corpo continua a suar falsidade.”
 
Há quem diga que a política portuguesa anda doente. Mentira, a política portuguesa é o próprio vírus, a bactéria, e os seus portadores são os candidatos que agora, milagrosamente, se apresentam ao eleitorado como "Santos de Convento Sem Hábito".
 
De repente, ser “apartidário” virou certificado de pureza moral, uma espécie de vacina espiritual contra o contágio ideológico.
 
Com excepção de António Filipe, honra, lhe seja feita, que continua a ter o desplante de assumir a origem política, como quem entra num restaurante e admite que come carne, o resto da fauna eleitoral anda mascarada, e não de carnaval, mas mascarada de independência.
 
Ser “independente”, hoje, é o novo luxo. É o perfume Chanel nº 5 da política. Todos querem usar, só que ninguém quer dizer quanto custou.
 
Mas a verdade é simples: estes “independentes” são como o bacalhau à Brás, todos têm restos de partido, só que picadinhos e fininhos, para disfarçar.
 
A ideologia tornou-se, aparentemente, o novo vírus medieval, "A peste negra da ideologia". Falar de socialismo, liberalismo ou conservadorismo, é tão perigoso como tossir na cara do eleitor.
O candidato moderno já não tem convicções, tem “opiniões pessoais”, já não defende programas, “acredita em causas” e já não militam, “colaboram pontualmente”.
 
É como se todos tivessem passado pela lavandaria moral da democracia, saindo branquinhos, sem nódoas ideológicas, prontos a posar para selfies em feiras e lares de idosos.
 
Mas há um problema, quando todos são independentes, quem é que ainda é responsável?
A culpa, tal como a ideologia, morre sempre solteira.
 
Os novos candidatos presidenciais, não têm partido, mas têm três santos de devoção:
 
São Marketing, que os livra do mal da coerência.
 
Santa Comunicação Social, que os protege dos factos.
 
Espírito Santo da Sondagem, que desce sobre eles sempre que há uma subida de meio ponto percentual.
 
Uma autêntica e verdadeira "Santa Trindade do Candidato Pós-partidário".
 
Repare-se no milagre: o candidato “independente” fala como um político, veste-se como um político, mente como um político, mas jura que não é político.
 
É o equivalente democrático de um alcoólico anónimo, que só bebe às refeições e alega, “Não sou político, só participo em campanhas.”
 
Esta febre de despartidarização, é o primeiro sintoma de uma praga maior, o colapso total da confiança e dos valores da Democracia.
 
O eleitor já não acredita em partidos, mas também não acredita em quem finge não ter um.
O resultado é uma multidão de eleitores órfãos, a votar em candidatos, que prometem “mudar tudo”, enquanto se ajoelham secretamente no altar das máquinas partidárias que os lançaram, ou seja, é o chamado "Apocalipse Eleitoral".
 
Estamos perante a política versão “IKEA”, montada em casa, sem instruções e com peças que sobram.
 
António Filipe, ao menos, não disfarça, assume a bandeira, o passado e as cicatrizes. E isso, num país onde todos querem parecer virgens, depois de uma década de congressos, é quase um acto revolucionário.
 
Os outros, esses, continuam a apresentar-se como “independentes”, esquecendo que a verdadeira independência política, não vem de cortar o cordão umbilical ao partido, mas sim, tem tudo a ver com coluna vertebral.
 
No fundo, o eleitor vê tudo isto e sente o mesmo que um doente ao ver o médico tossir:
Desconfia que o vírus já ganhou, porque na realidade e perante os factos, o vírus somos nós.
E Barrabás, saindo da catacumba, como se ainda estivesse vivo, talvez dissesse:
 
“Quando todos juram ser independentes, é sinal de que já venderam a alma, só falta saber a que partido.”

Proibido Pensar, Proibido Tocar, Proibido Viver

Barba Azul, 23.10.25

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Proibido Pensar, Proibido Tocar, Proibido Viver

Manual de Sobrevivência do Professor Moderno
 
Há quem diga que os professores são os jardineiros do futuro. Em Famalicão, aparentemente, são jardineiros sem regador, sem luvas e, agora, sem telemóvel. A Direção do agrupamento decidiu que, se os alunos não podem usar o telemóvel, os professores também não, numa tentativa de igualdade pedagógica que, na prática, é o equivalente a proibir o piloto de usar o manche, porque os passageiros não têm acesso ao cockpit, não podem, nem devem poder pilotar a aeronave.
A ideia é simples, então se os miúdos são proibidos de ter distrações, os adultos também. E chegamos a esta tristeza, para não dizer, que a estupidez, também já foi institucionalizada.
 
Portanto, toma lá que é democrático. É a revolução da paridade pela imbecilidade. O agrupamento decidiu dar o exemplo, e deu, o exemplo perfeito de como se confunde autoridade com autoflagelação.
 
Barrabás, se fosse professor, já teria pedido transferência para o Calvário, onde ao menos a crucificação vinha com reconhecimento público e três dias de descanso garantido. Porque neste sistema, o suplício é diário, o prego é administrativo e a coroa de espinhos chama-se “orientações do Ministério da Educação”.
 
O argumento foi, de que, “os professores devem dar o exemplo”, soa bonito, sobretudo dito por quem não tem de enfrentar trinta adolescentes com défice de atenção, excesso de TikTok e pais que ligam para reclamar porque o menino foi repreendido por chamar “velho cringe” ao docente. É fácil falar de exemplo, quando o maior desafio do dia é alinhar as canetas na secretária do gabinete.
 
A proibição dos telemóveis é o primeiro passo de uma nova pedagogia, a pedagogia do chicote invisível. Primeiro, tiram-lhes o telemóvel, depois, o café, a seguir, a voz e em breve, o direito de existir fora do quadro de aula e de giz nas mãos. No futuro, o professor ideal será mudo, imóvel e substituível por um PowerPoint com sensor de movimentos.
 
Mas atenção, não é ideológico, como bem sublinha o texto base. É apenas estúpido. Uma estupidez tão pura, tão destilada, que devia vir em frascos, com selo de autenticidade e ser vendida como essência de gestão educativa.
 
E o mais fascinante é que o agrupamento acredita que entrou para a História. Entrou, sim, mas pela porta dos fundos, com um letreiro a dizer: “Aqui jaz o bom senso, é proibido usar telemóvel durante o velório.”
 
A Direção sonha com uma escola monástica, onde professores e alunos vivem em castidade tecnológica. Só falta instituir o voto de silêncio e a autoflagelação pública de quem ousar abrir o WhatsApp para pedir uma reunião. A seguir, virá o toque de recolher pedagógico, onde nenhum professor poderá ser visto arreganhando o dente e a sorrir em público, sob pena de ser acusado de falta de seriedade institucional.
 
E, claro, quem ousar pensar pela própria cabeça será enviado para o departamento de recursos desumanos, para reaprendizagem cívica e moral.
 
Perante esta execrável atitude, podemos dizer que, com tantas medidas restritivas, o que se está a construir não é uma escola, é mais um convento secular, onde o saber é pecado e o cansaço é virtude.
 
E a verdade é esta, o respeito pelos professores não se perdeu apenas, foi deliberadamente vandalizado e grafitado com as palavras “vocês que se aguentem”. O Estado olha para eles como para electrodomésticos que já cumpriram a garantia.
 
E Barrabás, o irónico profeta do desassossego, sempre irónico, perverso e cínico, talvez dissesse:
“Quando os professores são proibidos de usar o telemóvel, não é para dar o exemplo, será para garantir que não ligam a ninguém a pedir socorro.”
 
E assim segue o ensino em Portugal, entre a precariedade, a humilhação e a pedagogia da obediência.
 
A nau Catrineta educativa, afunda-se devagarinho e os marinheiros, agora sem telemóvel, nem sequer podem pedir ajuda.
 
E Barrabás levantou-se da poeira do tempo, olhou para as escolas e murmurou:
 
“O fim não virá com fogo nem enxofre, mas com circulares internas e reuniões intermináveis. As trombetas do Apocalipse soarão em tom burocrático, assinadas por um diretor que acredita estar a salvar o mundo, enquanto apaga o último vestígio do pensamento livre. Quando o professor deixar de ensinar, para apenas cumprir, quando o silêncio se confundir com disciplina e a obediência com virtude, então, meus filhos, saberão que o futuro já não precisa de mestres, apenas e só de vigilantes.”
 
E dito isto, Barrabás apagou o quadro, desligou o projetor e foi-se embora, deixando a campainha a tocar sozinha, num recreio onde já ninguém sabe o que é aprender.

O Legado de Francisco Pinto Balsemão

Com os meus sentidos pêsames

Barba Azul, 23.10.25

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O Legado de Francisco Pinto Balsemão
 
O Homem que Fez da Liberdade o seu Estandarte, um Cavalheiro entre Cavalheiros
 
Há nomes que não se escrevem apenas com letras maiúsculas, escrevem-se com consciência, com tempo, e com a rara decência de quem atravessou a História, sem a usar como espelho, mas como bússola. Francisco Pinto Balsemão pertence a essa estirpe de homens que não precisam ser exaltados porque já o foram pela própria coerência.
 
Num país tantas vezes esquecido de agradecer, Balsemão é o retrato de uma Portugalidade feita de serenidade e firmeza, de prudência e coragem. Jornalista, empresário, político, mas, acima de tudo, humanista, um dos últimos que acreditaram, genuinamente, que a palavra tem valor, que a verdade deve resistir à conveniência, e que a democracia não é uma herança: é uma tarefa diária.
Enquanto fundador do Expresso, deu à liberdade de imprensa uma casa e um timbre. Num tempo em que o medo ainda se disfarçava de silêncio, Balsemão fez da notícia uma forma de resistência. E, quando a democracia ainda ensaiava os primeiros passos, foi dos poucos que compreenderam que sem uma imprensa livre não há cidadãos, há apenas espectadores.
 
Como primeiro-ministro, não foi um homem de ataques súbitos de raiva ou paixão nem de messianismos. Foi e ficará na memória um símbolo da responsabilidade política sem ruído, da liderança sem espetáculo. Numa era em que o poder se mede em decibéis e curtidas, Balsemão é o lembrete sereno de que governar é servir, e servir é escutar.
 
Mas o seu maior legado não cabe em currículos nem se mede em mandatos. É um legado ético, o da palavra dita com medida, o da ação pensada com consequência, o da independência como forma de vida. Pinto Balsemão representa o raro equilíbrio entre a prudência do estadista e a ousadia do sonhador.
 
Num tempo em que a liberdade de imprensa volta a ser questionada, em que as fronteiras entre a verdade e o ruído se diluem, o seu exemplo foi sempre uma âncora e farol. A cada jornalista que escolhe resistir à pressa e à manipulação, há um pouco de Balsemão nesse gesto. A cada cidadão que exige transparência e respeito, ecoará sempre o seu legado.
 
Francisco Pinto Balsemão não precisou ser popular, precisou apenas de ser íntegro e foi.
Num país que tantas vezes esquece os seus construtores, este é o momento de reconhecer: a democracia portuguesa deve-lhe parte do seu rosto mais digno.
 
E se há amores que definem uma vida, o de Pinto Balsemão foi, é e será sempre o mais nobre de todos, o amor pela liberdade.
 
Barrabás, que raramente agradece, levanta hoje o olhar e tira o chapéu, boné, não por cortesia, mas por respeito a Francisco Pinto Balsemão, esse homem que nunca precisou de gritar para ser ouvido, nem de prometer para cumprir; que ensinou, sem cátedra nem púlpito, que a liberdade não é um luxo de tempos prósperos, mas o alicerce de qualquer tempo digno e por isso, em nome de todos os cínicos que ainda acreditam na verdade, Barrabás agradece-lhe por ter sido o guardião discreto da decência e o último romântico de uma imprensa que ainda sabia distinguir o poder da palavra do poder pelo poder.

Barrabás e a tragédia de 773 mil euros

Edição Presidenciável

Barba Azul, 23.10.25

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Barrabás e a tragédia de 773 mil euros

 
No palco sombrio de Portugal, onde o vento traz rumores de promessas quebradas e aplausos falsos, surge um acto digno de tragédia: Marques Mendes, antigo dirigente do PSD, e seu cúmplice desconhecido, cometem a ousadia de vender ilegalmente ações de uma empresa em Tondela, lesando o Estado em 773 mil euros. Setecentos e setenta e três mil euros! Um número redondo, meticulosamente composto, como se os deuses da bolsa tivessem sussurrado a cifra aos seus ouvidos.
 
Barrabás, com o seu casaco negro de espectador eterno, surge no palco imaginário, erguendo o copo de vinho. “Eis o triunfo do génio político: roubar o público e ainda assim manter a pose de cavalheiro”, murmura, com sorriso de escárnio e olhos de lince. Para ele, a ilegalidade não é um crime, é coreografia, não é falha, é performance e o Estado, coitado, é mero figurante, sempre atrasado, sempre distraído, sempre aplaudindo de forma involuntária.
 
Enquanto a população geme com cortes e austeridade, Marques Mendes move-se com a graça de um vilão shakespeariano, cada gesto calculado, cada olhar firme, como se dissesse: “O dinheiro público é um adereço, e a lei, apenas uma sugestão poética.” Barrabás observa, e não esconde o seu prazer sádico: “O teatro está completo, o espetáculo perfeito, a moral humilhada, a ética enterrada e nós, meros pecadores mortais, a contemplar o desastre como se fosse algo inevitável.”
 
E no apogeu do drama, o número 773 mil euros, impiedosamente exacto, como uma sentença divina. É a quantia que transforma uma notícia num mito, um escândalo numa fábula de avareza. Barrabás, então, levanta-se da poltrona invisível e declama para o vazio: “Vejam, cidadãos, o que vos espera se ousarem medir a ganância política com a régua da honestidade! Este é o país em que vivemos e enquanto os culpados dançam, a justiça dorme anestesiada.”
 
A tragédia fecha o seu véu, o vinho é derramado, as manchetes mudam, e Barrabás desaparece nos bastidores do tempo, deixando atrás de si uma lição amarga e elegante, porque, no fim, Marques Mendes é apenas o protagonista de uma farsa grega moderna, um vilão refinado, um Estado indefeso e nós, espectadores cúmplices, a rir nervosamente com o sarcasmo, como único escudo contra a desgraça.
 
Portugal, tem sido transformado num palco infindável de tristes episódios, onde a moral pública é uma cortina de veludo rasgada à primeira ventania, e eis que Marques Mendes, antigo dirigente do PSD, agora candidato à Presidência da República, surge no centro das atenções não pela virtude cívica, mas por ter vendido ilegalmente ações de uma empresa, em Tondela, lesando o Estado em 773 mil euros, um número redondo, quase poético, digno da tragédia grega moderna.
 
Barrabás, com o seu copo de vinho na mão e sorriso, hipocritamente sádico, observa este espectáculo com deleite, apontando a ironia cruel de um país que exige rigor absoluto aos cidadãos comuns, enquanto ele, putativo futuro chefe de Estado, transforma o roubo num gesto elegante, a ilegalidade numa coreografia de mestre, e o Estado Nação, coitado, num figurante distraído que assiste, impotente, à farsa política, lembrando-nos que, no Portugal dos pequeninos, o charme e a pose, muitas vezes valem mais que a ética, e que, se a Presidência fosse medida em audácia teatral e capacidade de fazer o público aplaudir, enquanto o país perde 773 mil euros, Marques Mendes seria um campeão absoluto da pouca vergonha.
 
E Barrabás, continua a sorrir, cínico, hipócrita e impiedoso como sempre, deixa o seu veneno: “Que comece a próxima peça. Não tardará, e os números redondos estarão de novo à mesa. O espetáculo nunca termina, apenas muda de protagonistas.”

O Evangelho Segundo Daniel Oliveira, o Jeremias do Expresso

Edição Bíblica

Barba Azul, 21.10.25

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O Evangelho Segundo Daniel Oliveira, o Jeremias do Expresso

Entre a Santa Inquisição e o Museu do Comunismo
 
Está crónica é dedicada, por Barrabás a um país, que dá pelo nome de Portugal, onde todos têm razão, menos o país.
 
Daniel Oliveira voltou a subir ao púlpito do Expresso para anunciar a boa nova:
o PCP é “a doença infantil do comunismo”.
 
Uma frase com o mesmo rigor científico que dizer que o termómetro é culpado da febre.
O problema de Daniel é que ele fala da esquerda, como quem tenta consertar um cadáver com uns retoques de maquilhagem.
 
Chama-lhe “miopia estratégica”, quando o que há é cegueira ideológica com pretensões intelectuais.
 
E assim, entre um “diagnóstico político” e outro, o comentador faz o que a direita agradece de pé, enfraquece quem já está a morrer de anemia política, soprando-lhe frases piedosas como quem sopra incenso num velório. Disfarça a vaidade de lucidez, confunde ironia com profecia e, no fim, contribui para o obituário da esquerda com a mesma elegância de um coveiro que cita Hannah Arendt enquanto enterra um ideal.
 
Mas atenção: antes que o leitor comece a bater palmas ao PCP, convém dizer que, neste teatro, ninguém é inocente.
 
O PCP, por sua vez, continua agarrado ao século XX com a mesma devoção com que os faraós guardavam os seus sarcófagos.
 
Ainda acredita que a Revolução está à esquina, quando já não há esquinas, só rotundas.
Daniel Oliveira acusa o PCP de ser infantil.
 
Talvez seja, mas Daniel, com o seu moralismo de centro-esquerda reciclado, é o adolescente que julga que descobriu a verdade absoluta e escreve de toga imaginária.
 
O PCP, por outro lado, é o avô teimoso que ainda guarda o Avante! de 1983 e acha que o capitalismo vai cair sozinho de cansaço.
 
Continua a falar de “imperialismo”, “classe operária”, “luta anti-monopolista”, conceitos nobres, sem dúvida, mas que hoje já soam a latim numa missa de crentes em extinção.
 
Enquanto isso, o mundo mudou, o proletariado agora tem Uber, a revolução é em "live stream", e o algoritmo substituiu o velho comissário político.
 
Mas o PCP continua a distribuir panfletos em papel e a desconfiar do TikTok, como se fosse uma invenção da CIA, o que, ironicamente, até certo ponto, pode até não estar muito enganado.
E é aqui que a crítica de Daniel tem um grão de verdade, misturado com um quilo de presunção.
Sim, o PCP tornou-se previsível, sim, continua a preferir a pureza, à eficácia.
 
Mas chamar-lhe “doença”, revela o pior tipo de arrogância, o moralismo de quem julga ser o único com a sanidade intacta, num hospício político.
 
A verdade é que Daniel e o PCP, merecem-se.
 
Um é o reflexo vaidoso da esquerda ilustrada, o outro, o reflexo obstinado da esquerda fossilizada.
Um acredita que a luta política se faz com editoriais, o outro acredita que se faz com megafones e marchas ao som de “Grândola”.
 
Ambos vivem de símbolos, ambos falam para convertidos e ambos ajudam a direita, que agradece, em silêncio, este circo ideológico.
 
Enquanto Daniel escreve crónicas para “salvar” a esquerda de si própria, o PCP continua a salvar a sua identidade de tudo e todos, até mesmo do futuro.
 
É um duelo de egos travado sobre o cadáver do povo, que assiste ao espetáculo, de braços caídos, com a mesma indiferença com que muda de canal.
 
E, no meio deste teatro, quem perde é sempre o mesmo, o país, porque, entre o cronista que teoriza e o partido que não evolui, sobra um vazio político onde a direita floresce como erva daninha.
Imaginemos o último congresso do PCP.
 
As cadeiras de madeira, as bandeiras vermelhas, o eco das palavras “revolução”, “trabalhadores”, “imperialismo”.
 
Tudo igual desde 1976, excepto o cheiro, pois agora, mistura-se com naftalina e nostalgia.
Daniel Oliveira escreve sobre isso, como quem observa um animal em extinção, com ternura e desdém.
 
Mas o mais triste, é que o PCP já se habituou a esse papel, o de relíquia útil para a consciência nacional.
 
Serve para lembrar que “ainda há quem resista”, mas não o suficiente para mudar nada, ou seja, um museu ambulante com sigla partidária.
 
E, no entanto, é também verdade que sem o PCP, o país teria menos espinha dorsal, porque, apesar de tudo, é o único partido que ainda acredita em algo que não seja um cargo.
 
O problema, é que acredita como quem reza, sem perceber que a fé, sem ação adaptada, transforma-se em superstição.
 
Barrabás, o profeta do sarcasmo, aparece no fim, entre a poeira e as citações de Marx, olha para Daniel e diz:
 
“Tu julgas o PCP como quem julga um velho, esquecendo que foste tu quem lhe roubou a bengala.
 
Depois, vira-se para o PCP e murmura:
 
“Tu falas do futuro como quem declama um elogio fúnebre.
 
A tua coerência é nobre, mas a tua linguagem é um fóssil.”
 
E então, para concluir, profetiza:
 
“Quando a esquerda se divide entre o cronista que escreve e o comunista que não lê, a direita governa com minoria e o povo agradece o engano.”
 
No final, Daniel Oliveira publica mais uma crónica, o PCP organiza mais uma marcha e Portugal continua a discutir o passado com fome de futuro.
 
Dito isto, conclui que, afinal, Daniel Oliveira é o espelho da esquerda que se acha moderna por saber usar o teleponto, o PCP é o espelho da esquerda que se acha imortal por ainda cantar o mesmo hino e entre ambos, o país vai definhando, governado por quem não escreve crónicas, mas sabe assinar contratos.

Passos e o Milagre da Multiplicação dos Estrangeiros

Edição Migratória

Barba Azul, 19.10.25

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Passos e o Milagre da Multiplicação dos Estrangeiros

Ou Como Ressuscitar o Medo com Uma Só Frase
 
Meus caros ingratos, Passos Coelho voltou a falar, o que, convenhamos, é sempre um momento de rara arqueologia política. O homem que nos ensinou que “aguenta, aguenta” é uma filosofia de vida, regressa agora com um novo slogan para a era da ansiedade: “Portugal para os portugueses que sobraram.” O profeta da austeridade, que já foi o São João Baptista do défice, desenterra-se dos arquivos do Pingo Doce, para anunciar a boa-nova do apocalipse demográfico, os estrangeiros vêm aí, e, piores ainda, com reagrupamento familiar. Um escândalo! Como se as pessoas, vejam lá a ousadia, quisessem viver juntas.
 
Passos, que outrora sonhou com um país enxuto e sem gorduras, humanas ou orçamentais, agora teme o contrário, um país a abarrotar e repleto de invasores. Cheio de gente, cheio de sotaques, cheio de realidades que não cabem nas planilhas de Excell do FMI. É a tragédia da prosperidade: depois de empobrecer a nação até o limite do “ajuste”, agora o problema é haver quem queira viver cá. É mais um milagre português, afinal, foi tão bem contado que os estrangeiros acreditaram. Visitaram Fátima e vieram para ficar.
 
Mas Passos não fala de números, fala de sensações. O português sentir-se estrangeiro “na sua própria terra” é uma imagem poética, quase bíblica, como se estivéssemos todos condenados a errar pelo Chiado, à procura de um café onde ainda se sirva pastel de nata em vez de "croissant au pastel". A sua preocupação é genuína, no sentido em que é genuinamente calculada, com um toque de medo, uma pitada de ressentimento, fazendo com que o liberalismo de Miguel Morgado ganhe molho nacionalista, quanto baste, uma direita com coluna vertebral, ainda que às vezes a coluna pareça uma régua de escola primária.
 
Sublime ironia, tudo isto no lançamento de um livro chamado Introdução ao Liberalismo. É como lançar o Manual da Dieta Mediterrânica num rodízio brasileiro. Porque, convenhamos, falar de “liberalismo” enquanto se alerta para o excesso de estrangeiros é o mesmo que defender “liberdade de mercado” e depois pedir que fechem a loja quando aparecem novos clientes.
 
No fundo, Passos Coelho é o Nostradamus do medo retroativo, prevê o que já aconteceu e anuncia o que ninguém pediu. Vê imigração como ameaça, quando na verdade é o único sinal de vida num país que exporta jovens como se fossem sardinhas em conserva. Ele fala de sentir-se estrangeiro na própria terra e tem razão, porque há muito que Portugal não é o país dele. O país dele acabou em 2015, com as tabelas de Excel do FMI, as lágrimas do Gaspar e o som do “corte, corte, corte” a ecoar no vazio das repartições públicas.
 
Hoje, Passos Coelho, político, é um fantasma que se recusa a perceber que o país mudou, que a “terra” onde ele diz ser profeta já não fala a mesma língua nem aceita as mesmas penitências. E se há estrangeiros entre nós, talvez o primeiro seja ele, exilado numa nostalgia liberal que só existe nos discursos de apresentação de livros que ninguém lê.
 
Mas sejamos justos, porque há um lado altruísta nisso tudo. Passos quer proteger-nos, quer salvar o português de se sentir estrangeiro, enquanto ele próprio se esforça por nos fazer sentir culpados por existirmos. É o messias do desconforto, o homem que quer libertar o país… de si mesmo.
No fim, resta-lhe a glória dos profetas mal interpretados, e que dizem que “na sua terra não têm honra”, talvez porque, sejamos honestos, nunca ninguém pediu que tivessem um microfone.
 
Por todas estas razões, que a própria razão desconhece, Barrabás o cínico, o hipócrita, o rançoso, abre os pulmões e grita: "Aleluia Pedro, a Pátria agradece, desculpa lá, mas tem que ser em várias línguas".